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Mulher que deu show de homofobia em padaria e o privilégio branco que João Alberto não teve no Carrefour

Karol Gomes - 23/11/2020

Quando Lidiane Biezok, de 45 anos, desferiu ataques homofóbicos em uma padaria de um bairro de classe média alta de São Paulo, na última sexta-feira (20), agredindo clientes e jogando objetos, ela não foi arrastada por seguranças ou contida no chão até não conseguir mais respirar, como aconteceu com João Alberto de Freitas, morto por seguranças do Carrefour da zona norte de Porto Alegre, um dia antes. 

Segundo apuração do UOL, Lidiane, que afirmou ser advogada e possuir transtorno bipolar, foi escoltada sem uso de violência por parte da polícia, que teve até dificuldades para contê-la. Viva após o caso, ela ganhou direito a resposta e reclamou da padaria onde tudo aconteceu, ameaçando processar o estabelecimento.

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A fúria que só tem direito quem é branco 

Nos vídeos, é possível ver Lidiane agredindo um cliente na padaria Dona Deôla, no bairro da Pompeia. Todavia, o começo da confusão ainda não havia sido totalmente esclarecido. Novas gravações divulgadas pela empresa mostram que houve uma briga com funcionários, inclusive com outras ofensas homofóbicas. Ela afirma, porém, que foi vítima e que está recebendo ameaças pela internet.

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Segundo Lidiane, em entrevista ao UOL, a confusão começou quando dois clientes foram filmá-la, “apenas por provocação”, diz ela. Mas novos vídeos divulgados pela padaria mostram ela maltratando funcionários. Carolina Mirandez, coordenadora de marketing da Dona Deôla, afirmou que Lidiane era uma cliente que costumava criar problemas no local.

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É muito comum que ela venha aqui. Ela fica e consome, mas reclama da comida. Sempre foi grosseira, mas nunca teve um problema tão grande. Ela estava exaltada, reclamando da comida e destratando funcionários. Ela disse que, se a comida não estivesse boa, ia arremessar. O supervisor tentou acalmar. O atendente nosso percebeu que ela estava se exaltando contra o supervisor, que é um senhor, e pediu para ela falar baixo. Ela virou e falou ‘sai, seu viado’ e uma série de palavrões. Então os clientes se levantaram e começaram a filmar, contou Carolina para o UOL.

Já Lidiane reforça ter sido agredida antes. “Eu estava pegando minha bolsa para ir embora e não queria fazer nada. Mas eles me agrediram. Antes de eu agredir, eles me agrediram, quando eu ainda estava sentada. Pegaram meu cabelo e disseram que era pixaim”, alega a advogada. Mas Carolina nega que isso tenha acontecido: “Ela foi abordada por dois clientes, mas não teve agressão. Foi abordada, eles questionaram, disseram que ela não podia falar daquele jeito. Mas agressão não teve”, disse ao portal. 

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O show de homofobia de Lidiane reforça o privilégio branco no Brasil

Lidiane alega que por ser ‘bipolar‘ não suportou as supostas provocações. “Eu tenho bipolaridade. Chega uma hora que eu não aguento. Foi uma crise de bipolaridade. E ainda estou tendo crise. Minha mão não para de tremer. Eu sou inválida. Quando tem provocação, acabo perdendo a cabeça. Mas pedi desculpas. Falei coisas que não queria, que não sinto isso”, explica. Ela reclama ainda do ‘politicamente correto‘ e negou que seja preconceituosa, afirmando ser a maior vítima da história. 

‘Isso aqui é uma padaria gay?’ 

A negação causa estranhesa, já que Lidiane Biezok usou os seguintes termos para xingar os funcionários da padaria: “cala a boca, sua bicha do c*ralho”, “isso aqui é uma padaria gay?”

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Apesar de Lidiane dizer que não foi à delegacia, a Secretaria de Segurança de São Paulo confirmou que ela foi detida. E, de acordo com Carolina, a mãe de Lidiane foi buscá-la e conseguiu sua liberação porque teria mostrado um atestado de transtorno mental.

Confira a nota publicada pela padaria Dona Deôla nas redes sociais:

“Lamentavelmente, na noite de ontem, funcionários e clientes da nossa padaria na Pompeia foram alvo de ofensas racistas, homofóbicas e transfóbicas, que podem inclusive configurar crime. Por isso, seguindo a orientação que lhes foi dada, a nossa equipe acionou a polícia para que as providências fossem tomadas. A Dona Deôla se solidariza com as vítimas desse ato repugnante e se coloca à disposição para prestar toda assistência necessária. Reiteremos o nosso repúdio a qualquer tipo de discriminação e o nosso compromisso com a proteção e o bem estar dos nosso funcionários e clientes”.

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Foto: Reprodução/Twitter


Karol Gomes
Karol Gomes é jornalista e pós-graduada em Cinema e Linguagem Audiovisual. Há cinco anos, escreve sobre e para mulheres com um recorte racial, tendo passado por veículos como MdeMulher, Modefica, Finanças Femininas e Think Olga. Hoje, dirige o projeto jornalístico Entreviste um Negro e a agência Mandê, apoiando veículos de comunicação e empresas que querem se comunicar de maneira inclusiva.

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