Matéria Especial Hypeness

O Saci é indígena: origem parte da cultura Guarani e lendas têm grande influência africana

por: Bárbara Martins

Símbolo de resistência cultural e anti-imperialista no Brasil, a figura do Saci tem origem indígena e se transformou a partir de lendas com fortes influências africanas, mas também portuguesas e até árabes, segundo algumas fontes.

O menino negro, de uma perna só, que veste um gorro vermelho e fuma cachimbo se popularizou no imaginário folclórico do país como Saci-Pererê. Contudo, o que poucos sabem, é que ele coexiste com o garoto indígena de duas pernas, protetor das florestas e morador das matas Jaxy Jaterê (ou Yasy Yateré), uma entidade tradicional Guarani.

Por meio de uma thread no Twitter, a comunicadora indígena @Karibuxi compartilhou um pouco da história e da raiz indígena do Jaxy Jaterê na rede social.

A partir do post, o Hypeness foi atrás das origens nativas do Saci, que, contadas de geração em geração, sobrevivem ao poder do tempo e resistem às constantes tentativas de apagamento das culturas e dos saberes originários da América Latina e da África.

Jaxy Jaterê: o Saci indígena

Também chamado de Kambaí em algumas aldeias guarani, Jaxy Jaterê, o “Saci indígena”, se tornou protagonista de diversos livros do escritor de literatura nativa Olivio Jekupé, que é natural do Paraná e, hoje, reside na aldeia Krukutu, em São Paulo.

Aos 55 anos, Olivio tem 21 títulos publicados, entre os quais estão “O Saci verdadeiro” (Editora Eduel, 2003), “Ajuda do Saci” (Editora DCL, 2006) e “O presente de Jaxy Jaterê” (Panda Books, 2017).

Em entrevista ao Hypeness, Olivio falou sobre quem é Jaxy Jaterê na cultura Guarani e como as histórias sobre a entidade indígena construíram as bases da figura do Saci popularizada em todo o Brasil.

Escritor guarani Olivio Jekupé (à esquerda) e livro “O Saci verdadeiro”, publicado em 2006, pela Editora Eduel (à direita)

“Quando eu era pequeno, eu tinha escutado muita história sobre o Saci na visão indígena”, conta o escritor, que também é ex-aluno do curso de Filosofia da Universidade de São Paulo (USP).

“No Brasil, em qualquer aldeia guarani em que você for, você pode ouvir sobre um personagem que é o protetor da floresta, chamado Jaxy Jaterê. Mas também, conforme o dialeto guarani, ele é conhecido como Kambaí.”

Jaxy Jaterê, ele é o protetor da floresta. Então, na aldeia, a gente já tem esse conhecimento de história, que a gente sempre ensina pras crianças”, continua Olivio. “O nosso personagem Jaxy Jaterê, ele não é um folclore, ele é uma história viva, que é contada até os dias de hoje.”

O paranaense detalha também a importância de Jaxy Jaterê como parte da crença guarani. Quando você conta uma história que é da nossa crença, ela é uma história viva ainda. A gente não classifica como folclore, porque faz parte da crença, diz Olivio em contraponto à noção folclórica do Saci.

As crianças sabem que você não pode destruir a floresta, porque ali é moradia de Jaxy Jaterê, o protetor da floresta.

Capas dos livros ‘Ajuda do Saci’ e ‘O presente de Jaxy Jaterê’, de Olivio Jekupé

Mistura cultural indígena e africana

Segundo Olivio e as histórias guaranis que sempre ouviu, o imaginário do Saci arteiro e cheio de artimanhas começou a ser criado a partir de lendas que promoviam a mistura da entidade indígena com influências da cultura africana, que se mantiveram vivas com os escravizados trazidos para o Brasil.

“Eles [negros africanos] foram escravizados por muitos, muitos anos. Eles ficavam revoltados com tudo isso que acontecia e, na época, eles amarravam o rabo do cavalo; à noite, eles faziam um monte de bagunça pra se vingar dos senhores de engenho, conta.

“E os senhores de engenho, naquela época, eles não saíam pra fora [pra mata], porque eles não eram besta, né? Eles tinham medo de sair, porque, se eles saíssem, eles tinham medo de, de repente, encontrar um negro solto, que podia matá-los. E também podiam encontrar um índio no meio da floresta.”

“Então, eles saíam só no outro dia, porque daí os capitães do mato — que protegiam o senhor de engenho — iam lá pra poder ver o que que aconteceu e tentavam castigar os negros”, continua Olivio.

Escravizados negros trabalhando sob supervisão de senhor de engenho em 1845, no Brasil

“Os negros, pra tentar se proteger, falavam que não foram eles que fizeram aquilo [as travessuras]. Daí, eles falavam que quem fez aquilo foi o ‘neguinho de uma perna’, que ele é bagunceiro, que ele faz bagunça, que ele amarrava o rabo do cavalo, essas coisas.”

De acordo com Olivio, a “transformação” de Jaxy Jaterê em Saci-Pererê aconteceu como uma espécie de sincretismo usada pelos negros escravizados para enganar os senhores de engenho e, assim, conseguir se proteger de punições.

Na verdade, esse ‘neguinho de uma perna’ seria o protetor da floresta na África, nas crenças [africanas]. Daí, por coincidência, eles falavam que era ele [a entidade protetora da floresta na África], mas só que não falavam o nome dele. Então, usaram como uma proteção.

“Daí, os negros também sabiam de um pouco da cultura indígena e, nisso, eles pegaram esse personagem [Jaxy Jaterê] e, na época, falavam que era o ‘neguinho de uma perna’, e não falaram o nome africano”, explica.

Olivio também diz que o nome da figura folclórica que se popularizou pelo Brasil nasceu por conta de um erro de pronúncia.

“Eles [negros africanos] não conseguiam pronunciar o nome certo, e a palavra ‘Jaxy’ virou ‘Saci’, e a palavra ‘Jaterê’ eles pronunciavam ‘Pererê'”, conta.

O escritor diz ainda que, por coincidência, a palavra “pererê” existe em guarani, mas é como se fosse um palavrão: significa algo próximo a “peidorreiro”, em tradução livre para o português.

Jaxy Jaterê na América do Sul

Apesar da difusão de lendas sobre o Saci em todo o território nacional, Olivio chama atenção para a existência de “dois Sacis” no Brasil: o do folclore, que se baseia na mistura de crenças indígenas e africanas, e o Jaxy Jaterê, protetor da floresta na cultura Guarani.

Ao mesmo tempo, o escritor também adiciona que, no Paraguai — onde a etnia guarani é bastante presente —, as histórias sobre Jaxy Jaterê são bem parecidas com as do Brasil, mas que as lendas sobre o Saci-Pererê são desconhecidas.

“No Brasil, em qualquer aldeia Guarani que você for, se você falar do Jaxy Jaterê, eles conhecem”, explica Olivio.

“Se você for no Paraguai, como o povo lá fala guarani — tanto o indígena da aldeia, como o povo da cidade —, se você falar o nome de Jaxy Jaterê, todo mundo conhece, porque lá se conta a história do personagem indígena.”

Registro de aldeia guarani no Mato Grosso do Sul, em 2012

Primeiro indígena a publicar livros sobre Jaxy Jaterê, Olivio Jekupé ressalta o valor cultural das histórias sobre essa entidade.

Você não pode matar os animais à toa, porque o Jaxy Jaterê não vai gostar. Por isso, nós educamos nossas crianças a valorizar nossas histórias, porque é assim que você se apaixona pela floresta, porque a gente sabe que ali tem uma moradia.

“Então, a floresta não é só uma árvore, ela é um lugar sagrado, onde tem os espíritos da floresta, tem o Jaxy Jaterê. Nós somos protetores da floresta nesse sentido: porque a gente sabe que ali tem moradias.”

As histórias compartilhadas por Olivio receberam apoio do espanhol Bartolomeu Melià (1932 – 2019), considerado o maior antropólogo do Paraguai, país sul-americano onde se radicou.

Ao ser contatado pela editora responsável pela publicação do livro “O Saci verdadeiro” — que se preocupou ao transmitir uma história tão inédita na literatura nacional —, Melià foi direto, segundo Olivio: “Pode publicar, porque a história é verdadeira”, disse o antropólogo.

Antropólogo Bartolomeu Melià junto a lideranças guaranis no Paraguai, em 1990

Autor do que chama de literatura nativa — própria da cultura indígena, escrita por um representante nativo (e não por brancos), sobre o que eles mesmos vivem e conhecem, a partir das especificidades de cada etnia —, Olivio Jekupé adiciona ainda como enxerga a contraposição entre cultura viva e folclore.

O folclore é aquela coisa que a pessoa, na verdade, não acredita. Nós não, nós acreditamos naquela história. Então, aquela história pra nós, ela é viva. Já o folclore é uma coisa, assim, pode-se dizer morta, né? Que as pessoas não acreditam.

Saci-Pererê: o folclore, a África e Monteiro Lobato

O livro “O Saci“, escrito por Monteiro Lobato (1882 – 1948) e publicado em 1921, colaborou em peso para que as lendas sobre o Saci negro, bagunceiro e de uma perna só ficassem conhecidas em todo o país.

Contudo, na publicação do autor paulista, a figura do Saci não é documentada como uma das mais amistosas.

Logo no início da história, o personagem Pedrinho, neto de Dona Benta, vai ao encontro de Tio Barnabé, descrito como um ex-escravizado, e pede informações sobre a tal figura mítica:

“O saci — começou ele [Tio Barnabé] — é um diabinho de uma perna só que anda solto pelo mundo, armando reinações de toda sorte e atropelando quanta criatura existe. Traz sempre na boca um pito aceso, e na cabeça uma carapuça vermelha. A força dele está na carapuça, como a força de Sanção estava nos cabelos. Quem consegue tomar e esconder a carapuça de um saci fica por toda vida senhor de um pequeno escravo.

— Mas que reinações ele faz? — indagou o menino.

— Quantas pode — respondeu o negro. — Azeda o leite, quebra a ponta das agulhas, esconde as tesourinhas de unha, embaraça os novelos de linha, faz o dedal das costureiras cair nos buracos, bota moscas na sopa, queima o feijão que está no fogo, gora os ovos das ninhadas. Quando encontra um prego, vira ele de ponta pra riba para que espete o pé do primeiro que passa. Tudo que numa casa acontece de ruim é sempre arte do saci. Não contente com isso, também atormenta os cachorros, atropela as galinhas e persegue os cavalos no pasto, chupando o sangue deles. O saci não faz maldade grande, mas não há maldade pequenina que não faça.”

Para escrever sobre o Saci, Monteiro Lobato leu dezenas de cartas de leitores do jornal “O Estado de S. Paulo”, em 1917, que continham descrições diversas sobre as origens e características mais populares do personagem.

Com remetentes principalmente de São Paulo, Minas Gerais e Rio de Janeiro, o escritor traçou, à própria maneira, um personagem que representaria os aspectos mais citadas pelos leitores do jornal.

Ao se referir ao Saci como “diabinho” e “pequeno escravo“, porém, Monteiro Lobato contribuiu para uma visão deturpada do que o Saci representa para as culturas africanas e guarani.

Ator Izak Dahora no papel de Saci na série ‘Sítio do Picapau Amarelo’, da Rede Globo, de 2001 a 2006

Segundo o doutor em Educação e professor da UERJ-FEBF (Faculdade de Educação da Baixada Fluminense) e do Programa de Pós-graduação em Educação, Cultura e Comunicação em Periferias Urbanas (PPGECC), Luiz Rufino, é difícil traçar paralelos exatos entre entidades africanas e o Saci, mas há possibilidades consistentes de correlação.

“[O Saci] é uma figura que é atravessada por muitas contribuições. Ele estaria numa dimensão de amálgama”, explica o pesquisador.

“Obviamente, a gente vê muita coisa, sim, que estabelece relação de identificação entre o nosso Saci brasileiro e algumas manifestações, alguns princípios cosmológicos, negro-africanos.”

“Eu destacaria, dentro do complexo Iorubá, a figura de Exu, que talvez seja mais evidente, e também a figura de Aroni, que é uma espiritualidade, um agente que opera em imbricação junto ao orixá Ossain, que é um orixá que se manifesta nos domínios das plantas, da mata, da mata profunda.”

De acordo com Luiz, há ainda outras entidades negro-africanas que estabelecem o que ele chama de linhas de identificação com o Saci brasileiro.

No que diz respeito a Exu, o professor explica: “Entre a figura do Saci — que é fundamental que se diga que, nas narrativas brasileiras, aparece de diferentes formas — ele se multiplica. Isso também seria um caráter de Exu, a capacidade de ser múltiplo.”

Há uma identificação entre esses dois princípios explicativos de mundo [entre Exu e Saci], que é operar na dimensão entre regulação e transgressão. Tanto Exu, quanto o Saci operam em uma dimensão de fiscal da ética, das coisas, das relações; mas eles também são aqueles caras que transgridem, que operam praticando bagunça, brincadeira.

“Para nós herdeiros de uma tradição ocidentalizante, tão marcada pela catequização, pelo monopólio, por uma estrutura heteropatriarcal, racista, antropocena (inimiga da natureza), essas ideias [da dimensão da brincadeira, da farra, da quizumba, dos testes, das provocações] são sempre vistas como distúrbio, como erro, como desvio, como pecado.”

Eles não são seres diabólicos, não são seres que pensam a punição, são seres que trabalham numa outra lógica de pensar as relações”, completa Luiz.

Representação dos personagens Saci e Pedrinho na série animada ‘Sítio do Picapau Amarelo’, de 2012

Da mesma forma, Olivio Jekupé também comenta a demonização do Saci como uma questão prejudicial, inclusive, para o ensino infantil. “É um absurdo essa coisa de falar em ‘diabinho’. […] A criança negra estudando numa escola, quando lê um livro desse, fica com vergonha”, diz o escritor.

“Porque cê imagina a hora que cê manda o professor fazer uma leitura, e de repente vai um branco lá fazer essa leitura. Daí, tem um menino lá que é negro, e os brancos começam a rir, e esse menino negro vai passar vergonha. Isso aí é uma coisa que prejudica uma criança a estudar esse tema.”

“Ele [Saci] é o protetor da floresta na visão africana [não um ‘diabinho’]”, completa Olivio, que está em busca do apoio de editoras interessadas em publicar suas histórias nativas e autorais sobre o personagem que tanto inspirou o Saci brasileiro.

Dia do Saci versus Halloween

Com o propósito de se opor ao Dia das Bruxas (ou Halloween) anglo-saxão e de valorizar a cultura nacional, um projeto de lei federal foi proposto em 2003 com o intuito de fazer do dia 31 de outubro o Dia do Saci em todo o Brasil.

Aprovada em diversas cidades do país, a proposta deu origem a inúmeras festas anuais em homenagem ao personagem, que se tornou um símbolo subversivo de resistência cultural nacional.

Dono até de uma versão urbana que povoa paredes na capital paulista — o popular Saci Urbano —, o Saci carrega história, resistência e memória por onde quer que passe. Seja com duas pernas, seja com uma só.

Saci Urbano, personagem crítico e presente em diversos muros de São Paulo

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Foto 1 (à esquerda): Reprodução Facebook/Olivio Jekupé / Foto 1 (à direita): Divulgação/Editora Eduel / Foto 2 (à esquerda): Divulgação/Editora DCL / Foto 2 (à direita): Divulgação/Editora Panda Books / Foto 3: Getty Images / Foto 4: Getty Images / Foto 5: Getty Images / Foto 6: Reprodução/Rede Globo / Foto 7: Reprodução/Rede Globo / Foto 8: Reprodução/Blog "É O... Saci Urbano!"


Bárbara Martins
Criada em Duque de Caxias, na Baixada Fluminense, é jornalista, fotógrafa e videomaker. Envolvida pela cultura, história e arte de subúrbios e periferias, dedicou pouco mais de dois anos à cobertura de pautas relacionadas à música como redatora do site Reverb, antigo parceiro do Rock in Rio. Em formação pela UFRJ, também tem experiência com produção de conteúdo para redes sociais, assessoria de imprensa e gravação de sessions e entrevistas.

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