Debate

Passada eleição, SP vai regredir de fase na quarentena para brecar pandemia

Karol Gomes - 30/11/2020

A cidade de São Paulo, que até aqui se encontra em uma fase mais branda quanto às restrições da pandemia coronavírus, (Covid-19) poderá retroceder para o nível amarelo ainda nesta segunda-feira (30). Informações da Folha de São Paulo dão conta de que o anúncio será feito pelo Governador João Doria um dia após a eleição de Bruno Covas, também do PSDB na prefeitura da capital paulista. 

Hoje, a capital paulista, bem como regiões de Campinas, Sorocaba e Baixada Santista encontra-se na fase 4 verde, que autoriza o funcionamento normal de bares, restaurantes e lojas. Outra parcela grande do estado está na fase 3, a amarela. Todavia, o regresso a fases anteriores não deve ocorrer em todo o estado, segundo afirmou recentemente João Gabbardo, coordenador-executivo do centro de contingência. 

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Mesmo com o alerta de especialistas para a expansão preocupante de casos de covid-19 em São Paulo, os governos do Estado e do município, todavia, resistiram a uma reanálise imediata da situação paulistana, apesar da crescente ocupação em hospitais privados de referência de leitos destinados a pacientes com o novo coronavírus.

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Hospitais como Albert Einstein e Sírio-Libanês foram alguns dos que tiveram aumento recente nos casos de covid-19, acendendo um alerta entre médicos em um momento em que as medidas de prevenção contra a doença, como distanciamento social, evitar aglomerações e usar máscaras vêm sendo continuamente desrespeitadas. A alta de internações no Einstein levou à priorização de pacientes de São Paulo e à transferência de procedimentos menos complexos a outras unidades do grupo.

Em São Paulo, na campanha, os próprios candidatos a prefeito causaram e participaram de aglomerações. O candidato Boulos (PSOL), foi diagnosticado com o novo coronavírus na última semana de campanha, após um período de intensificação de contatos com pessoas nas ruas. Covas teve a doença anteriormente, mas passou sem grandes problemas. 

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Eleito prefeito de São Paulo, Bruno Covas repetiu continuamente, nas semanas seguintes ao primeiro turno, que a situação era estável toda vez que era questionado por jornalistas e até por Boulos sobre o agravamento da pandemia na capital paulista. “Há uma estabilidade da pandemia na cidade de São Paulo”, ressaltou no sábado (28) enquanto condenava a desconfiança em relação aos dados da vigilância sanitária.

O governador João Doria

“A gente teve um aumento na quantidade de internações, mas há estabilidade em relação ao número de casos e óbitos. Desacreditar a vigilância sanitária é como desacreditar os dados do Inpe que apontam aumentos de queimada no Brasil. Esse tipo de ação é que partidariza e politiza um trabalho feito pelos técnicos da prefeitura”, se defendeu.

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Na contramão de Covas, dados mostrados pelo projeto InfoGripe, da Fiocruz – que acompanha os casos de Srag (Síndrome Respiratória Aguda Grave) no país -, mostra que São Paulo capital está com tendência moderada de aumento de casos da síndrome. A síndrome é associada aos sintomas como tosse e falta de ar e pode ser causada por diversos motivos, inclusive vírus respiratórios como o Sars-CoV-2. Por isso, pode servir como indicativo das tendências da atual pandemia no país.

O aumento das notificações de Srag ocorre em pelo menos 12 capitais, com tendências de crescimento de casos forte ou moderada, e em 21 das 27 unidades federativas, conforme a informa a Folha de São Paulo. Dados da Secretaria do Estado de Saúde de São Paulo dão conta de que as internações do sábado (28) são quase 20% superiores às de 28 dias atrás

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Ainda segundo a Folha, pacientes internados em leitos de UTI chegaram, neste sábado, a cerca de 2.463 (média móvel de 7 dias). Trata-se do maior valor em pelo menos dois meses (outubro e novembro). Também vem crescendo a ocupação proporcional dos leitos de UTI na Grande São Paulo, onde a taxa chegou a 58%.

Governador João Doria, em vídeo de 13 de novembro, classificando como fake news endurecimento do combate à pandemia:

O Plano SP de restrição de atividades para controle da pandemia constituiu que a propagação da doença deve ser medida a partir de três indicadores: número de novos casos, número de novas internações (fator com maior peso na análise) e óbitos.

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“O número de novas internações reflete com maior precisão a incidência da doença na população avaliada”, afirma o anexo do decreto 64.994, de 28 de maio de 2020. “Esses três indicadores demonstram o intervalo epidêmico experimentado pela área, dando a medida da evolução da doença regionalmente”.

Baseado nisso, o decreto afirma que a situação deve ser analisada semanalmente e ter “monitoramento constante”. O próprio anexo, porém, afirma que um quadro mais grave não necessariamente resultará na passagem de uma fase mais branda para outras mais rigorosas, “pois a capacidade hospitalar poderá estar apta a absorver o impacto”.

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O que muda com a fase amarela 

Já segundo matéria da CNN, a decisão deverá ser anunciada em coletiva de imprensa ainda nesta segunda-feira (30). Todo o estado de São Paulo, diz o canal, vai regredir para a fase amarela do plano de abertura da economia. A decisão foi tomada pelo governador João Doria por conta do crescimento do número de pessoas que contraíram o novo coronavírus.

Até agora, 6 das 17 regiões do estado estão na fase verde do Plano SP. As medidas restritivas vão focar em bares, restaurantes e cinemas. Considerando os atuais critérios do governo, na fase amarela salões de beleza, bares, restaurantes, academias, parques e atividades culturais (com público sentado) podem continuar abertos, mas com restrições — há, porém, a possibilidade de abrandamento das restrições.

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Esses estabelecimentos comerciais, incluindo comércio de rua, shoppings centers, academias e prestadores de serviço poderão funcionar por 10 horas (na fase verde, eram 12 horas). Outro setor que pode ser impacto é do das atividades culturais, que só são autorizados pelo governo a partir da fase verde. Caso não haja uma mudança nos critérios, teatros, museus, bibliotecas e cinemas podem ser forçados a interromperem suas atividades.

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A regressão somente nas regiões mais críticas foi cogitada pelo centro de contigência para a Covid-19, porém o entendimento mudou. Está prevista até a manhã de terça uma reunião com prefeitos das regiões consideradas mais críticas, são elas o ABC Paulista, Baixada Santista e Sorocaba.

Veja as atuais restrições da Fase Amarela:

Shopping centers, galerias e estabelecimentos similares

  • Horário reduzido (10 horas)
  • Praças de alimentação (ao ar livre ou em áreas arejadas)
  • Adoção dos protocolos geral e setorial específico
  • Ocupação máxima limitada a 40% da capacidade do local

Comércio, serviços, salões de beleza e barbearias:

  • Ocupação máxima limitada a 40% da capacidade do local.
  • Horário reduzido (10 horas).
  • Adoção dos protocolos geral e setorial específico.

Consumo local (bares, restaurantes e similares):

  • Somente ao ar livre ou em áreas arejadas
  • Ocupação máxima limitada a 40% da capacidade do local.
  • Horário reduzido (10 horas).
  • Consumo local até 17h.
  • Consumo local até as 22h (se a região estiver a ao menos 14 dias seguidos na fase amarela).
  • Adoção dos protocolos padrões e setoriais específicos.

Academias esportivas e centros de ginástica:

  • Ocupação máxima limitada a 30% da capacidade do local.
  • Horário reduzido (10 horas).
  • Agendamento prévio com hora marcada.
  • Permissão apenas de aulas e práticas individuais, mantendo-se as aulas e práticas em grupo suspensas.
  • Adoção dos protocolos geral e setorial específico.

Eventos, convenções e atividades culturais:

  • Permitido após a região ficar ao menos 28 dias consecutivos na fase amarela.
  • Ocupação máxima limitada a 40% da capacidade do local.
  • Obrigação de controle de acesso, hora marcada e assentos marcados.
  • Venda de ingressos de eventos culturais em bilheterias físicas, desde que respeitados protocolos sanitários e de distanciamento.
  • Assentos e filas respeitando distanciamento mínimo.
  • Proibição de atividades com público em pé.
  • Adoção dos protocolos geral e setorial específico.

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Fotos: Getty Images


Karol Gomes
Karol Gomes é jornalista e pós-graduada em Cinema e Linguagem Audiovisual. Há cinco anos, escreve sobre e para mulheres com um recorte racial, tendo passado por veículos como MdeMulher, Modefica, Finanças Femininas e Think Olga. Hoje, dirige o projeto jornalístico Entreviste um Negro e a agência Mandê, apoiando veículos de comunicação e empresas que querem se comunicar de maneira inclusiva.