Inovação

Quando as crianças dominaram o mundo: uma sociedade paralela que parece saída da ficção

Vitor Paiva - 23/11/2020 | Atualizada em - 05/03/2021

Na virada do século XIX para o século XX, os jovens, aqueles que já não mais eram crianças mas ainda não haviam entrado para o mercado de trabalho e se tornado adultos, sequer eram vistos como uma fatia da sociedade – e, ainda mais, eram apartados do debate e das funções públicas de modo geral. O empresário estadunidense William Reuben George, porém, pensou diferente – e ao criar um centro de tratamento e reintrodução social para jovens, optou pelo extremo oposto, e desenvolveu uma espécie de miniatura do país, na qual tudo era gerido e construído pelos próprios jovens: assim nasceu a George Junior Republic, uma experiência social e juvenil transformadora em Freevile no estado de Nova York.

William Reuben George

O local nasceu do interesse de George em transformar os jovens socialmente abandonados e oriundos de gangues de rua em grupos ativos e produtivos dentro da sociedade – mas, ao invés de utilizar a punição ou o afastamento social, o empresário decidiu por utilizar a participação radical como método. A experiência começou no verão de 1890 com 22 jovens entre 14 e 21 anos, num espaço que se tornaria a República Junior, onde as leis, as obras, os trabalhos eram desenvolvidos pelos jovens, e da mesma forma era controlado o sistema econômico, os encargos, os papeis sociais  – a República Junior de George era como uma dramatização da vida adulta dentro da vida real.

Acima, visão geral da “República Junior” em Freevile; abaixo, o “Hotel para moças” e a “prisão” do local

As atividades geridas pelos moradores incluíam uma corte judicial, cadeia, escola, igreja, correios, bibliotecas, museus, exigindo tarefas diárias e até mesmo o pagamento de impostos. Edifícios e piscinas públicas eram construídas, hotéis e restaurantes eram administrados pelos jovens, assim como jornais, rádios, jardins públicos e até hospitais – em similaridade e seriedade idênticas às atividades ditas “reais” no mundo “adulto”. A partir da primeira experiência em Freevile, diversas outras Repúblicas Junior foram estabelecidas por todo os EUA, ao ponto de, em 1908, uma Associação Nacional de repúblicas Junior ser estabelecida, presidida por William Reuben George, com o objetivo de ajudar na gestão geral das repúblicas e de estabelecer ao menos uma dessas experiências em cada estado do país, assim como em outros países.

Duas das primeiras turmas da Junior Republic, no início do século XX (abaixo, com George ao centro, em 1908)

Aos poucos a mídia passou a se interessar pelo trabalho realizado nos locais, e a retratar a experiência como capaz de transformar a vida de jovens outrora abandonados pela sociedade, ou em situação de pobreza e desamparo – especialmente imigrantes ou minorias. Não é por acaso: juízes federais, cirurgiões, economistas de destaque, compositores, os jornalistas e vencedores do Pulitzer, William Dapping e Theodore White, até os atores Steve McQueen e Jerry Stiller passaram por algumas dessas repúblicas.

Jovens na carpintaria no local

O trabalho se tornou base para outros espaços similares, de ajuda, reintegração ou pedagogia para jovens, e muitos segues até hoje funcionando – incluindo a república original de George Junior Republic, que desde 2005 atende pelo nome de  The William George Agency for Children’s Services, Inc., com atividades direcionadas para saúde, desenvolvimento social e bem estar, trabalhando por melhorias na vida de jovens que enfrentam dificuldades.

A barbearia da Junior Republic

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© fotos: William R. George Family Papers


Vitor Paiva
Escritor, jornalista e músico, doutorando em literatura pela PUC-Rio, publica artigos, ensaios e reportagens. É autor dos livros Tudo Que Não é Cavalo, Boca Aberta, Só o Sol Sabe Sair de Cena e Dólar e outros amores.

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