Sustentabilidade

Black Plantas: ancestralidade e autoestima em perfil de cultivadores de plantas negros

por: Kauê Vieira

Calma, respira. A conhecida frase nunca significou tanto quanto no tumultuado ano de 2020. A explosão da pandemia de covid-19, que além de tirar a vida de quase 200 mil pessoas apenas no Brasil, tirou muita gente do sério com o individualismo insistente de líderes políticos que apostaram no negacionismo e numa gestão péssima de uma crise sem precedentes como saída.

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A vida virou mesmo de cabeça para baixo neste 2020. E teve mais. O racismo, que nunca descansa, encontrou brechas em meio ao desespero provocado pelo desconhecido. Ao contrário, a chaga conhecida de quem nasce com a pele preta nesses lados do mundo seguiu sua marcha ceifando vidas negras, inclusive no Dia da Consciência Negra – eternizado pelo assassinado brutal de João Alberto Freitas, morto espancado pelos seguranças Giovane Gaspar da Silva e Magno Braz Borges em uma unidade do Carrefour em Porto Alegre, no Rio Grande do Sul.  

Anderson Ferchá, criador do Black Plantas

Respirar nunca foi tão necessário, principalmente por pessoas negras sufocadas por um 2020 que escancarou ainda mais o nível de desigualdade e de valorização da vida provocados pelo racismo. Por isso se tornou ainda mais importante destacar indivíduos, pessoas e movimentos que trabalham para elevar a autoestima e ouvir o que se passa na cabeça de pretos e pretas. Afinal, como foi 2020 para uma pessoa negra no Brasil?

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O Hypeness, que também acredita na possibilidade de debater o racismo por meio de exemplos inspiradores, encontrou algumas respostas no perfil Black Plantas. Em um momento da história onde a casa – pra quem pode – se tornou um refúgio constante dos problemas, uma comunidade que destaca negros e negras falando sobre o afeto criado por meio do cultivo de plantas, se torna fundamental para seguirmos. 

Anderson Ferchá é jornalista e homem negro. Foi dele a ideia de criar o Black Plantas, conforme contou em entrevista ao Hypeness. “A ideia surgiu quando estava buscando informações para cuidar das plantas que tenho em casa”, diz ele.  

Ao fazer a busca, não vi pessoas negras nesse universo. Por experiência e formação na área de comunicação e gestão de comunidades virtuais, resolvi que era o momento de usar o meu conhecimento em prol da comunidade. As comunidades virtuais estão até no setor privado. Grandes marcas internacionais como Apple, Microsoft, e Jeep, já estão com as atenções voltadas para esse novo cenário. E nós temos que acompanhar. Não há peso nenhum em cuidar da sua comunidade usando aquilo que fazemos de melhor. Nos Estados Unidos, só para citar um exemplo, movimentos como o Black Plantas já reúnem centenas de milhares de pessoas. Nós já estamos em rede com eles para tornar esse movimento global.  

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A fala de Anderson sobre a ausência de pessoas negras no universo das plantas e jardinagem é sintomática. Uma rápida busca pela internet dá razão ao jornalista criador do Black Plantas. Mesmo àquelas comunidades que se dizem preocupadas com a diversidade apagam de seus registros os rostos de pessoas negras. Real, oficial. 

A pandemia do coronavírus viu explodir o mercado de cultivo de plantas no Brasil. Nunca se plantou ou se cuidou tanto de plantinhas como nesse momento. Os números dão conta de um avanço de 400% nas buscas por ‘jardinagem em casa’. O problema é que grande parte – pra não dizer a totalidade dos entrevistados sobre o assunto – eram brancos. Jovens, adultos e mais velhos em seus apartamentos descolados dividindo experiências de um mundo que deixa, mais uma vez de fora, a perspectiva negra

O apagamento da tradição ancestral 

A incidência do racismo é ardilosa e encontra amplificação nos microfones dos grandes veículos de comunicação. Mas, curiosamente, plantas e a relação com a terra estiveram muito mais ligadas aos negros e indígenas do que com os brancos de um apartamento hype na Santa Cecília (bairro de classe média do centro de São Paulo), por exemplo. Ora, quem aqui não se lembra da avó negra receitando boldo para acalmar o estômago pós-ressaca. Ou tomando um chá horroroso de ‘quebra pedra’ para aliviar as cólicas provocadas por cálculos renais.  

O jornalista Anderson Ferchá, fundador do Black Plantas, ao dividir suas primeiras memórias com plantas, não nos deixa mentir. 

A minha primeira memória com as plantas vem dos ensinamentos dos meus avós sobre quais eram tóxicas, quais a gente devia buscar para chás e medicamentos, e também pelas longas tardes que eu passava na rua só me alimentando de frutas e amêndoas. Isso foi antes de cobrirem tudo com cimento e asfalto. Sem árvores, agora as pessoas reclamam do calor e gastam com ar-condicionado

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O responsável pelo Black Plantas destaca como a caminhada junto ao perfil, que se tornou comunidade, estreitou seus laços com a natureza como um todo. “A minha relação com as plantas só cresce. As pessoas que chegam no Black Plantas acabam nos inspirando a ir mais fundo, a cuidar mais, a ter sempre um cantinho para uma nova muda. Aqui em casa a ‘selva’ só aumenta”, brinca. 

Ancestralidade e autocuidado 

Ter plantas em casa é uma imersão completa. Além de deixar o ambiente mais agradável, elas despertam um senso de responsabilidade. Trata-se de um ser vivo que tem necessidades básicas como nós. Isso ganhou ainda mais peso durante o isolamento social provocado pela pandemia: beber água e tomar sol – prerrogativas para o desenvolvimento saudável de uma plantinha, foram compreendidos por todos.

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Anderson nos conta que o Black Plantas foi mais procurado durante a incidência da covid-19. “As plantas ganharam mais atenção com o isolamento, e com isso a busca por informação também cresceu muito”, pontua.  

“E plantas bem cuidadas sempre nos recompensam com lindas flores, folhas novas, mudas e frutos. Isso ajuda a tornar o hábito do cultivo um caminho sem volta. As redes, como ferramenta, cumprem o papel de conectar as pessoas em torno de um propósito comum” complementa. 

Não tem como, plantar está associado com a ancestralidade pelo simples fato de exigir contato com a terra. O jornalista nos brinda com um depoimento certeiro sobre o peso ancestral de se ter plantas dentro de casa. De viver cercado por elas. 

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Plantas contra o estresse e ansiedade: 

“Quando estamos regando, podando, preparando um vaso ou fazendo novas mudas, a nossa atenção precisa estar voltada para realizar tarefas delicadas no manuseio de um ser tão frágil. Existem vários estudos que mostram que a atividade de plantar reduz o estresse e diminui o nível de ansiedade das pessoas. Hospitais, clínicas de reabilitação, escolas e lares de idosos já adotam o cultivo de hortas e jardins na recuperação de doentes e para fins terapêuticos”

Pela saúde da população negra:

“A população negra é a que mais sofre com problemas de hipertensão no Brasil. Essas doenças estão ligadas ao ritmo acelerado das cidades, por fatores socioeconômicos e, principalmente, pela tensão que é viver em um ambiente hostil por conta da cor da pele. Atividades normais do dia-a-dia como ir ao mercado, entrar em um banco e até mesmo usar um boné se tornam extremamente perigosas e estressantes para pessoas negras. Uma hora a conta chega”.

Companhia para a solidão: 

“Já recebi relatos de pessoas que só tinham as plantas para conversar. Outra me disse que acompanhar e ser responsável pelo desenvolvimento de uma planta melhorou a sua autoestima ao perceber que a vida dela era importante, pois outra vida [a planta] agora dependia da vida dela”

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A fala de Anderson dá o tom de como o autocuidado é uma busca entre os membros do Black Plantas. Os depoimentos, de pessoas negras dos mais variados tipos e características, reforçam a corrente. “A comunidade Black Plantas reúne pessoas que buscam as plantas pelos mais variados motivos. Tem os que querem embelezar o lar, tem os empreendedores do setor e até mesmo os que produzem o próprio alimento. A busca pelo autocuidado é um traço comum na maioria dos casos”.

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É vital compreender o fato de que plantas contribuem para o aumento ou até mesmo a criação de autoestima. No caso de pessoas negras, o enfoque desta matéria, é um alento para a afirmação. Como homem negro, Anderson teve sua construção social associada aos aspectos negativos que assolam nossa sociedade. Por isso é possível que muita gente se espante, primeiro, com a sensibilidade de um cara preto e, segundo, com o amor dele por plantas. 

Eu me sinto bem em ver tanta gente incrível que as plantas me apresentaram e vêm me apresentando. Acredito que imagem é poder. Precisamos entender isso. Há imagens que nos fortalecem, assim como há imagens que nos deprimem, nos fragiliza e paralisa. Imagens negativas de pessoas negras chegam até nós através do entretenimento, seja em um filme bobo, uma música ou em um programa de comédia. É através do entretenimento que os personagens de marginais, bêbados e bandidos chegam aos nossos lares e garantem o ganha pão de atores na dramaturgia mundo afora. São papéis de pessoas negras. É também através do entretenimento que  crianças brancas são apresentadas ao universo dos heróis, das princesas e rainhas. E é com isso que essas crianças vão sonhar em ser. Tudo isso influencia o subconsciente. O movimento Black Plantas ajuda de certa forma a fornecer imagens e inspiração que ampliam essa capacidade de sonhar.

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O desejo por uma autoestima solidificada está bastante presente nos comentários e depoimentos recebidos pelos que optam por dividir suas histórias com sua plantinha ou selva particular. Sobre preencher vazios. 

“As pessoas pedem dicas de cuidados, dão sugestões, mostram seus jardins e todo o amor que elas têm com as plantas. Muitas chegam extasiadas ao encontrar o perfil. A maioria diz que se sentia sozinha no universo dos amantes de plantas por ser a única, ou umas das poucas pessoas negras, dentro dessa nova tendência que vem ganhando a internet, impulsionada pelo conceito ‘Urban Jungle’, que significa ‘Selva Urbana’ traduzindo para o português. No entanto, é importante ressaltar que as pessoas que seguem e participam do movimento Black Plantas mostram que é possível ampliar a perspectiva e abordar assuntos para além da decoração ou coleção de plantas”.

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Embora cumpra um importante papel na formação da autoestima negra, as plantas não podem preencher o vazio deixado pelo extermínio de corpos de negros todos os dias no Brasil. Anderson é enfático ao sublinhar tal afirmação. 

Nunca. Jamais. Definitivamente. Não vamos enfrentar extermínio com plantas. Seria ingênuo da nossa parte. O nosso propósito, inclusive, é nos enxergar em situações que não cabem nas páginas policiais. Já temos pessoas brilhantes trabalhando no enfrentamento direto ao genocídio. Todos os esforços são importantes. Para alguns povos tradicionais africanos, acredita-se que árvores como o Baobá, por exemplo, guardam as histórias que os griôs [respeitáveis contadores de histórias] contam para as crianças sentadas ao redor de seu tronco por várias gerações. Isso é ancestral.

Emerson Beuno e olhar de quem ama suas plantas

Ficou interessado em fazer parte da galeria de fotografias no perfil do Instagram do Black Plantas? Anderson divide conosco como participar, além de dar dicas valiosas para quem inicia os primeiros passos nesse mundo. 

“Sugiro pesquisar plantas mais fáceis de cuidar, e que não desista caso uma plantinha morra. As plantas nos deixam vários ensinamentos, como por exemplo respeitar o tempo e o perfil de cada espécie. Elas ensinam que a gente só colhe o que planta e que até água em demasia mata a planta. Plantas curam”.

“Para participar basta acessar o nosso perfil no instagram @blackplantas e seguir as regras que estão disponíveis no destaque ‘você aqui’ no topo do nosso perfil”.

Anderson Ferchá, jornalista e homem negro criador do Black Plantas: “Para um sujeito existir é preciso dá-lhe dignidade, é preciso garantir o seu direito de se expressar em sua plenitude. Ter um espaço de informação onde as pessoas se sentem acolhidas e representadas é o primeiro passo para isso”

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Fotos: Reprodução/Instagram/Black Plantas


Kauê Vieira
Nascido na periferia da zona sul de São Paulo, Kauê Vieira é jornalista desde que se conhece por gente. Apaixonado pela profissão, acumula 10 anos de carreira, com destaque para passagens pela área de cultura. Foi coordenador de comunicação do Projeto Afreaka, idealizou duas edições de um festival promovendo encontros entre Brasil e África contemporânea, além de ter participado da produção de um livro paradidático sobre o ensino de África nas Escolas. Acumula ainda duas passagens pelo Portal Terra. Por fim, ao lado de suas funções no Hypeness, ministra um curso sobre mídia e representatividade e outras coisinhas mais.


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