Ciência

Como a ciência germinou uma flor de 32.000 anos

por: Vitor Paiva

No noroeste da Sibéria, às margens do rio Kolyma, um esquilo enterrou um exemplar da Silene stenophylla, uma planta comumente com poucos centímetros de altura e sua flor. A cena, em princípio banal, aconteceu há 32 mil anos,  e se tornou histórica depois que um grupo de pesquisadores russos encontrou a planta em 2012, com um depósito com suas sementes congeladas, para que 8 anos depois a planta pudesse ser enfim germinada. Em resumo, das sementes de uma planta com 32 mil anos uma flor nasceu em pleno 2020.

A bióloga Margit Laimer com a planta germinada

O feito foi realizado por um grupo de cientistas austríacos. As sementes descobertas pelos pesquisadores russos estavam enterradas a 40 metros de profundidade, no permafrost siberiano – parte profunda do gelo da região, que deveria permanecer congelada (como sugere o nome), mas que, por conta das mudanças climáticas, vem derretendo. A Silene stenophylla não era uma espécie extinta, mas trata-se da mais antiga planta a ser regenerada.

“A planta conseguiu sobreviver a este intervalo de tempo com sorte devido a algumas condições. Uma é que estava provavelmente seco quando ela foi armazenada em profundidade suficiente na Terra, porque algo deve ter acontecido, que não sabemos o que, que a enterrou bem fundo” afirmou a bióloga Margit Laimer, da equipe austríaca que germinou as sementes. “Então, agora que o permafrost na Rússia está descongelando, estamos encontrando evidências sobre período antigo que não esperávamos encontrar”.

As buscas nas margens do Kolyma encontraram cerca de 70 tocas de esquilos, rodeadas por ossos de mamutes e outros animais, além de frutas e sementes pré-históricas preservadas no gelo profundo. A germinação foi feita a partir de tecidos extraídos de frutas imaturas, para descobrirem que as sementes eram férteis – e o resultado foi uma floração perfeita, 32 mil anos depois. A equipe austríaca agora pretende sequenciar o genoma da planta para compreender ainda mais como ela sobreviveu por tanto tempo – a fim de ajudar a proteger as espécies que existem hoje.  “Acho que a humanidade precisa ser grata por todos os conhecimentos que somos capazes de criar para proteger nossas terras agrícolas”, afirmou Laimer.

 

 

 

 

 

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© fotos: divulgação


Vitor Paiva
Escritor, jornalista e músico, doutorando em literatura pela PUC-Rio, publica artigos, ensaios e reportagens. É autor dos livros Tudo Que Não é Cavalo, Boca Aberta, Só o Sol Sabe Sair de Cena e Dólar e outros amores.


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