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Como Maradona ajudou Napoli na luta contra a discriminação na Itália

por: Redação Hypeness

Maior ídolo da história do Napoli, time de futebol que representa a cidade de Nápoles, na Itália,  Diego Maradona ajudou o clube napolitano não apenas a conquistar o primeiro título do Campeonato Italiano de Futebol (Serie A) contra o Juventus, na temporada de 1986-1987, mas também auxiliou a equipe na luta contra a discriminação identitária enraizada no país europeu.

Como explica a matéria do jornalista Caio Bitencourt sobre o assunto, há uma rixa histórica entre italianos do norte e do sul, problema que se manifesta com força na cultura local e, inclusive, no futebol. De acordo com o texto, há um sério preconceito da parte norte (setentorial), que é uma região mais urbana e industrializada, em relação à parte sul (meridional), onde predominam áreas mais rurais.

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Uma parcela dos habitantes setentoriais enxerga os meridionais como ignorantes e vagabundos, chamando-os muitas vezes pelo termo preconceituoso “terrone”, que remete justamente a alguém ignorante, sem instrução. As bases desse desprezo e preconceito datam de meados do século 19, em meio às guerras que culminaram com a unificação da Itália.

Diego Maradona e Careca jogando pelo Napoli

Maradona comemorando um gol pelo Napoli ao lado do jogador brasileiro Careca, em 1984

Forte ainda hoje, a discriminação de nortistas em relação a sulistas chega ao futebol, por exemplo, por meio de faixas extremamente ofensivas levadas a estádios por torcidas de clubes como o Juventus, baseado na cidade setentorial de Turim.

Em algumas dessas faixas, é possível ler dizeres como “Vesúvio, lave-os com fogo”, em referência à erupção do vulcão que dizimou a população da antiga cidade de Pompeia, onde hoje está localizada a província de Nápoles, sede do Napoli, time em que Maradona jogou de 1984 a 1991.

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Mas onde Maradona entra no posicionamento contra a discriminação? Pois bem, na semifinal da Copa do Mundo de 1990, em que Itália e Argentina se enfrentariam no estádio de San Paolo, em Nápoles, Maradona pediu aos napolitanos que torcessem pela Argentina.

Também vítima de discriminação por parte de torcidas setentoriais — tendo ouvido até a reprodução de sons de macaco quando tocava na bola durante os jogos —, Maradona afirmou que os napolitanos eram tratados como estrangeiros dentro do próprio país e que, assim, não faria sentido torcer pela anfitriã Itália no duelo entre as duas seleções.

“Durante 364 dias do ano, vocês são considerados pelo resto do país como estrangeiros e, hoje, têm de fazer o que eles querem, torcendo pela seleção italiana”, começou o atleta, morto no último dia 25 de novembro, em uma de suas falas mais célebres. “Eu, por outro lado, sou napolitano durante os 365 dias do ano.”

Naquele ano, a Argentina derrotou a Itália e se consagrou como vice-campeã da Copa, perdendo o título para a seleção da Alemanha, em 8 de julho de 1990.

Maradona durante Copa do Mundo de 1990

Maradona durante jogo contra a seleção dos Camarões na Copa do Mundo de 1990

Considerado até hoje um grande herói do Napoli, Maradona deixou um legado de vitórias pioneiras para o clube meridional e o ensinamento de que é necessário valorizar a própria identidade, independente dos preconceitos e de subjugações históricas.

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Fotos: Getty Images


Redação Hypeness
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