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Como Tim Maia e Jorge Ben Jor se conheceram?

Bárbara Martins - 03/12/2020 | Atualizada em - 09/02/2021

Se tratando de como Tim Maia e Jorge Ben se conheceram, a história não poderia começar de outra forma que não fosse com música. Tim — quem completaria 78 anos neste 28 de setembro de 2020 — era o “gordinho mais simpático da Tijuca”, enquanto Jorge era o rapaz alto, “boa pinta e bom de bola do Rio Comprido”. À primeira vista, eles podem até parecer não ter muito em comum, mas foi o amor pela música negra norte-americana dos anos 1950 que apresentou os dois cariocas no coração da Zona Norte do Rio de Janeiro.

Ponto de encontro dos jovens descolados da Tijuca, uma lanchonete conhecida como Divino era o local certo para interagir, cantar e se divertir com os amigos. Em “Vale Tudo – O Som e A Fúria de Tim Maia“, biografia lançada em 2007 pela Editora Objetiva, o autor Nelson Motta aulas bem as reuniões que aconteciam por lá.

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“No Divino, que começou a frequentar com os amigos Edson Trindade e Arlênio Livio, Tião [Tim Maia] conheceu Paçoca, Nenéu, Mandoca, Pinto Nu, Sérgio Maluco, Wellington, e reencontrou seu velho companheiro de peladas Erasmo [Carlos], então com 17 anos […]. A turma adorava música, filmes e carros, todos tinham visto como fitas de Elvis, de James Dean e de Marilyn Monroe e eram fãs do Fantasma e do Capitão América.

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Com 15 anos na época, Tim já tocava violão e aproveitava como oportunidades no Divino para mostrar a habilidade no instrumento, e, de bônus, conquistar olhares das meninas.

“O melhor do rock – para um violonista principiante – era que três acordes bastavam para acompanhar todas as músicas, o resto era um ritmo forte e pulsante com a mão direita. E isso não faltava a Tião, que logo desenvolvida uma batida suingada de rock e cantava ‘Long Tall Sally’ imitando Little Richard, ‘Tutti Frutti’ imitando Elvis Presley e ‘Bop-a-Lena’, um rock de Ronnie Self, que no inglês de Tião virava ‘Babulina’ . ”

Quando Tim tocou o hit de Ronnie Self no Divino pela primeira vez, foi um sucesso instantâneo. A noite em que tocou ‘Bop-a-Lena’ foi só alegria. Entusiasmado, viu que até algumas meninas estavam em volta aplaudiram. O pessoal gostou tanto que ele teve de bisar, a pedidos.”

Feliz com a aclamação do pequeno público da lanchonete, o ainda jovem Sebastião Rodrigues Maia logo teve uma ideia e resolveu pedir a opinião do amigo Erasmo:  estava pensando em adotar o apelido de Babulina , mas foi advertido:

“Olha, Tião, eu acho legal esse apelido de Babulina, mas pode dar problemas. Tem um cara lá do Rio Comprido , da turma dos Cometas, que de vez em quando aparece aqui , que também toca violão, também canta essa música e também tem o apelido de Babulina. O cara pode não gostar, e como ele é muito mais alto e muito mais forte que você, diz até que é capoeirista… não sei, não. ”

“Tião aparentemente não se importou, mas, na noite em que o Babulina do Rio Comprido apareceu no Divino, ficou muito nervoso e até sofrer em ir embora” , leva Nelson Motta. “O cara […], com a pinta de jogador de futebol, estava com um violão numa capa de lona e se chamava Jorge Ben . Com seu estilo malandro de falar e andar, tinha mesmo um jeito de Babulina.”

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“Quando Erasmo apresentou Babulina a Babulina, Tião ficou nervosíssimo e fechou a cara. Jorge foi simpático e cordial, achou divertida a coincidência, tirou o violão da capa e começou a tocar e cantar ‘Bop-a-Lena’. Teve de insistir várias vezes para que Tião cantasse junto, mas ele só entrou quando alguém gritou ‘Canta aí, ô Tião Marmiteiro!’. Aí entrou furioso, cantando forte e enchendo o ar do Divino com sua voz de trovão. “

O pai de Tim, seu Altivo, era dono de uma pensão e cozinhava marmitas para sustentar a família de 12 filhos junto à mulher, Maria Imaculada. Como era Tim quem entregava como marmitas, ele foi apelidado por colegas da vizinhança como ” Tião Marmiteiro “, alcunha que odiava.

Com o tempo, Jorge se tornou Jorge Ben Jor, e Tim se tornou o Tim Maia. Mas, antes, eles ainda conviveram bastante como dois jovens cariocas da gema:

“[…] A maior contribuição do Babulina do Rio Comprido à turma do Divino não foi musical, e sim futebolística. Driblador e estiloso, avante impetuoso, Jorge batia um bolão em campo, estava até fazendo testes para o juvenil do Flamengo e foi um formidável reforço para o time do Divino. Foram muitos os sábados de glória, jogando em campos de várzea em Pilares, Caxias e Guadalupe, goleando adversários e comendo churrascos depois dos jogos. Embora não jogasse, Tião nunca deixou de acompanhar o time, especialmente nos churrascos. Mas, por via das dúvidas, sempre levava um lanche ou ficava ‘tomando conta’ do lanche do pessoal.”

Alguns anos antes da morte do amigo, em 1992, Jorge Ben homenageou Tim com a inesquecível citação em ” W / Brasil (Chama o síndico) “, dando a Sebastião mais um apelido, mas desta vez um pelo qual ele ficaria conhecido no Brasil inteiro e que seria eternizado em uma música sempre cantada com muita alegria.

Pouco tempo depois, Tim formaia os Sputniks , banda em que Roberto Carlos participou. Mas essa é outra história.

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Bárbara Martins
Criada em Duque de Caxias, na Baixada Fluminense, é jornalista, fotógrafa e videomaker. Envolvida pela cultura, história e arte de subúrbios e periferias, dedicou pouco mais de dois anos à cobertura de pautas relacionadas à música como redatora do site Reverb, antigo parceiro do Rock in Rio. Em formação pela UFRJ, também tem experiência com produção de conteúdo para redes sociais, assessoria de imprensa e gravação de sessions e entrevistas.

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