Arte

Conheça Jobriath, o cantor que seria o ‘próximo David Bowie’ mas que nunca aconteceu

Vitor Paiva - 14/12/2020 | Atualizada em - 05/03/2021

Para alguns ele era um verdadeiro gênio, incompreendido e desperdiçado pela indústria da música da década de 1970 para cá; para outros, uma tentativa mal-acabada de recriar o sucesso de David Bowie e seu companheiros do Glam Rock. Seja como for, o fato é que houve um momento em que o cantor estadunidense Jobriath Salisbury viu os holofotes do sucesso apontarem na sua direção. Notado como o “próximo Bowie”, Jobriath chegou a assinar um contrato no valor de 500 mil dólares com a gravadora Elektra Records, mas o futuro lhe reservava o destino de se tornar o maior artista glam a não fazer sucesso. Nem por isso, porém, seu legado foi esquecido – e hoje o artista pode ser celebrado pelo pioneirismo e até mesmo pela sua música.

Tudo parece incrível na história de Jobriath, a começar por seu nome de batismo e pelo nome da cidade em que nasceu: antes de se tornar o personagem que viria aser, Jobriath se chamava Bruce Wayne Campbell – sim, o mesmo nome da identidade secreta do Batman.

Nascido na pequena cidade de King of Prussia (Rei da Prussia, em tradução livre), no estado da Pensilvânia, em meados dos anos 1970, Jobriath se tornaria o primeiro cantor de rock a assumir com todas as letras sua homossexualidade – antes de Freddie Mercury ou mesmo Elton John assumirem suas próprias sexualidades.

Jobriath, ainda como Bruce Wayne Campbell, atuando em “Hair’

Em 1969 ele se tornaria parte do elenco de uma das históricas montagens do musical Hair, dando vida ao personagem “Woof”.

No mesmo ano de 1972 em que David Bowie explodiu com seu icônico disco The Rise and Fall of Ziggy Stardust and the Spiders From Mars (quando oficialmente nasceu o  personagem alienígena Ziggy Stardust, vivido por Bowie nesse período de sua carreira) foi quando Jobriath gravou seu disco de estreia.

Capa do disco de Jobriath

A divulgação foi intensa, com direito a um outdoor no meio de Nova York, anúncios de página inteira nas principais revistas da época, e a sugestão de que ele seria o próximo grande nome – e esse talvez tenha sido o problema: a expectativa era grande demais. Segundo o próprio, seu show de lançamento ele entraria em cena como um “King Kong projetado sobre uma maquete do Empire State, que vai se transformar em um pênis gigante e eu me transformarei na Marlene Dietrich”.

Foi então que as coisas começaram a dar errado, e o show jamais aconteceu.

Jobriath ao lado de Andy Warhol

Nem todos compraram a comoção ao redor do artista, e o próprio Bowie o via, segundo entrevistas, como um personagem “estranho”, como um “pastiche” dos clichês do glam rock. Seu disco chegou a receber críticas positivas, por uma sonoridade que de fato lembra o trabalho de seus contemporâneos como T-Rex, New York Dolls e o próprio Bowie.

Há quem não veja originalidade nas músicas de Jobriath, mas até hoje muitos celebram seu talento – e principalmente sua coragem em se assumir desde o início como homossexual. O sucesso não veio, e aos poucos sua carreira começou a minguar.

Em 1983, com somente 36 anos, Jobriath viria a falecer como um dos primeiros artistas famosos a se tornarem publicamente vítimas da AIDS. Sua arte, no entanto, não foi esquecida: o cantor Morrisey, vocalista do Smiths, sempre lembrou de Jobriath como influência, e uma coletânea intitulada “Lonely Planet Boy” foi lançada em 2004,

No documentário “Jobriath A.D.” lançado em 2012 para contar sua história, o próprio artista melhor se define: “Há muita gente por aí usando maquiagem por ser chique. Eu quero dizer que eu não estou fingindo”.

Seja qual for sua opinião, o fato é que Jobriath foi corajoso, com uma arte explícita e desafiadora – foi um pioneiro.

Publicidade

© fotos: Messy Nessy


Vitor Paiva
Escritor, jornalista e músico, Vitor Paiva é doutor em Literatura, Cultura e Contemporaneidade pela PUC-Rio. Autor dos livros Tudo Que Não é Cavalo, Boca Aberta, Só o Sol Sabe Sair de Cena e Dólar e outros amores, publica artigos, ensaios e reportagens.

Branded Channel Hypeness

Marcas que apoiam e acreditam na nossa produção de conteúdo exclusivo.