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Economias do Futuro | parte #1 | pensar modos inovadores de viver e conviver

por: Gabrielle Estevans

Abrir o jornal pela manhã já é o suficiente para entender, na prática, que estamos à beira de um abismo social, econômico, ambiental. Mesmo com o contexto pandêmico gravíssimo, outras urgências não deixaram de operar: a Amazônia queima, barragens rompem; a desigualdade no país cresce à galope. Mais de 40 milhões de pessoas ainda são vítimas do trabalho escravo, segundo Organização Internacional do Trabalho (OIT) —  e um quarto delas são crianças. Crises econômicas mundo afora sucedem-se em efeito cascata, e se alastram, causando fechamento de empresas, desemprego, despejos. Desastres naturais eclodem, prejudicando os que, há muito, já estão à margem, invisibilizados.

Um exemplo esclarecedor: caso todas as catástrofes ambientais pudessem ter sido evitadas em 2017, 26 milhões de pessoas deixariam a pobreza extrema, mas, segundo o Banco Mundial, o cálculo do impacto de uma catástrofe é feito, em geral, sobre o patrimônio — o que resulta no investimento de recursos para proteger quem já os possui. Há quatro décadas, de forma bem evidente, o desequilíbrio é a norma da casa. As metas promissoras que o sistema econômico e social vigente prometia não se cumpriram. “O casamento entre a democracia de sufrágio universal e o capitalismo, que surgiu no pós-guerra, está terminando em divórcio”, profetiza o sociólogo econômico alemão Wolfgang Streeck. As derrocadas capitalistas — e seus desdobramentos — deixam claro que é difícil acreditar que chegamos na forma definitiva e perfeita de organização econômica e social. Para Streeck, a solução não cairá dos céus por meio da implementação de um paraíso socialista.

O que observaremos, daqui para a frente, é um capitalismo moribundo, que perece e que já não consegue entregar o que de início se propunha: transformar vícios privados em benefícios públicos. 

“Enquanto ignorarmos o problema da moeda para além do problema da finança, os economistas não terão ferramentas para pensar um futuro que não seja só o presente com mais tecnologia. Nosso desafio é pensar e desenvolver nossas capacidades e vidas em comum para além dessa noção, para fora desse quadro que a mesma forma de vida é simplesmente expandida e esse desafio exige uma série de iniciativas demandantes. A quantidade de problemas diferentes e urgentes que são apresentados exigem uma mobilização tão grande que começo a me perguntar se estamos à altura do desafio histórico ou de fazer que o desafio seja histórico. A noção de progresso e desenvolvimento que estão postas pressupõem um nível de ruptura exigente”, explica o jornalista e ex-economista Diego Viana, no episódio Economia do futuro: o que vem por aí, do podcast Política em Transe. Usar como métrica de sucesso quem produz mais e melhor já não é suficiente. É necessário pensar em produzir modos de vida que não nos destruam — e que não destruam, também, o planeta.

Mas apesar das críticas, o capitalismo — e com ele a maximização competitiva do lucro — mostrou-se, até hoje, um sistema habilidoso ao se adaptar às mudanças de contexto e cenário. Para o escritor americano Jeremy Rifkin, autor do livro “The Zero Marginal Cost Society” (A Sociedade do Custo Marginal Zero, em tradução livre), a tendência é que o sistema capitalista tenha cada vez menos importância frente a uma economia mundial híbrida e a um sistema colaborativo. A futurista Lala Deheinzelin também acredita no poder da rede: “Novas economias ainda é um conceito amplo, mas que já tem seu lugar garantido — pode ser sobre a maneira como é medido o valor e os tipos de moeda, sobre a maneira como vão se organizar os negócios ou sobre qual o tipo de matéria-prima. Não dá pra saber, ainda, que nome vai ter esse modelo, mas dá pra saber que certamente ele terá um novo arranjo e que será colaborativo. No século XXI, não é mais possível atuar sozinho. Nesta nova economia, o que tem valor não é só a moeda. Ela vai fazer com que foquemos no viver bem — e não só no viver melhor”. 

Relações de trabalho, moradia, renda, alimentação, a micro e macroeconomia, tudo que é político: conseguimos imaginar novos modos de existir pós-capitalismo? Tais cenários são apenas projeções ou é preciso que comecemos a construí-los desde já? Com uma desigualdade que se aprofunda cada vez mais, em que toda a existência é avaliada somente em termos de dinheiro, o que o futuro pode nos preparar? Mais: conseguiremos repensar, da raiz, os conceitos de usufruir para além de consumir, fazer para além de produzir e agir para além de trabalhar?

A série Economias do Futuro se propõe a isso: desafiar o status quo e pensar modos e modelos inovadores de viver e conviver. Urge que pensemos como erguer, a partir de uma plataforma de movimentos sociais, um programa propositivo e positivo. É preciso, também, que as pessoas, como dizia o filósofo francês Gilles Deleuze, comprometam-se com o seu devir revolucionário — marcado não apenas por ser contra algo, mas também pelo agir contra si mesmo, numa vigilância constante daquilo que manifestamos. 

Não basta apenas negar o que está posto ou somente acreditar na utopia que outro mundo é possível. Mais que isso, agora: não dá pra pensar em “novo normal” ou na volta à normalidade pós-pandemia. É preciso criar, experimentar, viver outras possibilidades que não nos levem, de novo, para os mesmos caminhos destruidores. “É um preconceito marxista — ou melhor, modernista — acreditar que o capitalismo como época histórica só terminará quando uma sociedade melhor estiver à vista, com um sujeito revolucionário pronto para implementá-la em prol do avanço da humanidade. Devemos aprender a pensar a aproximação do fim do capitalismo sem nos comprometermos em responder à pergunta sobre o que colocar em seu lugar.  As massas, os pobres e os despossuídos, assim como os que estão relativamente bem, parecem firmemente presos nas garras do consumismo, com posses, ação e organização coletivas completamente fora de moda. Sendo a única opção disponível, por que o capitalismo não haveria de continuar? Por simples falta de alternativa?”, diz Streeck em seu último livro, “How Will Capitalism End” (Como o Capitalismo Acabará, em tradução livre). A nós, cabe a pergunta: O futuro é agora?

 

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Gabrielle Estevans
Jornalista, escreve sobre gênero, cultura e política. Também trabalha com pesquisa, planejamento estratégico e projetos com propósito e impacto social.


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