Futuro

 Economias do Futuro | parte #2 | Comer é um ato político

Gabrielle Estevans - 03/12/2020 | Atualizada em - 08/12/2020

Enquanto o agronegócio comanda o fluxo econômico de exportações brasileiras, as queimadas tomam conta do maior patrimônio natural do país. A cada vinte pessoas no Brasil de hoje, uma termina o dia sem ter conseguido comer o mínimo necessário. Já nas casas em que há comida, na maioria das vezes, a prioridade nos pratos é dada a ingredientes que beneficiam grandes produtores e que nos enchem de agrotóxicos. E tem mais. Um estudo realizado em 2019 pela MindMiners em parceria com a FGV e a Embrapa, concluiu que o brasileiro desperdiça 41,6 kg de comida por ano. Em primeiro lugar vem a dupla feijão e arroz (38%), seguida pelas carnes (35%). Dos 1.764 entrevistados, 91% considerou irresponsável o ato de jogar comida fora. 

Mas se comer é um ato político — ainda mais agora, quando famílias vêem seus empregos escoar pelo ralo e suas fontes de renda espremidas por um governo que não as apoia, nem mesmo em meio a uma pandemia global — de que forma os alimentos podem dar vazão a uma economia baseada em outros valores, em diretrizes igualitárias? E quais são, afinal, os caminhos para que comecemos a pensar um futuro mais sustentável para as pessoas e para o planeta?

Guia Alimentar: “Ultraprocessados são a ‘terra plana’ do Ministério da Agricultura”, diz especialista

Com o crescimento vertiginoso da pobreza extrema — que já atinge 13,2 milhões de pessoas, segundo dados do Cadastro Único do Ministério da Cidadania —, caímos, em janeiro de 2019, novamente no Mapa da Fome das Nações Unidas, depois de cinco anos fora da lista. No mesmo mês, o governo federal optou por fechar o Conselho Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional (Consea). Criado em 1993, extinto em 1994 pela transitoriedade do governo Itamar Franco e retomado em 2003, no primeiro mandato do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, o conselho tinha o intuito de organizar o Projeto de Lei Orgânica para a Saúde Alimentar e Nutricional (Losan).

Mapa da Fome 2020

Para o ex-coordenador do Programa Fome Zero e então diretor-geral da FAO José Graziano, é preciso que os governos latino-americanos desenvolvam e coloquem em prática, com urgência, um plano de ação para lidar com a fome, sem esperar um próximo ciclo de expansão: “Seria apenas uma agenda de boas intenções, não fosse também um teste de sobrevivência da democracia e das lideranças da região”, diz, em artigo originalmente publicado no Valor Econômico. 

E se os tempos pedem transições estruturais e estratégicas, lembrar do poder individual que temos enquanto consumidores também pode ser uma importante moeda de troca e uma ferramenta poderosa para pressionar autoridades e agentes de transformação. 

Queimadas no Pantanal e agronegócio: solução também passa por mudança na alimentação

“Para mudar a lente e agir, é necessário mudar a forma de olhar”, diz a abertura do livro “Isto Não é (apenas) um Livro de Receitas”: é um Jeito de Mudar o Mundo. A publicação une saberes e sabores ancestrais a métodos sustentáveis e benéficos de produção para mostrar às leitoras e aos leitores que pensar em novas economias, atualmente, é pensar (e superar) as ações que exploram — ou atuam de forma predatória — sobre o meio ambiente. Para Mónica Guerra Rocha, fundadora e diretora executiva do Instituto Comida do Amanhã, idealizadora deste trabalho, enquanto a ecologia é o conhecimento da casa, o sistema econômico é o modo de gestão desse ambiente: “É responsabilidade maior do estado entender e dar a entender que recursos naturais são vitais, proteger e cuidar do coletivo, e fazer a sua gestão partindo do olhar sobre as pessoas e o planeta. É o estado que pode, por exemplo, regulamentar as práticas exploratórias do setor privado, que pode atribuir autoridade e capacidade de atuação na escala local, que pode garantir a participação da população e principalmente, das minorias, nas tomadas de decisão por meio de conselhos e fóruns, que pode influenciar currículos escolares e trazer a sustentabilidade para o centro da aprendizagem, que pode incentivar práticas regenerativas nas cidades, que pode fomentar atividades que promovam uma transformação e um realinhamento do que significa existir com o planeta”. 

O artista Steve Cutts aborda o impacto da espécie humana sobre a natureza de uma maneira bastante sarcástica

A ideia de criar uma organização com o intuito de questionar os impactos da produção de alimentos nasceu de uma experiência produtiva, mas também frustrada, de Rocha na Sustainable Development Solutions Network Brasil — rede que se propõe a apoiar a implementação dos Objetivos do Desenvolvimento Sustentável (ODS) das Nações Unidas (ONU) nos países. “Com acesso a informações sobre as causas e consequências das mudanças climáticas e perda de recursos, desigualdades, e demais desafios globais, percebi que nada, absolutamente nenhum setor, tem mais impactos sistêmicos e profundos do que o sistema alimentar contemporâneo. O que comemos, como comemos, como é produzido, têm impacto em absolutamente todos os ODS. Percebendo isso, tentei emplacar o tema dentro da rede mas sem sucesso, e fui entendendo o desconforto que causa falar de comida. Foi aí que percebi que ser coerente com o objetivo de ajudar e apoiar a transformação global partiria de cada um de nós, pelo menos três vezes por dia”, diz.

De grão de arroz em grão de arroz: um outro mundo possível 

“Proponho um exercício: imagine que cada ser humano desperdiça, em apenas uma refeição, um grama de comida (aproximadamente dois grãos de arroz). Somos 7 bilhões, o que significa 7 bilhões de gramas de arroz, ou equivalente a 7000 toneladas de desperdício, em uma única refeição. Considerando refeições de 500gr, isso equivale a 14 milhões de refeições desperdiçadas. Se esse arroz for importado, pode significar uma quantidade grande de gases de efeito de estufa para que chegasse no prato, transportado entre continentes. Mas se esse arroz for vermelho, pode nos remeter para a ancestralidade brasileira quando escravas carregavam grãos de arroz em seus cabelos, trazidos da África para o Brasil — os primeiros grãos que chegaram no país. Se o arroz for basmati, aprendemos sobre a luta de um povo indiano para garantir a soberania em frente a uma empresa que tentou patentear o grão do arroz, e assim ser dona desse patrimônio. Um grão de arroz pode nos falar sobre que mundo queremos, sobre o poder que temos em reduzir desigualdades quando reduzimos desperdício, sobre valorizar e conhecer nossa cultura e nossa memória, sobre compartilhar e cozinhar junto. Se podemos desenhar um mundo melhor a partir de um grão de arroz, desafio a refletirmos sobre a potência de transformação que tem o nosso próximo jantar e o quanto  ele pode apresentar caminhos para um outro mundo possível, em que haja comida de verdade, produzida por gente de verdade, com histórias de verdade, num mundo de menor desigualdade e maior conexão.”

(Mónica Guerra Rocha, fundadora e diretora executiva do Instituto Comida do Amanhã)

Setembro registrou aumento de 180% de focos de incêndio no Pantanal, e 60% na Amazônia em comparação com o mesmo período no ano passado

Dentro do sistema alimentar, cada etapa é estratégica e carregada de conflitos de interesses. Para Rocha, o primeiro passo é questionar a narrativa de que o agronegócio é a única forma de alimentar 9 bilhões de pessoas até 2050. A má distribuição dos alimentos e o desperdício de comida são, inclusive, mantenedores do agronegócio — que se reafirma nas perdas para controlar as variações dos preços de mercado e de transação. Uma vez questionada a narrativa, a fundadora do Instituto Comida do Amanhã diz que a próxima fase é entender que ao termos conhecimento de onde vem nossa comida, estamos agindo politicamente: “Somos sempre coprodutores. O alimento que consumimos alimenta alguém. Devemos decidir, sempre que possível, por comida produzida localmente e por colaborar com um encurtamento dessa cadeia”.

Cultivar sua própria comida é como imprimir seu próprio dinheiro

Ron Finley quase foi preso por plantar uma horta na calçada na frente de sua casa, no centro de Los Angeles. Entusiasta da agricultura urbana, o americano viu seu bairro ser tomado por fast-food e comida processada enquanto precisava dirigir 40 minutos para comprar uma maçã sem agrotóxicos. Indignado, o artista, designer e permacultor passou a se dedicar ao desenvolvimento de hortas comunitárias. Define-se, hoje, como um jardineiro de guerrilha e junto com o grupo Green Grounds quer transformar o modo como as pessoas se relacionam com a comida. Com seu The Ron Finley Project, também se concentra na regeneração dos solos em comunidades por todo o mundo. É dele a frase “Cultivar sua própria comida é como imprimir seu próprio dinheiro”, citada em um TED inspirador.

“Cultivar sua própria comida é como imprimir seu próprio dinheiro” (Ron Finley)

No Brasil, a produção de alimentos de forma consciente, sustentável e benéfica sempre existiu, embora tantas vezes silenciada e invisibilizada pela grande indústria. “Os povos tradicionais têm a sabedoria e o respeito pelos ciclos e pelos recursos mais valiosos naturais — a água, o ar, a terra. Quando falamos de modelos tradicionais de produção, devemos entender o que é afinal, tradição. O modelo chamado hoje de ‘convencional’, tem pouco mais de 50 anos e nasce da narrativa importada, colonialista, da revolução verde. Usamos maquinários, técnicas e narrativas importadas do norte, de países de clima temperado, para uma realidade tropical e isso é um absurdo do ponto de vista social e ecológico.

Compactar terras na Amazônia com produção extensiva de gado ou de grãos é desrespeitoso e, arrisco dizer, ignorante, sobre o funcionamento e as dinâmicas de climas tropicais”, pontua Rocha, ao citar iniciativas nacionais que vão contra modelos destrutivos, como os assentamentos do MST, que transformam terras improdutivas em produções orgânicas e agroecológicas e o Movimento dos Pequenos Agricultores, que levanta a bandeira da sustentabilidade e do pequeno produtor. E completa: “Na última década estamos assistindo a um levante poderosíssimo das mulheres na agroecologia, com discussões profundas de gênero associadas à luta pelo direito à terra e à comida de verdade e que fortalece comunidades, ao mesmo tempo que garante a segurança e soberania alimentar e nutricional de diversas comunidades. Em 2018, a UNESCO reconheceu o Sistema Agrícola Tradicional das comunidades Quilombolas do Vale do Ribeira, como patrimônio imaterial da humanidade, atestando que inovação reside nas práticas tradicionais também”. Outro movimento que Rocha cita é o da agricultura sintrópica, liderada por Ernst Götsch e que comprova que é possível produzir florestas biodiversas de alimentos enquanto as mesmas regeneram ecossistemas inteiros.

Doação de alimentos, de sabão, álcool em gel e máscaras foram algumas das mobilizações do MST em 2020, em todo o Brasil

Iniciativas, movimentos e pessoas que estão no front trabalham incansavelmente para que o alimento — e sua produção — seja capaz de desempenhar, em totalidade, seu papel de transformador. Como consumidores e coprodutores, podemos fazer nossa parte. Como cidadãs e cidadãos, devemos pressionar, fiscalizar e cobrar incansavelmente quem detém e centraliza o poder capaz de aprovar mudanças estruturais. Comece pela sua calçada e ganhe as ruas. Aproprie-se de feiras locais e orgânicas, conheça pequenos produtores, pequenas produtoras. Ouça as mulheres que estão colocando a mão na terra e recuperando saberes ancestrais. Se você não sabe por onde iniciar a jornada, o Mapa das Feiras Orgânicas, criado pela Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor pode ser para você. “Fortalecer esses caminhos, do micro para o macro, é construir pequenas grandes revoluções ou, como diria Paul Cézanne, ‘Chegará o dia em que uma simples cenoura, observada com frescor, desencadeará uma revolução’”, profetiza Rocha. 

Pequenas grandes revoluções

Comprar em feiras de produtores, ou apoiar movimentos agroecológicos através de redes de compras coletivas

Participar das feiras da reforma agrária, conhecendo os agricultores que fornecem para a sua cidade

Ser protagonista de uma mudança coletiva e iniciar movimentos de CSA (Comunidade que sustenta a agricultura), se comprometendo com o agricultor de forma direta.

Encomendar sua cesta camponesa, com alimentos orgânicos e agroecológicos produzidos por comunidades assentadas e agroecológicas,

Frequentar espaços de venda física permanente com alimentos provenientes do MST (maior produtor de arroz orgânico da América Latina), ou do Movimento dos Pequenos Agricultores. 

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Gabrielle Estevans
Jornalista, escreve sobre gênero, cultura e política. Também trabalha com pesquisa, planejamento estratégico e projetos com propósito e impacto social.

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