Futuro

Economias do Futuro | parte #3 | Moradia é direito humano

Gabrielle Estevans - 08/12/2020 | Atualizada em - 09/12/2020

Neste exato minuto, mais de 900 milhões de pessoas estão vivendo em favelas pelo mundo, aponta relatório da Organização das Nações Unidas (ONU), sem acesso adequado a serviços básicos como água, rede de esgoto ou coleta de lixo. Em nível nacional, o número também assusta: temos um déficit habitacional de 7,78 milhões de moradias. O número de habitações precárias, segundo uma pesquisa da Fundação Getúlio Vargas (FGV) e da Associação Brasileira de Incorporadoras Imobiliárias (Abrainc), chega a mais de 1,2 milhão. 

A pandemia de Covid-19, que se espalhou rapidamente em comunidades periféricas aponta justamente para a falta de planejamento e espaço nos lares. A reforma é urgente, e caminha — embora ainda apenas como luta social —a passos pequeníssimos. Só em São Paulo, já são mais de 150 movimentos de luta por moradia, segundo dados do Ministério das Cidades, e há um déficit habitacional de 358 mil lares. E não acaba por aí: localizadas em periferias e distantes dos centros comerciais das cidades, as populações mais pobres são as que perdem mais tempo em deslocamentos diários para o trabalho, o que impacta diretamente a qualidade de vida, segundo estudo realizado em 2018 pela MindMiners. Cabe ainda lembrar: habitação é um tema essencial para a erradicação da pobreza por seu caráter transversal — influencia a qualidade de vida, saúde, segurança, educação e condições para o desenvolvimento humano — e, por isso, é uma temática essencial para a conquista dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) das Nações Unidas (ONU). Sonhar e criar novas economias perpassa desafiar a forma como, hoje, lidamos com o problema habitacional. 

Num país em que ainda discutimos adensamento excessivo — casas em que mais de três pessoas dividem um dormitório —, é preciso pensar o amanhã para além dos colivings apontados como futuro pela economia colaborativa. O novo passará por soluções criativas, sustentáveis e dignas para todo mundo.

Moradia da Comunidade Quilombola na Reserva Biológica do Trombetas Pará (foto: Carolina de Melo Franco)

Fernando Teles nasceu e foi criado em um cortiço na periferia de São Paulo. Vivendo na pele as carências decorrentes da falta de moradia, criou, em 2014, a EcoLar, que viabiliza a construção de casas ecológicas de baixo custo. “Uma casa é muito mais que quatro paredes. Influencia na capacidade de sonhar, de ver novos horizontes, influencia na educação das crianças ao oferecer um lugar adequado aos estudos em suas casas. Também interfere na qualidade de vida, já que muitas crianças que moram em casas/ barracos insalubres têm problemas respiratórios e vivem nos postos de saúde”, diz Teles.

Voltada à população de menor renda, a EcoLar também tem um pilar ecológico bem traçado. A empresa usa como matéria-prima caixas “longa vida” e plásticos reciclados. Mesmo nas menores plantas, o impacto ambiental positivo é considerável: a menor casa fabricada — com 20m² e que sai por R$ 14 mil — utiliza 150 mil embalagens. O plano está alinhado com a demanda mais urgente da atualidade: na metade de 2019, já estávamos no cheque especial com a Terra, consumindo mais recursos do que ela poderia regenerar anualmente. Dessa forma, habitações que repensam e ressignificam geração de resíduos, consumo, desperdício e descarte são a grande aposta. Apesar de existirem, as casas sustentáveis apresentam um desafio para o futuro: já que são tão importantes, de que forma podem se tornar acessíveis? Como deixam de ser um produto, hoje, elitizado para ajudar a solucionar dois problemas — social e ambiental — de uma vez só?

E as casas que já existem, mas estão vazias? 


Segundo dados do Plano Municipal de Habitação, só em São Paulo, em 2019, o número de imóveis ociosos, abandonados ou subutilizados em terrenos vazios chegou a 1385. Os questionamentos estão sendo feitos: especialistas se reuniram no podcast Momento Cidade para entender o por que de tantas casas vazias e de que forma esses espaços podem ser repensados. 

Para Guilherme Wisnik, professor da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo (FAU) da USP, a cidade precisa combater a prática de especulação imobiliária e criar mecanismos que onere os proprietários que mantêm seus imóveis vazios. Para a professora Paula Santoro, coordenadora do Laboratório Espaço Público e Direito à Cidade (LabCidade) da FAU, há uma outra solução possível: pressionar o governo para a criação de políticas públicas de produção de habitação e transformação de tais parques imobiliários.

Tem de ter uma política para o mercado imobiliário e para quem precisa, para os ocupantes dessas áreas, para eles mesmos agitarem ali a transformação da sua vida cotidiana e exercerems eu direito à permanência naquele território bem servido de urbano.

(Paula Santoro, coordenadora do LabCidade) 

Agentes de transformação

Para Maure Pessanha, diretora executiva da Artemisia — organização sem fins lucrativos pioneira na disseminação e no fomento de negócios de impacto social no Brasil — , as empresas têm um papel importante na transição para as novas economias. “Vemos que as grandes empresas também podem ser aceleradoras desse futuro; elas também têm responsabilidade e muitos ativos: massa crítica, recursos financeiros, talentos e potencial para dar escala para algumas das soluções mais inovadoras. Acredito que tenham o papel de cada vez mais ajudar a avançar na construção de pautas ligadas a um futuro mais sustentável e igualitário a partir das alianças que possam estabelecer entre elas — mudando a indústria e mercado — e também com coalizões com organizações de naturezas distintas às delas. Estou falando de coalizões com a sociedade civil, com negócios de impacto; realmente criar algo que seja maior do que a soma de todas as partes”, diz.

Maure Pessanha, diretora executiva da Artemisia

O Lab Habitação: Inovação e Moradia, iniciativa da Artemisia em parceria com empresas privadas, nasceu deste cenário colaborativo previsto por Pessanha. Com o objetivo de solucionar os desafios da habitação das pessoas em situação de vulnerabilidade econômica, o programa identifica e apoia empreendedores que tenham soluções para a população de menor renda dentro de eixos específicos como acesso à moradia de qualidade, soluções financeiras para habitação, gestão de condomínios de habitação popular, água e saneamento, entre outros. “Vale ressaltar que buscamos negócios alinhados aos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável da ONU: Erradicação da Pobreza (ODS 1); Água Potável e Saneamento (ODS 6); Energia Acessível e Limpa (ODS 7); Indústria, Inovação e Infraestrutura (ODS 9); e Cidades e Comunidades Sustentáveis (ODS 11)”, completa. 

Discutir novos caminhos para habitação que priorizem a esfera socioambiental é um assunto de interesse público. Diante desse contexto, além de mudanças estruturais, cabe também aos profissionais de agora começarem a construir esse amanhã desejável. “O arquiteto que vai se formar, por exemplo, tem que saber que quem mais vai precisar do serviço dele, no futuro, são os clientes de menor renda. O mercado de atuação, no qual ele vai poder causar maior impacto, não será a alta renda. É uma mudança de olhar”, diz Pessanha.

Se fizermos o exercício esperançoso de imaginar novos mundos, futuras economias, qual seria a solução para habitações precárias e insustentáveis? “Primeiro, não tratar como um mercado meramente lucrativo, mas de caráter de dignidade humana. Segundo, termos mais opções de propostas e métodos construtivos. Terceiro, facilitar crédito. E, por último, incluir materiais e processos mais sustentáveis”, explica Fernando Teles. Só será futuro se chegar, criativa e igualmente, para todos. 

 

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Gabrielle Estevans
Jornalista, escreve sobre gênero, cultura e política. Também trabalha com pesquisa, planejamento estratégico e projetos com propósito e impacto social.

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