Futuro

Economias do Futuro | parte #5 | (Re)pensar o trabalho: precarização, burnout e o mito do propósito

Gabrielle Estevans - 15/12/2020 | Atualizada em - 16/12/2020

“Escolha um trabalho que você ame e não terá de trabalhar um único dia da sua vida.” A frase, atribuída internet afora ao filósofo chinês Confúcio, é praticamente o pilar que sustenta, hoje, a busca desenfreada dos millennials por um emprego atrelado a algum propósito. Há, aliás, uma enxurrada de frases motivacionais relacionadas à carreira espalhadas pelas redes. Boa parte delas reproduz a lógica liberal de que no começo do capitalismo alguns homens enriqueceram e outros, aqueles que não quiseram trabalhar, empobreceram. Essa corrida maluca adoece. Em uma pesquisa realizada pela MindMiners em 2019, mais de metade dos entrevistados se declararam ansiosos e mais de 80% acredita que a sociedade atual apresenta um alto grau de ansiedade — embora, claro, o motivo não seja somente o trabalho, a crise econômica e o desemprego são fatores importantes nesse índice. 

A situação é ainda mais assustadora: a pandemia e seus desdobramentos, fez com que muitos brasileiros perdessem seus empregos logo ao primeiro sinal de crise. Também fez com que aqueles que estavam em trabalhos informais continuassem indo às ruas, expostos a um vírus que tem matado, justamente, quem tem menos condições financeiras

Coronavírus e a inabilidade social ameaçam negros e pobres

“O trabalho dignifica o homem”, dizem. Alguns questionam, replicam, problematizam: diferente do que se prega, o trabalho duro não conduz à riqueza, nem sequer leva ao mínimo necessário para o bem-estar social. Não seria, atualmente, a própria riqueza que conduziria, de forma mais certeira, à riqueza? Segundo o filósofo francês Thomas Piketty e autor do best-seller “O Capital no Século XXI”, a melhoria de vida da classe média é um jogo de sorte e azar, enquanto para os ricos o caminho, claro, já estaria pavimentado.

Se o que define o capitalismo moderno não é a busca por lucro, mas sim a acumulação, é difícil acreditar que a premissa do sistema — transformar vícios privados em benefícios públicos — se cumprirá em algum momento.

Já está acontecendo: especialistas apontam a morte (ou pelo menos a queda) do capitalismo como conhecemos. Dentro dessa perspectiva, o que conceituamos como trabalho também passa por transformações. O nomadismo digital, a economia colaborativa e outras correntes inovadoras despontaram há alguns anos como caminhos mais benéficos para as relações de trabalhistas, mas, no fim das contas, acabaram por colocar profissionais em situação ainda mais precária. Vejamos, por exemplo, os motoristas de Uber ou os entregadores do Rappi, sem benefícios, sem vínculo que os proteja e com cargas horárias altas de trabalho. Nos EUA, tais modelos são chamados por especialistas de “oficialização do bico”. Não passariam “de uma maneira das pessoas complementarem a renda, abalada pelas sucessivas crises mundiais nos últimos anos”, diz a reportagem especial do UOL Tab sobre economia compartilhada

Ikigai: a filosofia japonesa para uma vida plena e significativa

Mudanças que reinventem a roda e não que apenas troquem o pneu com o carro andando. Precisamos repensar o trabalho de forma integral e buscar novas soluções que reescrevam a economia que queremos para um futuro mais equitativo e sustentável.


mais da metade dos entregadores de bicicleta da cidade de são paulo trabalham 10h por dia, todos os dias, pra ganhar um pouco menos do que mil reais. o mesmo acontece pra outros serviços semelhantes, de entrega e transporte, em que as empresas que prestam esse serviço se colocam não como contratantes, mas como “softwares” que não mantêm relações com os trabalhadores. thiago dias de jesus, de 33 anos, entregador do rappi, morreu na porta de uma cliente, ao sofrer um AVC. a cliente relatou: “sentamos ele no chão, trouxemos cobertores para aquecê-lo e logo ele nos pediu para avisar a rappi que a entrega tinha sido feita”. o que, por vezes, é vendido pra gente como um mundo de novas possibilidades profissionais e “liberdade” de trabalho é, na verdade, exatamente o contrário: trabalhadores brasileiros estão perdendo seus direitos sem que haja comoção alguma, e se virando nos 30 em novas profissões em que não há nenhum vínculo de proteção, e que o trabalho excessivo é a única possibilidade para um bom salário. não devemos aplaudir esse novo mundo de “possibilidades”, especialmente se estamos do lado de quem recebe esses serviços, sem vivenciar a insalubridade frequentemente relatada por entregadores. para que não haja outras mortes como a de thiago dias de jesus, temos que nos permitir sermos afetados por sua trágica morte, que poderia ter sido evitada. Temos que suspeitar dessas novas empresas tecnológicas e entender como é a chegada delas no nosso país. devemos, no mínimo, tratar bem quem trabalha nesses serviços, arriscando sua vida diariamente por R$ 3,50.

o seu conforto de classe média quer que você pense que essas pessoas são diferentes de você: de uma forma que você não espera, elas são e não são. são, porque vivem condições de trabalho talvez muito piores, vivem riscos muito maiores do que os que você vive, mas também não o são, possuem uma vida que é tão viva quanto a sua e, talvez, até bastante semelhante da sua, de formas que você não imaginava. a estratégia do 1% é fazer você pensar que a vida, a precariedade e a morte dos outros não são um problema seu.

fora pro desmonte trabalhista e da previdência. salve pros trabalhadores.”
Post originalmente publicado no perfil de Instagram @adesivoes

A robotização da força de trabalho

O grande salto tecnológico trouxe consequências tanto sociais quanto econômicas. Talvez a mais evidente, quando falamos de trabalho, seja a incapacidade de empregar uma enorme camada da população que está sendo ou será demitida pela robotização. A renda básica, que já falamos por aqui, desponta como uma possível solução para garantir a essas pessoas que tenham o necessário para viver dignamente. Há ainda uma vertente que defende o trabalho garantido como alternativa à renda básica e outra que argumenta que, por ora, não é possível prever quais novos empregos surgirão desse movimento e se, no fim das contas, o saldo final será positivo ou negativo. “O que está ocorrendo é que todas estas inovações vão de mãos dadas com uma legislação que favorece jornadas de trabalho ainda mais longas, com independência do salário, sem que aconteça uma negociação trabalhista simétrica”, completa o economista Juan Torres López, em entrevista ao Instituto Humanitas Unisinos.

O futuro começa agora

Para Lala Dehenzelin, pioneira no setor da economia criativa como estratégia de desenvolvimento e sustentabilidade, criar o porvir do trabalho sem vínculos opressores é possível, mas um desafio. “Primeiro, precisamos aprender a colaborar, convergir, trabalhar junto. O que parece simples, mas não é. É uma tecnologia extremamente complexa. Outro ponto importante é nossa percepção de valor. Cada profissional vai ter de conhecer seu valor para se relacionar e negociar e, para isso, serão necessárias determinadas ferramentas, como a fluxonomia, sociocracia, olocracia. Todas as iniciativas que deram certo, nesse sentido, são aquelas que fizeram um trabalho de convergência. Veja a Elo7, por exemplo, que pega artesãos que têm dificuldade de dar visibilidade para seus negócios e reúne todos eles dentro de um mesmo espaço virtual. Isso é desenvolver a nossa capacidade de nos organizarmos em plataformas comuns para, assim, trabalharmos de uma forma mais humanizada”, defende a futurista.

Pawel Kuczynski

Pawel Kuczynski

Empresas e pessoas atentas às mudanças já começaram a mapear as novidades que cruzam a esquina. A SPUTNiK, que tem como objetivo trazer os temas do futuro para o presente das empresas, oferece cursos, palestras, experiências educacionais, presenciais e online com conceitos, ferramentas e reflexões alinhados aos valores contemporâneos. Um dos conteúdos oferecidos é, justamente, o futuro do trabalho e de suas relações. Dos modelos tradicionais, passando pela transição de mercado e chegando à indústria do futuro: o curso é um mergulho em novas possibilidades tecnológicas e organizacionais. “De acordo o relatório ‘The Future of Jobs’, produzido pelo Fórum Econômico Mundial, até 2020, 35% das habilidades mais demandadas para a maioria das ocupações deve mudar. Temas que jamais estudamos em nossa jornada de aprendizagem, desde a escola até a faculdade, são as grandes

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habilidades do agora. As empresas serão, obviamente, mais tecnológicas, robotizadas, mas jamais deixarão contar com o desenvolvimento das nossas habilidades sociais. A cada mudança, novos meios e métodos serão construídos e implantados. Por isso a importância das organizações olharem para dentro e se questionarem sobre a forma que querem chegar — e atuar — nesse futuro que já começou” diz Mariana Achutti, CEO e fundadora da SPUTNiK.

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As ilustrações de destaque são do desenhista austríaco Stefan Zsaitsits.


Gabrielle Estevans
Jornalista, escreve sobre gênero, cultura e política. Também trabalha com pesquisa, planejamento estratégico e projetos com propósito e impacto social.

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