Inspiração

Eles fugiram da Alemanha Oriental em 1979 em um balão de ar quente caseiro

Vitor Paiva - 08/12/2020 | Atualizada em - 05/03/2021

Superar a barreira do Muro do Berlim, com suas torres deobservação, suas minas terrestres e seus sentinelas fortemente armados, e fugir da Alemanha Oriental para o lado Ocidental e capitalista do país era tarefa praticamente impossível – a não ser para as famílias Strelzyk e Wetzel, que se juntaram em setembro de 1979 para fugir da Alemanha comunista sobrevoando o muro com um balão de ar quente feito em casa. A fuga reuniu oito membros das duas famílias, incluindo um bebê de 2 anos, e se deu com sucesso depois de uma tentativa fracassada e três diferentes balões construídos.

A família Wetzel

A famíia Strelzyk

O eletricista Peter Strelzyk se juntou ao pedreiro Günter Wetzel para realizarem o desejo de ambos de fugir da Alemanha Oriental – e levar com eles seus familiares. O primeiro projeto visava a construção de um helicóptero, mas eles rapidamente compreenderam que um balão seria mais fácil e barato de ser concluído com sucesso. Calculado o peso dos dois amigos, suas esposas e seus quatro filhos e, depois de muito trabalho por parte de Wetzel costurando metros e metros de tecidos, casacos e outros materiais a fim de fazer o balão – enquanto Strelzyk construía o cesto e os queimadores, até que enfim, me meados de 1978, o protótipo ficou pronto.

Acima, um dos protótipos encontrados pela polícia; abaixo, a família Strelzyk com a foto do balão

O primeiro teste foi realizado na pequena cidade de Pößneck, onde as duas famílias viviam – e não deu certo. Um novo balão, com novos e melhores materiais, foi construído e ficou pronto em junho de 1979. A primeira tentativa de fuga aconteceu no início do mês de julho, mas o tempo ruim impediu o voo. Peter e Günter então decidiram dobrar o tamanho do balão, e às 2 da manhã do dia 16 de setembro de 1979 eles finalmente decolaram rumo ao lado ocidental de seu país. No pouso, realizado próximo à cidade de Naila, na região da Bavária, e o único incidente se deu com Wetzel, que quebrou a perna no impacto – mas a fuga foi enfim bem sucedida.

As duas famílias reunidas

O voo durou 28 minutos a uma temperatura de -8ºC, e pousou a 10 km de distância da fronteira. As duas famílias decidiram se estabelecer em Naila, com Wetzel trabalhando como mecânico de automóveis, e Strelzyk como reparador de TV. Em 1985, por pressão de espiões e outras forças políticas, os Strelzyk mudaram-se para a Suíça – somente com a reunificação da Alemanha, em 1990, que a família voltou a viver em Pößneck, enquanto os Wetzel permaneceram na Bavária.

Balão remontado por um museu

A incrível saga da fuga de balão foi retratada em dois filmes: Night Crossing, de 1982 e Ballon, filme de 2018.

Cena do filme “Night Crossing”, de 1982

Peter Strelzyk faleceu em 2017, aos 74 anos, e o balão que construiu com seu amigo Günter Wetzel encontra-se hoje exposto em um museu.

Peter Strelzyk no final de sua vida

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© fotos: arquivo pessoal/reprodução


Vitor Paiva
Escritor, jornalista e músico, Vitor Paiva é doutor em Literatura, Cultura e Contemporaneidade pela PUC-Rio. Autor dos livros Tudo Que Não é Cavalo, Boca Aberta, Só o Sol Sabe Sair de Cena e Dólar e outros amores, publica artigos, ensaios e reportagens.

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