Debate

Feminicídio só revolta quando vítima é branca e rica; imprensa segue culpando a vítima

por: Karol Gomes

Desde o assassinato da juiza Viviane Vieira do Amaral, na noite do feriado de Natal, a imprensa e a justiça brasileira estão tentando compreender: o que levaria um homem a cometer um crime tal brutal como o de feminicídio? 

A resposta pode estar nas dinâmicas sociais que levam ao machismo e à misoginia, mas parece que quem investiga o problema não está indo por este caminho. No Correio Brasiliense, por exemplo, a manchete chama atenção para o fato de que “a vítima abriu mão de escolta armada ‘por pena do ex-marido’”. Já O Globo destacou que Viviane “tentava preservar a imagem do ex-marido”

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Falta destacar, contudo, que nenhuma atitude que ela tomou em vítima justificaria um assassinato que, claramente, foi motivado pelo fato de que ela era uma mulher. No caso, ex-mulher. 

O caso chamou atenção do presidente do Supremo Tribunal Federal (STF) e do Conselho Nacional de Justiça (CNJ), ministro Luiz Fux. Ele afirmou à imprensa que as duas instituições estão consternadas e comprometidas com o desenvolvimento de ações para prevenir e erradicar o feminicídio. 

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“Tal forma brutal de violência assola mulheres de todas as faixas etárias, níveis e classes sociais, uma triste realidade que precisa ser enfrentada”, afirmou, em nota. Esta é uma postura extremamente necessária para tratar de casos como esses. Mas, infelizmente, não é constante. 

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De acordo com dados levantados pelo portal G1 em parceria com o Núcleo de Estudos da Violência da USP e o Fórum Brasileiro de Segurança Pública, nos primeiros seis meses de 2020, 1.890 mulheres foram mortas de forma violenta, boa parte em plena pandemia do novo coronavírus – um aumento de 2% em relação ao mesmo período de 2019. Segundo o levantamento, 631 desses crimes foram de ódio motivados pela condição de gênero, ou seja, feminicídio. Os crimes também têm questões de raça, pois as mulheres negras são a maioria entre as vítimas. 

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Entenda o caso que chamou atenção do STF: 

Três meses depois de denunciar o ex-marido à polícia e passar a contar com uma escolta cedida pelo Tribunal de Justiça (TJ) do Rio, Viviane foi assassinada a facadas por Paulo José. O feminicídio ocorreu no fim da tarde de quinta-feira na Barra, no momento em que entregava as meninas ao pai, com quem esperavam passar a noite de Natal. 

Como juíza, Viviane teve um privilégio que muitas mulheres não têm quando procuram ajuda da justiça: ela foi ouvida. Depois de uma discussão, o Paulo a ameaçou de morte e ela chamou a Polícia Militar. Algumas horas depois, Viviane registrou queixa na 77ª DP (Icaraí) e solicitou medidas protetivas.

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A escolta durou dois meses, até que Viviane assinou um termo de responsabilidade no TJ ao pedir sua suspensão. Nesta quinta-feira, aceitou um pedido de Paulo José para encontrá-lo com as filhas numa rua de pouco movimento da Barra. Ela foi atacada ao sair do carro para entregar as crianças. A vítima estava sozinha com as filhas, de idade entre 7 e 9 anos, que assistiram a mãe ser morta a facadas pelo pai. 

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Após o feminicídio, o engenheiro se sentou ao lado do corpo, enquanto uma mulher tentava consolar as meninas. Uma equipe da Guarda Municipal o prendeu, e, ao ser perguntado por que fizera aquilo, balançou os ombros, sem falar nada. No carro do assassino, foram encontradas três facas, o que dá à polícia a convicção de que se trata de crime premeditado.

Levado à Delegacia de Homicídios, Paulo José permaneceu calado. Disse apenas que só se manifestará perante a Justiça. Em 2007, ele já havia sido denunciado por agressão e ameaça a uma ex-namorada. Nesta sexta-feira, sua prisão em flagrante foi convertida em preventiva, desfecho tardio para uma crise que se agravava.

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Foto 1: Reprodução / Arquivo Pessoal
Foto 2: Divulgação


Karol Gomes
Karol Gomes é jornalista e pós-graduada em Cinema e Linguagem Audiovisual. Há cinco anos, escreve sobre e para mulheres com um recorte racial, tendo passado por veículos como MdeMulher, Modefica, Finanças Femininas e Think Olga. Hoje, dirige o projeto jornalístico Entreviste um Negro e a agência Mandê, apoiando veículos de comunicação e empresas que querem se comunicar de maneira inclusiva.


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