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Katú Mirim, rapper paulista, é sinônimo de resistência indígena na cidade

por: Bárbara Martins

Somos netas das indígenas que vocês não conseguiram matar” é talvez o verso mais marcante de “Xondaria” (“guerreira”, em tradução livre do guarani mbyá), lançamento mais recente do SoundCloud da rapper paulista Katú Mirim, de 32 anos. Mulher, mãe, bissexual, ativista, moradora da periferia de São Paulo e indígena urbana (por ser nascida e criada na cidade), foi de uma ideia dela que surgiu a campanha viral #ÍndioNãoÉFantasia, de 2018, para chamar atenção contra o ato de se vestir de “índio”, que esvazia de sentido a história e cultura de diversos povos nativos.

Pela relevância de suas diversas lutas, Katú foi convidada pela marca de roupas Levi’s para fechar a programação do projeto Geração 501, na edição do último sábado (27/04), em que lideranças indígenas se reuniram para compartilhar um pouco de sua sabedoria ancestral, aprendizados e possibilitar o diálogo cultural com moradores da Zona Oeste paulistana.

“Já passou da hora de as pessoas conhecerem a verdadeira história e resistência desse país, de lutarem do nosso lado pela demarcação de terras e pelo bem viver”, diz Katú, em entrevista ao Reverbao falar sobre a invisibilidade de questões indígenas no Brasil. Foi durante a adolescência, o primeiro contato da artista com o rap, com batalhas de MCs e com o breakdance, e não demorou muito para que o aspecto libertador do hip-hop também a motivasse a retratar a própria realidade por meio da música.

“Meu rap, minha arte, fala sobre nossa resistência e existência”, ela explica. “Precisamos desconstruir os estereótipos que há centenas de anos vêm sendo fomentados (sobre indígenas). Assim, já damos um enorme passo para a sociedade enfim conhecer a verdade e lutar conosco”.

Recebo muitas mensagens e comentários racistas, mas sigo sendo o que sou, e a melhor definição é resistência

O rap de Katú tem linguagem acessível e evidencia algumas das pautas indígenas de maior reivindicação no cenário brasileiro. Em “Vestido de Hipocrisia“, por exemplo, ela aborda o tema do uso recreativo de fantasias de “índio” e explica o quão ofensiva é essa atitude em um país onde o genocídio cotidiano de populações nativas não alarma a opinião pública como deveria. “Vivemos resistindo e enfrentando artilharia / O seu racismo tem confete / Sua cara, hipocrisia“, ela rima no refrão. “O tempo todo tem sempre alguém para falar que eu nem deveria existir”, continua Katú. “Recebo muitas mensagens e comentários racistas, mas sigo sendo o que sou, e a melhor definição é resistência”.

Meu corpo e minha arte já são um protesto

Para a ativista, o próprio ato de existir já combate estereótipos. “Vou a espaços onde as pessoas estão esperando a ‘indiazinha folclore’ e chego com meu estilo, tatuagens, boné e microfone — só minha existência já os desconstrói”, ela diz. “Meu corpo e minha arte já são um protesto”.

Segundo Marina Kadooka, gerente de marketing da Levi’s, que organiza o Geração 501, a intenção da marca ao propor atividades nas quatro regiões de São Paulo foi elaborar espaços de imersão, respeito, afeto e inclusão que de fato chegassem até as pessoas. “Muitas marcas só dão espaços para pessoas que já estão no auge”, pondera Katú.

Para a artista, há questões indígenas de extrema relevância para toda sociedade se atentar, como os altos números de suicídio e homicídio de representantes de povos nativos no Brasil e a urgência da luta contra o apagamento da história e da cultura dessas populações — partes importantíssimas da memória nacional. Pois é como ela afirma em entrevista e ratifica nas linhas de seu rap: “A luta pelos direitos indígenas é de todos e fará bem para todos”.

*Esta matéria foi originalmente publicada no site Reverb, em abril de 2019.

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Fotos de destaque: Reprodução Instagram / @katumirim


Bárbara Martins
Criada em Duque de Caxias, na Baixada Fluminense, é jornalista, fotógrafa e videomaker. Envolvida pela cultura, história e arte de subúrbios e periferias, dedicou pouco mais de dois anos à cobertura de pautas relacionadas à música como redatora do site Reverb, antigo parceiro do Rock in Rio. Em formação pela UFRJ, também tem experiência com produção de conteúdo para redes sociais, assessoria de imprensa e gravação de sessions e entrevistas.

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