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Mulher negra vence Fleury na Justiça após chefe sugerir que alisasse o cabelo

por: Redação Hypeness

O laboratório clínico Fleury foi condenado pelo Tribunal Superior do Trabalho a indenizar a ex-funcionária Mayara Oliveira de Carvalho em R$ 10 mil por discriminação racial. Mulher negra com cabelo black power, Mayara era recepcionista do grupo e no período em que trabalhou na empresa foi indicada a seguir um “guia de padronização visual” em que as referências eram todas de pessoas brancas e cabelos lisos. 

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Mayara Carvalho de Oliveira move uma ação contra o Grupo Fleury por discriminação racial.

No processo seletivo, foi falado sobre maquiagem e cabelo. A regra fundamental era de que, se o cabelo passasse dos ombros, tinha que ser preso. E quem tinha franja, teria que colocá-la de forma discreta. Mas meu cabelo não forma franja e não tem caimento abaixo dos ombros”, conta, em entrevista ao “Uol”.

Para a ministra Delaíde Miranda Arantes, relatora do caso, a “falta de diversidade racial no guia de padronização visual é uma forma de discriminação, ainda que indireta, que tem o condão de ferir a dignidade humana e a interidade psíquica dos empregados de raça negra, como no caso da reclamante, que não se sentem representados em seu ambiente laboral”.

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À “CNN”, Mayara conta ter ouvido de colegas de trabalho o “conselho” para quem prendesse o cabelo. Segundo eles,  o penteado da recepcionista “chamva muita atenção” e os clientes poderiam fazer reclamações no Serviço de Atendimento ao Cliente. “Não era o cabelo que os clientes Fleury não estavam acostumados a lidar”, eles disseram.

Em nota, o grupo Fleury alegou que defende a pluralidade e que possui, em seu quadro de funcionários, 50,6% de pessoas negras e 80% de mulheres. Em 2020, a afirmação soa como a tão repetida (e ignorante) frase: “nada contra negros, tenho até amigos que são”. De que adianta ter um quadro diverso e ainda assim excluir minorias de manuais institucionais, de quadros diretores e adotar padrões eurocêntricos de “padronização”. Isso tem nome e se chama racismo estrutural. 

Em entrevista ao “Uol”, a advogada Silvia de Souza, que integra a equipe de defesa de Mayara, explicou que “o racismo estrutural é um elemento que organiza e integra a sociedade nas diferentes dimensões. É a relação de um grupo homogêneo com um grupo de massa dominada.

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Já o racismo institucional, segundo ela, é quando “essa estrutura de poder e dominação se espalha dentro de instituições públicas ou provadas”, como foi o caso de Mayara, que acabou sendo demitida por “não cumprir os pré-requisitos da empresa”. 

Na história de vida de Mayara, essa não foi a primeira vez em que ela enfrentou o racismo no trabalho. Porém, a consciência para denunciar não foi algo que sempre esteve presente em seus caminhos profissionais. Ela veio com o tempo. 

A gente precisa falar sobre isso. É tão comum fazer ‘piadinhas’ no cotidiano, nos diminuir pelas características, tom da pele e cabelo, que a gente acaba entendendo que é natural. É como se fosse uma hierarquia, em que as pessoas brancas são mais bonitas, inteligentes, dignas de certas oportunidades. Então, vestimos a camisa da inferioridade e não nos posicionamos. Ter conhecido a militância negra me fortaleceu muito.

 

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Fotos: Unsplash / Arquivo Pessoal


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