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País Dogon e a importância do Mali na origem da vida e criação do mundo

Yuri Ferreira - 03/12/2020 | Atualizada em - 04/01/2021

Você já ouviu falar do País Dogon? Chegou a estudar o Império do Mali na escola? Eu não. Infelizmente, mesmo sendo um país de maioria negra, o foco eurocêntrico da educação brasileira nos metralha com a história ocidental, mas esquece das origens da maior parte da nossa população: o continente africano.

Por exemplo, pouca gente saberia apontar onde é o Mali moderno em um mapa atual da África. Mas a história rica desse país – fragilizado nos últimos anos pela colonização francesa e achacado por grupos extremistas islâmicos – não pode ser esquecida.

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Nesse texto vamos contar um pouco sobre a cosmogonia dos Dogon, habitantes das Falésias da Bandiagara, e relembraremos o Império do Mali, um dos maiores reinos da humanidade, esquecido pela historiografia branca.

A cosmogonia Dogon

No século XV, o povo Tellem habitava o planalto central do Mali. A região, que fica no Sahel – a fronteira entre o deserto do Saara e a zona tropical do continente – é bastante árida, mas ainda irrigada por parte do Rio Niger, que nasce na Guiné e desemboca na Nigéria. Foi durante esse período e nessa região que os Dogon ali chegaram. 

Sem registros escritos, é difícil compreender de onde eles vieram, mas sabe-se que, quando chegaram, eram chamados de Habe (estrangeiros) pelo povo Fulani. 

Conhecimento de astronomia e filosofia Dougon são objetos de estudos acadêmicos

A região adotada pelos Dogon, as Falésias da Bandiagara, fez com que o povo resistisse de maneira segura a dominações imperiais e também à invasão islâmica que dominou povos a força com a palavra da religião. “Escondidos” em encostas de formações rochosas, eles criaram uma arquitetura incrível e poderosa que, além de bela, era essencial para formas de subsistência da população, que existe há séculos nas encostas de montanhas.

Em sua maioria animistas, os dogon têm uma relação especialmente festiva com a morte; após um membro da comunidade morrer, eles fazem uma festa de dança chamada ‘dama’. Durante dias, os dogons dançam para fazer com que a alma do falecido encontre descanso no mundo espiritual.

Falésias da Bandiagara são o lar do povo Dougon

O antropólogo francês Marcel Griaule foi um dos principais criadores de literatura sobre o tema. Entretanto, estudos mais recentes argumentam que a abordagem do acadêmico era mentirosa e desumanizava os dogons. Entretanto, seu trabalho etnográfico foi central para compreensão da cosmogonia transmitida oralmente por mais de 500 anos. Segue o mito de criação do mundo dos Dogons, reportado no livro ‘Conversations With Ogotemmeli’, que o sacerdote Ogotemmeli contou:

“No princípio, o Deus único criou o Sol e a Lua, que tinha a forma de cântaros, a sua primeira invenção. O Sol é branco e quente, rodeado por oito anéis de cobre vermelho, e a Lua, de forma idêntica tem anéis de cobre branco. As estrelas nasceram de pedras que Deus atirou para o espaço. Para criar a Terra, Deus espremeu um pedaço de barro e, tal como fizera com as estrelas, arremessou-o para o espaço, onde ele se achatou, com o Norte no topo e o restante espalhado em diferentes regiões, à semelhança do corpo humano quando está deitado de cara para cima.”

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Além disso, uma relação do povo com a estrela de Sirius – a mais próxima do nosso Sol – fez com que os dogons tivessem uma conexão íntima com a astronomia. Segundo o livro ‘O Mistério de Sirius’ de Robert K. G. Temple, os dogons tem uma celebração a cada 50 anos que celebra a órbita de Sirius B, uma estrela que orbita Sirius A. O problema é que Sirius B não é visível ao olho nu, e, por isso, a origem desse conhecimento parece um mistério para os ocidentais.

O Império Mali

Se você ouviu ‘Black Parade’, canção de Beyoncé, pode ter percebido a referência a Mansa Musa. Pouco se comenta de um dos maiores imperadores da história nas aulas do colégio, mas Musa I foi o consolidador do reinado do Mali, com uma vida cheia de lendas e conquistas incríveis e o amplo desconhecimento ocidental sobre o tema é a prova de nossa educação eurocêntrica.

Musa herdou o posto de Mansa (Rei dos Reis) de Abubakari Keita, que  desapareceu em guerra. Professante do Islã, o reino de Musa se estendeu da região de Timbuktu e das margens do Rio Niger no atual território do Mali até a costa atlântica, no que hoje é o Senegal. Muitos dizem que ele era o homem mais rico que já andou sobre a terra. Isso porque a região de seu império era rica em metais e seus povos dominavam com facilidade a fundição.

Mansa Musa, o homem mais rico da história da humanidade

Uma das principais histórias sobre seu reino está em 1324-25, em sua marcha até Meca. Ele partiu do Mali até a terra sagrada de Maomé com 60,000 soldados. Cada um deles tinha 1,2 quilos de ouro e trajavam seda persa. Sua passagem foi fartamente documentada, e o principal problema posterior esteve relacionado a uma inflação completa nas cidades: a desvalorização do ouro durou anos após Musa e seu exército depositarem todas as suas riquezas no norte de África.

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“Dos cantos mais a oeste do Mar Mediterrâneo ao Rio Indus, os fiéis sempre viajavam para a cidade de Mecca. Todos com o mesmo objetivo: adorar juntos o mais sagrado espaço do Islam, a Kaaba em Mecca. Um desses viajantes era Mansa Musa, o Sultão do Mali na África Ocidental. Ele foi preparado para a longa travessia não somente por uma realização religiosa, mas também para recrutar professores e líderes que pudessem ensiná-lo (e ensinar o povo do Mali) a palavra do Profeta Maomé”, conta o historiador do islamismo na África Mahmud Al-Kati, em seu livro ‘Chronics of the Seeker’.

A busca por mentes era de fato uma importante parte da concepção de mundo de Mansa Musa I: as verbas obtidas com a comercialização de ouro se transformaram em mesquitas e madrasas – centros de educação – bastante desenvolvidos, com uma arquitetura única e até hoje preservada pela UNESCO. A mais famosa delas é a Universidade de Madrasa:

Universidade em Timbuktu, construída na época do Império Malinês

O legado de Mansa Musa I foi importante para construir um dos maiores impérios de seu tempo, rico e bem sucedido. Entretanto, com a segregação da África entre diversos povos e religião fez com que o Império Mali durasse até 1670, segregado entre diversos domínios islâmicos. 

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Fotos: © Getty Images


Yuri Ferreira
Jornalista formado na Escola de Jornalismo da Énois. Já publicou em veículos como The Guardian, UOL, The Intercept, VICE, Carta e hoje escreve aqui no Hypeness.

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