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Racismo: assim como Emily e Rebecca, as 12 crianças mortas baleadas no RJ eram negras

por: Redação Hypeness

As primas Emilly, de 4 anos, e Rebecca, de 7, agora fazem parte da triste estatística do Estado do Rio de Janeiro, que só em 2020, teve 12 crianças vítimas de armas de fogo. Uma média de uma por mês, de acordo com o EXTRA. 

As duas foram assassinadas por um tiro de fuzil enquanto brincavam na calçada em frente ao portão de casa, na comunidade do Barro Vermelho, em Gramacho, Duque de Caxias, na Baixada Fluminense. 

Parentes e amigos fizeram uma manifestação no domingo (6) e pediram Justiça. Agora, a família pretende processar o Estado e lamenta a falta de apoio que tem recebido das autoridades. De acordo com eles, policiais que estavam numa viatura atiraram em direção à rua em que Rebecca e Emilly brincavam. Eles afirmam que não houve confronto.

Por nota, a PM disse que não fez disparos. A Delegacia de Homicídios da Baixada Fluminense apreendeu as armas dos cinco policiais que estavam na região. No total, foram para a perícia cinco pistolas e cinco fuzis. Os agentes já prestaram depoimento, segundo reportagem do EXTRA.

 “Que esse policial possa pagar diante da justiça dos homens e da justiça de Deus. Não desejo que ele passe pela dor que estou passando. Não aceitaria o seu pedido de perdão… Isso não vai trazer a minha caçulinha de volta, mas não quero mal para a sua família”, disse Alexsandro dos Santos, pai da pequena Emilly.

Emily e Rebecca perderam a vítima para o racismo perverso do Brasil

“Queremos processar o estado não por dinheiro, mas por justiça”, afirmou Maycon Douglas Moreira Santos, pai de Rebecca e primo de primeiro grau de Emilly, em entrevista ao EXTRA.

Segundo informações da família para o jornal carioca, Rebecca Beatriz Rodrigues Santos, de 7 anos, amava balé, mas queria mesmo era ser marinheira. Já Emilly Victoria da Silva Moreira Santos, que faria 5 anos no próximo dia 23, sonhava apenas estudar e contava os dias para sua primeira festa de aniversário. O tema seria Moana, sua personagem favorita. Porém, parte do recurso para a celebração, fruto da ajuda de toda a família, foi usado no enterro das primas e amigas, no sábado, dia 5 de dezembro.

Ao EXTRA, Maycon contou que a filha era doce, tinha porte de bailarina, mas era firme e, mesmo com pouca idade, já sabia o que queria da vida: estudar para ser marinheira. Já Emilly, de tão agitada, ganhou o apelido de Fuzuê. Amava festas e gostava muito de dançar, principalmente funk. Adorava estudar, e sua maior vontade era ir para a mesma escola de Rebecca.

Lídia da Silva Moreira, mãe de Maycon e avó de Rebecca, que estava chegando do trabalho quando as meninas foram baleadas, disse que, um mesmo tiro disparado por um dos PMs atingiu as duas. Ela lamentou a falta de suporte das autoridades na manifestação ocorrida na tarde deste domingo, dia 6 de dezembro, que pedia justiça pela morte das primas e reuniu parentes e amigos na Praça do Pacificador, em Caxias.

“A dor das famílias que perderam seus entes queridos é irreparável. Duas crianças na porta de casa e um policial exercendo sua missão. Desde as primeiras horas, a Polícia Civil realiza as investigações, e nós daremos uma resposta à sociedade. Minha solidariedade e orações”, foi a postagem feita pelo governador em exercício, Cláudio Castro, em sua conta no Twitter, citando também o PM morto em Mesquita na sexta-feira.

As duas foram sepultadas lado a lado, em gavetas, e o pai da mais nova, Alexsandro, foi quem fechou o túmulo das duas meninas com as próprias mãos. Na cerimônia, Emilly usava justamente a fantasia da Moana comprada para seu aniversário. 

Crianças negras na mira da violência racista 

De acordo com levantamento do EXTRA, somente em 2020, o Estado do Rio de Janeiro perdeu 12 crianças vítimas de armas de fogo. Abaixo, o EXTRA relembrou os outros 10 casos.

Anna Carolina Neves – A menina tinha 8 anos e morreu após ser baleada em Belford Roxo, na Baixada, no dia 9 de janeiro. Ela estava dentro de casa, sentada no sofá, vendo TV com o pai, quando foi atingida na cabeça. Segundo a PM, não havia operação na região na hora em que ela foi ferida. A família informou à corporação que disparos foram ouvidos pouco antes da tragédia.

João Vitor dos Santos – Aos 14 anos, ele foi atingido na cabeça no dia 29 de janeiro ao voltar do aniversário da prima, na Avenida Vicente de Carvalho, em Vila Kosmos, na Zona Norte. Ele morreu no domingo seguinte, dia 2 de fevereiro. Na época, em nota, a PM afirmou que não fazia operação na região quando houve o disparo que feriu o adolescente.

Luiz Antônio da Silva – O menino também tinha 14 anos e foi atingido na perna no dia 6 de fevereiro, na comunidade Vila Ruth, em São João de Meriti, na Baixada. Ele morreu no dia seguinte, uma sexta-feira; na segunda, Luiz, que chegou a morar na rua, seria matriculado numa escola. O adolescente estava em processo de adoção pela dona de casa Tamires Silva, de 23 anos. Os dois saíam do psicólogo quando começou um tiroteio. Tamires diz que PMs se recusaram a socorrer o menino.

Douglas Enzo Marinho – Morto com um tiro no peito durante a própria festa de aniversário de 4 anos em Piabetá, distrito de Magé, na Baixada Fluminense, em 7 de junho. O autor dos disparos foi um convidado do evento, Pedro Vinícius de Souza, de 21 anos, que chegou a ser preso.

João Pedro Matos Pinto – O adolescente de 14 anos morreu ao ser atingido nas costas durante uma operação das polícias Federal e Civil no Complexo do Salgueiro, em São Gonçalo, Região Metropolitana do Rio, no dia 18 de maio. Segundo parentes, agentes invadiram a casa onde ele estava e saíram atirando.

 Kauã Vitor – O menino de 11 anos morreu ao ser atingido na cabeça no Complexo da Maré, na Zona Norte do Rio, no dia 25 de junho, enquanto brincava na porta de casa. Suspeito de ter sido o autor do crime, Felipe Lima Gomes, de 18 anos, conhecido por Panelinha, foi preso dias depois. Ele estaria brincando com a arma quando o disparo foi feito.

 Rayanne Lopes – Aos 10 anos, a menina foi morta numa festa junina em Anchieta, na Zona Norte, em 28 de junho. O pai dela também foi balado ao tentar protegê-la na chacina, que deixou cinco mortos e sete feridos. Ele passou por cirurgia e sobreviveu. Testemunhas contaram que quatro homens com fuzis saltaram de um carro preto atirando contra o evento.

 Ítalo Augusto Amorim – Aos 7 anos, ele foi atingido na testa por um tiro também no portão de casa, enquanto brincava, no Éden, em São João de Meriti, no dia 30 de junho. De acordo com testemunhas e também com a PM, homens numa moto atacaram uma viatura. Em nota, a corporação afirmou que não revidou.

 Maria Alice – A menina de 4 anos foi baleada durante um aniversário em Três Rios, no Vale do Paraíba, no dia 30 de junho. Ela foi socorrida e internada, mas chegou ao hospital em estado gravíssimo e morreu dois dias depois. Na hora do crime, houve um confronto entre bandidos que disputam o tráfico na região, e uma outra pessoa morreu, de 20 anos, e mais seis ficaram feridas.

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Foto: Reprodução/Arquivo Pessoal


Redação Hypeness
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