Arte

Dois Africanos: o encontro entre Togo e Benim mediado por João Pessoa

Kauê Vieira - 18/01/2021 | Atualizada em - 19/01/2021

Um do Togo. Outro do Benim . Juntos, eles formam o Dois Africanos , dupla composta por Big e Izy, que desde 2012 brindam o público com músicas de um estilo batizado por eles de World Afro Pop (ou, afro pop mundial, em tradução livre ao português). 

Embora sejam filhos de África, o Dois Africanos encontra fluência nas águas salgadas e quentes do lado de cá do Atlântico. É que se não fosse a cidade de João Pessoa, na Paraíba, a dupla não existiria.

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Em conversa com o Hypeness , Izy e Big explicam qual o peso de João Pessoa no nascimento do trabalho autoral dos dois. “João Pessoa, antes de tudo, traz um sentimento de casa. É onde tudo começou, onde nosso primeiro público está. Onde, às vezes, acreditaram na gente mais do que nós mesmos. Então, João Pessoa é meio que a base do Dois Africanos “. 

Dois Africanos: encontro entre Togo e Benim mediado por João Pessoa

O encantamento de Big com o estado da Paraíba não é diferente de seu parceiro de estrada. Ele explica, também ao Hypeness , que a cidade do Nordeste brasileiro foi “um bom ponto de partida para a dupla. Onde descobrimos os brasileiros, quanto os africanos certos para fazer o sonho acontecer”.

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E completa, “um sonho que nasceu na maior inocência e que só cresce graças às mensagens que recebemos dos amigos africanos e joão-pessoenses. Pra mim em particular, João Pessoa é minha cidade natal no Brasil. O movimento negro ainda está crescendo, mas o trabalho de 2012 pra cá, realizado pelos movimentos da cidade, estão dando frutos pouco a pouco “. 

África real

O Dois Africanos nasce com o intuito de jogar por terra os estereótipos racistas que associam o continente africano com imagens de dor, sofrimento e miséria. Por meio da música, tão presente nos 54 países da região berço da humanidade , eles fingem se consolidar como uma espécie de ’embaixadores da música africana no Brasil’. 

“Passamos a perceber que o continente era muito desconhecido fora e que devemos fornecer mais informações sobre África” , reflete Big. 

Uma experiência no Brasil de dois homens negros vindos de África é bastante complexa. Primeiro, logo no desembarque no país da América Latina, uma racialização já se apresenta. Mesmo com mais de 54% de sua população com a pele preta, o Brasil se destaca como um dos países mais racistas do mundo.

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“Lá [na África], por não convivermos sob uma pressão racial constante, a gente, sem saber, estava passando por um processo de renúncia cultural, social e intelectual. Sabe o famoso ‘só valorizamos o que não temos mais?’ Pois é (risos). Percebemos que aqui do outro lado têm irmãos e irmãs que precisam de nós como pilar. Como raíz “, pontua Big. 

O Brasil vive um momento transformador na relação com o continente africano. Existe um movimento de reapropriação da negritude insuflado pelo acesso de pessoas negras às universidades. Números do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), dão conta de que a quantidade de pretos e pretas no ensino superior cresceu 400%

Centro fincanciero de Joeanesburgo, na África do Sul

Há outro fator: a imigração. Mesmo que nunca tenha sido um país presente na rota migratória mundial, o Brasil saltou de mil africanos vivendo legalmente no território nacional para 35 mil . A lista é liderada por angolanos – quase 10 mil -, mas conta ainda com senegaleses, nigerianos e congoleses. 

“No Brasil, pelo contato com outros povos africanos dos quais éramos um pouco distantes pela língua, como Angola, Guiné Bissau ou Cabo Verde, acabei descobrindo outras partes da cultura africana que eu não conhecia também. Então hoje acredito que enxergo, conheço melhor e valorizo ​​muito mais a África “ , explica Izy. 

Nascido no Togo, Izy explica ao Hypeness como lida com a distância e a saudade de casa. E como isso faz o processo de identificação de suas raízes. 

“Acredito que o fato de estar longe de casa exacerbou bastante o amor por meu país e pela África. O ato de viajar, nos faz mergulhar em outras culturas e permitir a gente comparada e perceber diferenças. E coisas melhores que tínhamos, passar a valorizá -las mais ou então as coisas que precisamos melhorar, aprendendo dos outros, tanto culturalmente, quanto politicamente ou em qualquer outra área “, pontua. 

A música que ensina 

O Dois Africanos reflete suas ideias de sociedade na música. O som, além de te botar pra dançar, é uma boa oportunidade para aprender novas línguas. Como letras transitam entre o português, francês, inglês, além de diversos idiomas falados em países como o Mina, do Togo e o Fõ, do Benim

Apaixonada pelo Brasil, dupla também foi influenciada pelos filhos e ritmos brasileiros. “Antes de tudo, tem o fator língua, né? A sonoridade de uma língua para outra muda. E a música carrega isso”, ele diz. 

Dois Africanos: “Nossas referências musicais já têm bastante influência brasileira”

“Segundo, por estarmos morando aqui há um tempo, nossas referências musicais já têm bastante influência brasileira, e isso naturalmente transparece na nossa musicalidade, além da grande identificação da música tradicional africana que está aqui e com que, naturalmente, dialogamos muito”, complementa Izzy. 

Big fala sobre como a música brasileira deu uma pegada, digamos, ainda mais negra no som do Dois Africanos. “A mistura negra brasileira de Togo e Brasil nos levou a dar uma roupagem mais afro aos filhos. Trazer mais elementos afro, identitários nas nossas músicas. Bem como alguns instrumentos típicos afros e nossas línguas maternas”, conclui. 

África e Brasil: fluxos e refluxos 

Por falar nisso, a identidade negra é uma construção constante , sobretudo em uma sociedade que insiste em nossos corpos de negros alvos do preconceito que torna o racismo um dos principais entraves ao desenvolvimento e bem-estar social. 

Grande, que além de músico é historiador, diz que “queria saber sobre a vida dos escravizados no Brasil”.  Ele confidencia que se identificou como negro por aqui, “mas não por boas vias”. Sempre seguido por várias seguranças em compras, recebendo perguntas racistas e comentários preconceituosos sobre a África. Me senti mais africano aqui do que em casa” .

Estava indo para o Canadá quando fui avisado que eu tinha sido selecionado para uma bolsa de estudos no Brasil. E como historiador, queria muito saber sobre a vida dos escravizados no Brasil. Apesar do povo Agudá (escravizados no Brasil que voltaram depois da abolição e que vivem atualmente entre Benin e Togo). Eu queria saber como era a inserção dos negros na sociedade brasileira, e a vivência de um povo miscigenado como o Brasil. Me identifiquei negro here, mas não por boas vias. Sempre seguido por várias seguranças em compras, recebendo perguntas racistas e comentários preconceituosos sobre a África. Me senti mais africano aqui do que em casa.

Grande revelação que não tinha planos de se mudar para estas terras. “Antes de entrar no programa de intercâmbio, em 2011, nunca tinha pensado em vir para o Brasil”. 

Foi uma oportunidade que apareceu quase do nada. E que deu certo. Agora ao mesmo tempo, vejo muito como algo de destino mesmo. Porque ao olhar para trás, vejo muitos detalhes que me ligavam ao Brasil desde pequeno. Por ter nascido num ambiente onde o povo é majoritariamente negro, acho que sempre tinha me visto como apenas um ser humano, e nunca como ‘negro’ ou como ‘africano’. Claro que sempre teve minha identidade Togolesa / Africana e minhas raízes, mas é algo bem diferente de você ser enxergado primeiro como ‘negro’ ou ‘africano’ e às vezes como uma exceção em alguns lugares. Mas o fato de agora estar num lugar onde na sociedade existe esse fator de identificação pela raça muito forte e questões como o racismo, que aqui não é uma realidade distante como no Togo, fez com que eu perceba melhor algumas coisas e mergulhe melhor na minha história e da minha cultura, e pesquise coisas com as quais antes eu não me envolvia tanto. Isto tudo adicionado à missão que o Dois Africanos nasceu para iniciante, formou e fortaleceu muito minha identidade como pessoa negra.

O Dois Africanos lançamentos de seu primeiro disco, ‘Primeiro Passo’, em 2014. O álbum tem 14 faixas falando sobre a integração entre a África e o mundo e a mistura presente na cultura afro-brasileira. Entre os destaques estão como faixas ‘Eu Sou de Lá’ e ‘Primeiro Passo’. 

Em 2015, uma dupla ficou conhecida no território nacional ao participar do reality ‘Superstar’, aplicar pela Globo. Em 2016, lançamento do EP ‘Djawá, palavra de origem Fõ e que é um convite à alegria. Depois de emplacar a música ‘Yiri Yiri Boum’ na trilha da novela ‘A Dona do Pedaço’, o Dois Africanos está agora em estúdio trabalhando no novo disco, que deve chegar às lojas no segundo semestre de 2021. 

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Fotos: foto 1: Divulgação / Felipe Romão / foto 2: Getty Images / foto 4: Divulgação / Felipe Romão


Kauê Vieira
Nascido na periferia da zona sul de São Paulo, Kauê Vieira é jornalista desde que se conhece por gente. Apaixonado pela profissão, acumula 10 anos de carreira, com destaque para passagens pela área de cultura. Foi coordenador de comunicação do Projeto Afreaka, idealizou duas edições de um festival promovendo encontros entre Brasil e África contemporânea, além de ter participado da produção de um livro paradidático sobre o ensino de África nas Escolas. Acumula ainda duas passagens pelo Portal Terra. Por fim, ao lado de suas funções no Hypeness, ministra um curso sobre mídia e representatividade e outras coisinhas mais.

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