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Eric Clapton e um porre histórico tomado em plena lavagem do Bonfim, em Salvador, em 1975

por: Vitor Paiva

Eric Clapton já era visto como um deus da guitarra há mais de uma década quando, em 1975, veio passar dez dias de férias na Bahia. Acompanhado de Pattie Boyd, então sua esposa, o guitarrista e compositor britânico já havia sobrevivido ao apogeu e a queda de bandas como Yardbirds, John Mayall & The Bluesbreakers, Cream, Blind Faith e Derek and the Dominos, das quais fez parte, e já desfrutava de imenso sucesso em sua carreira solo quando desembarcou em Salvador no verão daquele ano. Junto do sucesso, Clapton trazia o uso desregrado de drogas e o alcoolismo profundo como marca, mas reza a lenda que o músico não resistiu às batidas baianas e, em plena lavagem do Bonfim, tombou em um pequeno apartamento próximo à Colina Sagrada, no Bairro do Bonfim, na capital baiana.

Eric Clapton em 1975 durante um show

Clapton em 1975

Quem contou essa história ao jornal Correio 24 horas foi o produtor musical Mauricio Almeida, que por décadas trabalhou Warner do Brasil, e recebeu Eric Clapton para sua estadia em Salvador. “Foram dez dias de Eric Clapton por aqui. Ele não veio para fazer show ou gravar músicas. Estava de férias e veio conhecer a cidade. Ficou hospedado na Pousada do Carmo, no Santo Antônio. Por isso, montei uma programação para que conhecesse Salvador, tanto de dia quanto de noite”, contou o produtor, em reportagem do Correio que pode ser lida aqui.

Pattie Boyd e Eric Clapton em evento em Londres em 1975

Pattie Boyd e Eric Clapton em evento em Londres em 1975

Segundo Almeida, além da esposa (que antes de casar com Clapton havia sido casada com o beatle George Harrison), a entourage do músico no Brasil incluía um grupo de assessores, músicos e até Robert Stigwood, magnata australiano empresário dos Bee Gees. Os dias eram de muito futebol, mergulhos e picolés na areia de praias como Piatã e São Tomé, e as noites invariavelmente acabavam nas boates e bares de Salvador. Em 1975 a gravação de Clapton para a clássica “I Shot The Sheriff”, de Bob Marley, havia ganhado o mundo, e o músico gozava de imenso sucesso internacional mais uma vez.

“Como estávamos em janeiro, eu tive a ideia de levá-los na Lavagem do Bonfim. Era uma experiência que eu sabia que ele gostaria, afinal era um cara muito curioso e tinha ficado muito interessado nas cores, sons e ritmos da Bahia. Fomos em dois carros Ford Galaxie até bem perto da igreja, porque nessa época a lavagem não fechava as ruas da cidade”, conta Almeida. Segundo o produtor, depois de acompanharem um pouco o cortejo, sem praticamente ser reconhecido em meio à multidão, Clapton quis parar em um bar, para beber e assistir à percussão da música ao vivo. O álcool e o sol da Bahia foram fortes demais mesmo para um bebedor profissional como aquele, e no meio da tarde o músico anunciou que estava passando mal.

Foto que seria utilizada na capa de "No Reason To Cry", de 1976

Foto que seria utilizada na capa de “No Reason To Cry”, de 1976

Mauricio então lembrou de um amigo que morava por perto, que só acreditou de fato no pedido quando viu um dos maiores guitarristas de todos os tempos entrando em sua casa carregado – de onde saiu por volta das onze da noite, quando enfim melhorou. Segundo Almeida, a maneira que Eric Clapton encontrou para agredecer pelas férias e o socorro foi discreta porém inesquecível, e pode ser vista e ouvida no disco No Reason To Cry, lançado em 1976. “Aquela camisa na capa do disco de 1976, eu que dei a ele. Era uma jardineira da Lubrax que comprei pra brincar o Carnaval. Mas ele gostou tanto que dei de presente. A música “Carnival” e a capa do disco foram formas que ele encontrou para agradecer a hospitalidade dos baianos naqueles dias”, contou o produtor.

Clapton em estúdio em 1975

Clapton em estúdio em 1975

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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© fotos: Getty Images


Vitor Paiva
Escritor, jornalista e músico, doutorando em literatura pela PUC-Rio, publica artigos, ensaios e reportagens. É autor dos livros Tudo Que Não é Cavalo, Boca Aberta, Só o Sol Sabe Sair de Cena e Dólar e outros amores.

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