Inspiração

Lélia Gonzalez foi a nossa Angela Davis e deveria ser leitura obrigatória nas escolas e universidades

Bárbara Martins - 29/01/2021 | Atualizada em - 01/02/2021

Durante visita ao Brasil em 2019, a ativista negra estadunidense Angela Davis disse, em São Paulo: “Eu acho que aprendo mais com Lélia Gonzalez do que vocês, comigo”. Com esse questionamento, ela escancarou não só o viralatismo comum aos intelectuais brasileiros (o que já podemos concordar em chamar de colonialidade), mas também chamou atenção para uma grande verdade: é incoerente que Lélia Gonzalez não seja lida e valorizada o tanto quanto se deve em escolas e universidades nacionais.

Angela diz isso pois, de forma similar à maneira que seus pensamentos foram transformadores para o movimento negro e feminista dos Estados Unidos nos anos 1960, as reflexões de Lélia foram fundamentais nos anos 1970 e 1980 para traçar um panorama sobre como as opressões de raça, de gênero e de classe se entrelaçam e se manifestam no Brasil.

Uma das fundadoras de instituições como o Movimento Negro Unificado (MNU) e o Instituto de Pesquisas das Culturas Negras (IPCN), Lélia foi ativista, professora, filósofa e antropóloga, além de ser um verdadeiro marco para mulheres que introduziram pensamentos decoloniais — aqueles que questionam a permanência de pensamentos eurocentrados no imaginário de lugares que são ex-colônias, como o Brasil — ao feminismo e ao movimento negros brasileiros.

Lélia Gonzalez e Angela Davis abraçadas, nos Estados Unidos

Lélia Gonzalez e Angela Davis juntas em 1984, nos Estados Unidos / Foto: Arquivo pessoal

Quem foi Lélia Gonzalez?

Nascida no dia 1 de fevereiro de 1935, em Belo Horizonte, Minas Gerais, Lélia de Almeida Gonzalez mudou-se para o Rio de Janeiro ainda criança, em 1942, e lá permaneceu até o fim da vida, em 1994.

No Rio, estudou e concluiu o Ensino Médio no Colégio Pedro II, em 1954. Em seguida, graduou-se em História e Filosofia pela antiga Universidade do Estado da Guanabara (UEG), atual Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), em 1962. No final da década de 1960, atuou como professora no Colégio de Aplicação Fernando Rodrigues da Silveira (atual CAp-UERJ).

Em seguida, fez mestrado em Comunicação Social e se tornou doutora em Antropologia Política para, entre 1978 e 1994, atuar como professora e pesquisadora na Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio), onde foi chefe do departamento de Sociologia e Política.

Fotos em formato 3x4 de Lélia Gonzalez

Em montagem feita pelo ‘El País’, Lélia aparece em três momentos: aos 31 anos; aos 37; e aos 45 / Foto: Arquivo pessoal

Filha de uma empregada doméstica de origens indígenas e de um operário ferroviário negro, Lélia trabalhou como babá e também como empregada ainda bem jovem, como conta em entrevista ao jornal “O Pasquim”, de 1986.

Quando criança, eu fui babá de filhinho de madame, você sabe que criança negra começa a trabalhar muito cedo. Teve um diretor do Flamengo que queria que eu fosse para a casa dele ser uma empregadinha, daquelas que viram cria da casa. Eu reagi muito contra isso, então o pessoal terminou me trazendo de volta para casa.

Como ativista, a antropóloga participou de organizações políticas importantes para o movimento negro durante o período de Ditadura Militar. Em 1978, por exemplo, ela participou e esteve presente no momento da fundação do Movimento Negro Unificado Contra a Discriminação Racial, que no ano seguinte se tornou apenas Movimento Negro Unificado (MNU).

O MNU nasceu com o objetivo de se tornar uma frente de defesa de pessoas afro-brasileiras contra o racismo estrutural que explora e desrespeita comunidades negras desde o início da história do país.

Marco organizacional do movimento negro brasileiro, até hoje a entidade defende os direitos inalienáveis de indivíduos de pele escura de todos os estados do Brasil.

Importante voz para as mulheres integrantes do movimento negro brasileiro, Lélia Gonzalez também usou o ativism0 de campo e a produção intelectual para chamar atenção de companheiros de causa para o silenciamento de vozes femininas dentro da militância afro-brasileira.

Atenta e em contato sempre que possível com outras feministas da América Latina, Lélia foi uma das responsáveis por apresentar a relevância de movimentos sociais brasileiros para outros países e por representar e fortalecer a presença de mulheres negras na política e nas universidades.

O feminismo de Lélia Gonzalez

Pioneira em diversas questões dentro do feminismo brasileiro, a abordagem ideológica de Lélia Gonzalez parte de um princípio primordial: a interseccionalidade.

O pensamento interseccional de Lélia parte da ideia de que não é possível construir um feminismo plural e acolhedor para todas as mulheres se não houver o compromisso — tanto de integrantes não brancas, quanto (e principalmente) de brancas — em reconhecer a interseção entre as múltiplas opressões de raça, classe e gênero.

Ao reconhecer a relevância das problemáticas levantadas pelo feminismo branco e europeu e adicionar com ênfase os recortes interseccionais que são imprescindíveis para entender e analisar o contexto de opressão patriarcal no Brasil, Lélia Gonzalez propôs o que chamou de um feminismo afro-latino-americano.

Nesse feminismo, a antropóloga defende que, em um país cuja formação inicial se deu, majoritariamente, a partir de mulheres negras e indígenas, não é aceitável nem coerente que moldes de um feminismo branco, europeu, que parte de questões que pouco dizem respeito às necessidades de mulheres não brancas, padronize a luta das feministas brasileiras.

Foto de Lélia Gonzalez sorridente

A interseccionalidade permeia todo o pensamento feminista de Lélia Gonzalez

No ensaio “Por um feminismo-afro-latino-americano”, escrito por Lélia em 1988, a pesquisadora explica o que chama de “racismo por omissão” dentro do feminismo branco.

Como se explica esse ‘esquecimento’ por parte do feminismo? A resposta, na nossa opinião, está no que alguns cientistas sociais caracterizam como racismo por omissão e cujas raízes, dizemos nós, se encontram em uma visão de mundo eurocêntrica e neocolonialista da realidade.

Ainda nas palavras dela: “O feminismo latino-americano perde muito da sua força ao abstrair um dado da realidade que é de grande importância: o caráter multirracial e pluricultural das sociedades dessa região.”

Como defendido por ela: “A conscientização da opressão ocorre, antes de qualquer coisa, pelo racial” para as mulheres amefricanas (como ela mesma denomina) e ameríndias. Logo, desconsiderar o fator racial, é negar parte indissociável da vivência dessas mulheres na América Latina.

Foi esta a luta que Lélia buscou trazer também para dentro do movimento negro ao apontar a companheiros de causa as dores, as questões e principalmente o potencial de mulheres negras como articuladoras políticas dentro das organizações antirracistas.

Foto de Lélia Gonzalez em 1979, no Senegal

Lélia introduziu o conceito de ‘amefricanidade’ ao vocabulário dos estudos raciais / Foto: Arquivo pessoal

Lélia também foi uma dura crítica do mito da democracia racial documentado pelo sociólogo Gilberto Freyre (1900 – 1987) no livro “Casa-Grande & Sensala”, de 1933. Para ela, a teoria era uma forte ferramenta de dominação ideológica e traduzia a raiz do silêncio sobre opressões raciais no Brasil.

Por motivos como os apresentados acima que Angela Davis — cuja obra é, em grande parte das vezes, mais reconhecida dentro dos temas já citados do que as de Lélia Gonzalez no Brasil — sentiu-se surpresa ao ser considerada, talvez, a maior referência sobre feminismo negro para intelectuais brasileiros.

“Eu me sinto estranha quando sinto que estou sendo escolhida para representar o feminismo negro. E por que aqui no Brasil vocês precisam buscar essa referência nos Estados Unidos?”, disse a ativista durante a visita a São Paulo, em 2019.

“Se houvesse um país para representar todos os povos dessa região [Américas], deveria ser o Brasil, e não os Estados Unidos”, completou ela, que ressaltou a urgência da leitura das produções de Lélia Gonzalez.

Livros sobre Lélia Gonzalez

Para ler e se aprofundar nas obras e no pensamento de Lélia Gonzalez, o Hypeness sugere três livros que, além de serem boas introduções sobre a autora, também apresentam panoramas importantes sobre movimento negro, feminismo interseccional e ideologias decoloniais. Veja:

  • “Por um feminismo afro-latino-americano”, organizado por Flávia Rios e Márcia Lima (Zahar, 2020)

Coletânea de artigos e ensaios escritos por Lélia Gonzalez entre 1979 a 1994. Está à venda por R$ 47,92, na Amazon.

  • “Lélia Gonzalez: retratos do Brasil negro”, por Alex Ratts e Flávia Rios (Selo Negro, 2010)

Obra biográfica que abrange a trajetória de vida, a produção intelectual e o ativismo político de Lélia Gonzalez. Está à venda por R$ 15,95, na Amazon.

  • “Pensamento feminista hoje: perspectivas decoloniais”, por Heloisa Buarque de Hollanda (Bazar do Tempo, 2020)

Coletânea de artigos e ensaios de feministas cujos pensamentos giram em torno da decolonialidade. Está à venda por R$ 62,40, na Amazon.

Publicidade

Fotos de destaque horizontais: Reprodução/Cézar Loureiro / Foto de destaque vertical: Reprodução/Alberto Jacob / Fotos da matéria: Créditos nas imagens


Bárbara Martins
Criada em Duque de Caxias, na Baixada Fluminense, é jornalista, fotógrafa e videomaker. Envolvida pela cultura, história e arte de subúrbios e periferias, dedicou pouco mais de dois anos à cobertura de pautas relacionadas à música como redatora do site Reverb, antigo parceiro do Rock in Rio. Em formação pela UFRJ, também tem experiência com produção de conteúdo para redes sociais, assessoria de imprensa e gravação de sessions e entrevistas.

Warning: file_put_contents(/var/www/html/wordpress/wp-content/themes/hypeness-new/functions/cache/twitter-stream-hypeness.txt): failed to open stream: Permission denied in /var/www/html/wordpress/wp-content/themes/hypeness-new/functions/social.php on line 410


X
Próxima notícia Hypeness:
Suécia atingiu desenvolvimento através do olhar social de Alva Myrdal, vencedora do Nobel da Paz