Debate

Uganda permanece em ditadura violenta e homofóbica financiada pelos EUA após eleições

Vitor Paiva - 20/01/2021 | Atualizada em - 05/03/2021

A reeleição de Yoweri Museveni com 58% para um sexto mandato consecutivo como presidente de Uganda é mais um capítulo de uma das mais conturbadas eleições no país – com desfecho que mantém Museveni, de 76 anos e que governa o país há 35 anos, no poder. Ocupando o cargo desde 1986 após uma revolta conduzida pelo Exército de Resistência Nacional (mas tendo sido democraticamente eleito em 1996), o presidente alterou a constituição para poder concorrer mais uma vez em pleito que, segundo o candidato da oposição, Bobi Wine, foi “fraudulento”, pela manutenção de um dos mais longevos governos do planeta – que segundo a oposição conta com a ajuda dos EUA para permanecer no poder.

Yoweri Museveni, presidente de Uganda

O presidente Yoweri Museveni, reeleito pela sexta vez em Uganda

Wine acusa a polícia de Uganda de o ter perseguido durante toda a campanha, com agressões regulares e detenções frequentes. “Os militares tomaram o controle, e essa não foi uma eleição livre e justa”, afirmou o opositor, que alcançou 34,83% dos votos, contra os supostos 58,64% do presidente reeleito. Wine, que antes de se lançar candidato era um famoso cantor pop no país, conta com o apoio da juventude de Uganda, e afirmou ao longo de todo o pleito a perseguição que vinha sofrendo – sua casa estaria sob cerco militar, e sem acesso a alimentos. Segundo comunicado oficial da presidência, as interferências à campanha de Wine teriam acontecido por violações às medidas sanitárias exigidas pela atual pandemia.

Bobi Wine, candidato de oposição à presidência em Uganda

O candidato Bobi Wine, que acusa o atual presidente de fraude nas eleições

As acusações contra os EUA por parte da oposição se baseiam nos aproximadamente US$ 800 milhões de dólares que Uganda recebeu como ajuda humanitária entre 2016 e 2019 – que, de acordo com Wine, legitimariam um governo autoritário e antidemocrático.

Yoweri Museveni junto de Barack e Michelle Obama, na Casa Branca

Yoweri Museveni junto de Barack e Michelle Obama, na Casa Branca © Wikimedia Commons

Além disso, o governo Museveni teria espertamente se oferecido como parceiro na luta contra o terrorismo na região dos Grandes Lagos, ao leste do continente africano. Tal apoio teria feito com que o governo estadunidense profissionalizasse o exército do país, e investisse centenas de milhões de dólares em equipamentos militares.

Bobi Wine, candidato de oposição à presidência de Uganda, em comício

Wine em comício durante a campanha

A mudança na constituição do país aconteceu em 2005, retirando qualquer limite de mandatos presidenciais, e permitindo o processo de reeleição permanente que hoje Museveni realiza. Além da perseguição aos inimigos políticos e de acusações de manipulação dos resultados das eleições, Museveni promove uma série de políticas e leis homofóbicas no país – uma lei assinada pelo presidente em 2014 não só proibiu relações e casamento entre pessoas do mesmo sexo, como tornou tais relacionamentos crime passível de punições que vão de 14 anos de prisão até prisão perpétua. Em sua campanha, Museveni se valeu de retórica profundamente homofóbica, em um país em que a comunidade LGBTQ+ é constantemente perseguida e morta.

Apoiador de Yoweri Museveni celebrando a vitória do presidente

O governo de Uganda negou credenciais à maioria dos observadores internacionais que desejaram acompanhar o pleito. A coalização Africa Elections Watch, no entanto, enviou mais de 2.000 observadores para trabalharem em 146 distritos do país, e afirmou que houve irregularidades variadas, aberturas tardias de seções, perda de cédulas e urnas violadas na maioria dos locais.

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© fotos: Getty Images/créditos


Vitor Paiva
Escritor, jornalista e músico, Vitor Paiva é doutor em Literatura, Cultura e Contemporaneidade pela PUC-Rio. Autor dos livros Tudo Que Não é Cavalo, Boca Aberta, Só o Sol Sabe Sair de Cena e Dólar e outros amores, publica artigos, ensaios e reportagens.

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