Diversidade

A Bruxa Preta cria rede de acolhimento e questiona embranquecimento da espiritualidade

Kauê Vieira - 24/02/2021 | Atualizada em - 21/05/2021

Autoconhecimento, dicas para incrementar a decoração da casa, receitas gostosas para um jantar despretensioso e orientações espirituais. Se por um lado as redes sociais continuam dando voz para forças maléficas a fim de destilar ódio e ofensas, estes mesmos espaços se transformaram em salas de colaboração coletiva

Em tempos de isolamento social, tensão e falta de certeza sobre o futuro, perfis de astrologia, tarô e de mensagens com enfoque na espiritualidade ganham cada vez mais terreno. Seja no Twitter ou no Instagram, você certamente já mentalizou uma carta e voltou horas depois para ver o resultado. As tais pílulas de conhecimento estão ajudando muita gente a passar pelo furacão de um mundo imerso em uma pandemia de proporções inéditas. 

‘Cada pessoa tem a sua forma de se encontrar, de entender-se autoconfiante, a minha foi através da espiritualidade’

– A Salvador negra que não parou para a pandemia pelas lentes de Antonello Veneri

É o caso de A Bruxa Preta, perfil mantido por Pamela Ribeiroterapeuta reikiana e oraculista e que se destaca por debater espiritualidade, magia, tarô, relacionamentos, sexualidade e tudo mais com uma linguagem jovem e engraçada. 

Iniciada na Umbanda, Pam Ribeiro, como ela mesma se apresenta, conversou com o Hypeness sobre sua trajetória e o susto que levou com o sucesso repentino. A Bruxa Preta é seguida por mais de 54 mil pessoas no Instagram e outras 11 mil no Twitter

“Não tem uma história dessas cheias de firulas, eu só queria mesmo desabafar, colocar para fora a minha necessidade de me expressar enquanto pessoa espiritualizada dentro da perifa, dizer ‘olha, a gente aqui também existe!'”, reflete. 

A Bruxa Preta 

A Bruxa Preta é uma mulher negra da periferia da Região Metropolitana de São Paulo e, como muitas semelhantes, teve uma formação espiritual distante das religiões negras por causa do, em suas palavras, “apagamento afro-religioso”.  

“Estudei como bolsista em um colégio católico e minha família se constituiu desse apagamento afro-religioso, onde eram ligadas às crenças de matriz africana. Mas, por influência de uma sociedade racista optaram pelas igrejas evangélicas”, diz Pam, que ressalta nunca ter sido obrigada a nada pelos pais. 

“Sempre houve um preconceito entre as minhas andanças. Hoje aceitam melhor. Eu até tive contato, pouco, com as igrejas, mas não o suficiente para me fazer sentir parte. Sempre fui muito questionadora, até hoje sou, mesmo com as minhas próprias crenças. É um exercício constante de autocrítica”, pontua. 

‘Cada vez que me cuidava, estava tratando uma ferida de gerações’

O fato do direito à liberdade de culto no Brasil ter se tornado lei apenas na Constituição de 1988 dá ideia do tamanho do desafio para os seguidores de religiões que não se orientem pela cartilha do cristianismo. A coisa piora de figura se a pessoa opta ou nasce em um berço de culto aos Orixás. O desrespeito, a desinformação e falta de um programa de mobilização nacional para a difusão do ensino da cultura do Candomblé e do Tambor de Mina, por exemplo, agravam o cenário. 

O Brasil sempre foi um país religiosamente intolerante para negros e indígenas – dois grupos, curiosamente, com um desenvolvimento da fé diferente da hegemonia implementada pela Igreja Católica. A reportagem do Brasil de Fato mostrou que denúncias de intolerância religiosa aumentaram 56% no país em 2019. Umbanda e Candomblé respondem pela maioria dos ataques. 

– Jéssica Ellen canta a Umbanda e celebra ancestralidade em ‘Macumbeira’: ‘Conexão espiritual’

A Bruxa Preta, que sente o racismo religioso na pele, vai além e reflete sobre o domínio de perfis de pessoas brancas falando de espiritualidade com um alcance muito maior do que mulheres negras como Pam. Basta descer a barra de rolagem para se deparar com rostos caucasianos indicando banhos de ervas e falando sobre arquétipos de Orixás. A liberdade religiosa é uma prerrogativa, claro, mas por que não para pessoas negras? 

É um universo majoritariamente branco. Ainda é difícil a conexão espiritual para nós pretos e pretas pelo apagamento que vem de lá dos tempos da escravatura. É muito trabalho de desconstrução para entender que esse é um espaço nosso também. Nossos ancestrais eram seres espirituais e nos cabe pegar de volta o que sempre foi nosso. A espiritualidade não é sobre religião, é a possibilidade também de se enxergar enquanto outras opções para além de estereótipos. Autoconhecimento é duro, mas necessário para entender o nosso local, o que nos cabe e que não. Mas, é histórico, como todos os movimentos nesse país de racialização.

Espaço de acolhimento

A Bruxa Preta faz questão de dizer que suas orientações com o uso de cartas de tarô são mais um pulso geral do que qualquer outra coisa. Os interessados em uma pegada mais pessoal devem se consultar individualmente com ela. 

Isso, no entanto, não afasta o fato de que o perfil criado e administrado por Pam Ribeiro anda ajudando muita gente sofrendo com os dilemas de um cotidiano intensificado pela incidência de uma pandemia. 

“Vejo meu canal como um portal de possibilidades, de entender esse tema para além de estigmas sociais, mas também. A Bruxa Preta não é sobre eu ser uma bruxa e preta, é sobre todos! Apesar da nomenclatura, existem muitos de nós, e eu quero isso mesmo”.

Entendendo a diversidade como algo positivo e necessário para a construção de uma sociedade bem diferente da que vivemos, a Bruxa Preta não cansa de se encantar com o carinho das pessoas. “Eu sempre fico muito chocada. A palavra é potência. E não para mim sobre dar voz, porque nós já temos. É sobre incentivar”. 

“Eu nunca imaginei falar para tanta gente. Quando comecei era pra ser apenas um espaço de desabafo, não tinha como intenção algo além disso”.

O carinho do público é apenas um reflexo da importância da multiplicidade de vozes. Pam, ao falar de forma positiva da sua realidade de mulher negra da periferia, inspira outras pessoas com vivências semelhantes e cria uma rede de apoio e (re)conhecimento baseada na espiritualidade. 

[O contato com a espiritualidade veio] no ano de 2017, depois de sair de uma relação abusiva e uma grande crise de depressão. Não penso como um ‘ah, fui salva!’, porque a espiritualidade não é sobre uma salvação. É muito mais sobre se reconhecer como potência para além de tudo o que somos condicionadas durante nossas vidas. Eu tive que me ver lá no fundo do poço para me enxergar, entendendo que não sou minhas dores pretas, não sou meus traumas, e claro, com uma rede de apoio incrível!. Hoje, vejo o meu canal como um portal de possibilidades, de entender esse tema [espiritualidade] para além de estigmas sociais, mas também. A Bruxa Preta não é sobre eu ser uma bruxa e preta, é sobre todos! Apesar da nomenclatura, existem muitos de nós, e eu quero isso mesmo. 

‘Sempre fui muito questionadora, até hoje sou, mesmo com as minhas próprias crenças’

A Bruxa Preta está no Instagram e Twitter

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Fotos: Reprodução/Instagram


Kauê Vieira
Nascido na periferia da zona sul de São Paulo, Kauê Vieira é jornalista desde que se conhece por gente. Apaixonado pela profissão, acumula 10 anos de carreira, com destaque para passagens pela área de cultura. Foi coordenador de comunicação do Projeto Afreaka, idealizou duas edições de um festival promovendo encontros entre Brasil e África contemporânea, além de ter participado da produção de um livro paradidático sobre o ensino de África nas Escolas. Acumula ainda duas passagens pelo Portal Terra. Por fim, ao lado de suas funções no Hypeness, ministra um curso sobre mídia e representatividade e outras coisinhas mais.

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