Ciência

Como o Brasil se tornou o pior país na gestão da pandemia, segundo estudo

Vitor Paiva - 10/02/2021 | Atualizada em - 04/03/2021

Qualquer brasileiro que prestar atenção nas notícias, nos planos e protocolos de outros países, e principalmente na realidade ao seu redor pode comprovar o trágico e triste resultado comprovado pela pesquisa realizada pelo Instituto Lowy, de Sidney, na Austrália. Analisando uma maneira com que 100 países lidaram com a pandemia da Covid-19 , a conclusão foi de que o Brasil ofereceu a pior gestão pública do mundo diante do novo coronavírus e seus efeitos sobre o país e a população. Junto do Brasil no fundo do poço da pandemia estão no México, Irã, Colômbia e os Estados Unidos.

Jair Bolsonaro, presidente do Brasil, e Eduardo Pazuello, ministro da saúde

Jair Bolsonaro, presidente do Brasil, e Eduardo Pazuello, ministro da saúde, reunidos e sem máscara, durante a mais grave pandemia dos cem anos © Getty Images

A estratégia da Nova Zelândia foi considerada a melhor gestão da pandemia em todo o planeta, resultando em somente pouco mais de 2.324 casos da doença, com 25 mortes em uma população de 5 milhões de pessoas – tais dados, utilizados como base para o estudo, são evidentes e dignos de nota, quando comparados: o Brasil passa dos 9,6 milhões de casos, com mais de 233 mil mortes confirmadas, seguindo em um dos mais graves momentos de toda a pandemia, com os números brasileiros em trágico crescimento.

A diferença entre a gestão neozelandesa e a ausência de gestão brasileira é clara e vai além dos números: enquanto o país da Oceania praticamente controlou o vírus desde o início com fronteiras fechadas, bloqueios, testes constantes, busca por diagnósticos e aplicação de metodologia científica severa para o controle da pandemia no país, o Brasil fez praticamente o contrário de tudo que era indicado – sendo empurrado à morte pelo próprio governo federal.

Cemitério em Manaus recebendo mortos pela Covid-19 © Reuters

Mais do que a falta de um programa de combate e controle da pandemia, o Brasil mergulhou praticamente em um bizarro projeto de incentivo à doença – ao descontrole, ao acúmulo de casos, à falta de cuidados, e não é preciso grandes esforços de memória para lembrar a quantidade de capítulos bizarros que formam a tragédia brasileira diante da atual pandemia. Nas mais diversas esferas políticas, do governo federal às prefeituras, muitos foram os responsáveis por esse incentivo ao horror que o país enfrenta no contexto do novo coronavírus.

“Histórico de atleta”

Bolsonaro durante o pronunciamento à nação

Bolsonaro durante o pronunciamento à nação © reprodução

Em pronunciamento à nação através da TV em março de 2020, o presidente Jair Bolsonaro afirmou, sem qualquer base científica ou responsabilidade com a verdade, que quem tinha “bom preparo” físico não precisava se preocupar com a doença – e que ele mesmo possuía “histórico de atleta” e por isso não sentiria nada.

“Gripezinha”

Por pelo menos duas vezes ao longo do ano passado o presidente se referiu à Covid-19 como sendo somente uma “gripezinha”, minimizando os efeitos de uma doença que já matou mais de 233 mil brasileiros. Tal sugestão naturalmente incentiva o relaxamento dos protocolos de segurança e técnicas capazes de conter a disseminação do vírus entre a população.

Cloroquina

Bolsonaro com uma caixa de cloroquina

O presidente do Brasil oferecendo um remédio ineficaz como solução para a pandemia © Getty Images

Um dos mais graves e mais caros aspectos da pior gestão pública contra a pandemia no mundo talvez tenha sido o investimento de mais de R$ 90 milhões em remédios sem qualquer eficácia comprovada contra a doença, como a cloroquina – e iludindo a população de que tomar um remédio que não cura nem previne o contágio poderá ajudar no combate ao vírus. Para piorar, soma-se aos milhões gastos o baixíssimo investimento nas vacinas – essas sim, comprovadas cientificamente.

“Ozônio no anus”

O prefeito Volnei Morastoni (MDB) de Itajaí © reprodução

Se nos EUA o presidente Trump sugeriu que a população poderia injetar produtos de limpeza no combate ao coronavírus, por aqui o prefeito Volnei Morastoni (MDB) de Itajaí, em Santa Catarina – evidentemente sem qualquer respaldo científico, sanitário ou mesmo lógico – sugeriu que injetar ozônio através do ânus seria um tratamento eficaz contra a Covid-19. O prefeito também afirmou que a cânfora poderia ajudar na prevenção à doença – não há, no entanto, nenhum remédio com comprovação científica, e somente as vacinas aprovadas possuem eficácia contra a doença.

Manaus e Pazuello

Se a conduta do Governo Federal foi de modo geral criminosa e absurda, o caso do estado do Amazônas e de Manaus se destaca negativamente em meio ao caos e ao horror. A falta de oxigênio nos hospitais levou o Supremo Tribunal Federal a iniciar um inquérito contra o ministro da saúde Eduardo Pazuello pelo dever do cargo que ocupa de agir para evitar tal tragédia. Segundo a procuradoria geral da república, sua conduta pode “pode caracterizar omissão passível de responsabilização cível, administrativa e/ou criminal”.

Risco brasileiro maior

Esses são somente os mais vistosos capítulos da tragédia brasileira – que levou um pesquisador do Intituto Ipea a concluir que as chances de se morrer no Brasil eram três vezes maior em 2020 do que no resto de todo o mundo. O cálculo se baseou no número absoluto de mortes, mas também no cálculo pelo tamanho da população e as mortes em cada faixa de idade.

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© fotos: créditos


Vitor Paiva
Escritor, jornalista e músico, Vitor Paiva é doutor em Literatura, Cultura e Contemporaneidade pela PUC-Rio. Autor dos livros Tudo Que Não é Cavalo, Boca Aberta, Só o Sol Sabe Sair de Cena e Dólar e outros amores, publica artigos, ensaios e reportagens.

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