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Como os monstros medievais ajudaram a criar os preconceitos atuais em nosso imaginário

por: Vitor Paiva

Se hoje a ciência e a tecnologia permitem que tenhamos o mundo todo mapeado, no passado boa parte do planeta não se “conhecia” – e para qualquer lado que se olhasse andasse, a ameaça desse desconhecido pairava sugerindo nossos maiores temores. Foi por isso que os tantos monstros do imaginário medieval surgiram, e formaram o chamado “bestiário” da época – que misturava história natural com mitologia, moralidade religiosa com ignorância para criar uma verdadeira coleção de monstros que ajudaram a formatar em muito nossa maneira de pensar e ver o “outro” – e também nossos preconceitos.

Cavaleiros enfrentando Blêmios em uma ilustração medieval

Cavaleiros enfrentando Blêmios em uma ilustração medieval © reprodução

Conforme mostra um levantamento de tal repertório levantado pelo site Messy Nessy, um dos exemplos mais claros da influência de tais monstros sobre o que viria a se tornar nossos preconceitos – a partir daquilo que simplesmente ainda não conhecíamos –  é o monstro conhecido como Blêmio. Tratava-se de ser sem cabeça, mas com o rosto no peito.

Outras ilustrações de Blêmios do período © reprodução/Wikimedia Commons

Não por acaso, porém, Blêmio também era o nome dado pelos europeus a um povo real, que de fato vivia nômade pelo norte da África desde os tempos do Império Romano – ou seja: a criação do monstro se deu a partir simplesmente do desconhecimento sobre o outro, sobre um povo que a cultura europeia simplesmente não conhecia, a partir, da mera e literal ignorância.

Ilustração de um monópode

Ilustração de um monópode © Wikimedia Commons

O mesmo pode ser dito a respeito da lenda dos Monópodes, seres que seriam como humanos, porém pequenos na estatura, com uma única perna centrada no meio dos corpos, e um imenso e único pé. Tais seres são vistos desde a literatura grega e romana, como criaturas que viviam – é claro – não na Europa, mas sim na Índia e, depois, na Etiópia.

Ilustração de um grifo

Ilustração de um grifo © Wikimedia Commons

Mesmo seres hoje mais populares, como a Mantícora ou até as Sereias, são representações da repressão sexual: o primeiro, um corpo de leão com cabeça humana, dentes de tubarão e cauda de escorpião, e o segundo, mulheres belas com corpo humano e cauda de peixe, ambos os seres possuem vozes tão belas quanto irresistíveis – capazes de seduzir qualquer pessoa à morte.

Uma quimera

Uma quimera © Wikimedia Commons

A lista de seres formando os bestiários medievais é extensa, e inclui figuras populares até hoje, como os unicórnios, as quimeras, os grifos e as próprias sereias, assim como os dragões, as hidras e outros seres hoje restritos à literatura e aos filmes e séries – como, por exemplo, o incrível bestiário da saga Harry Potter ou de Game Of Thrones. A origem de tais mitologias, porém, quem diria, é a mesma das religiões e outras mitologias: nosso próprio preconceito, e o medo daquilo que não conhecemos.

Sereias em quadro do século XIX

Sereias em quadro do século XIX © Wikimedia Commons

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© fotos: créditos


Vitor Paiva
Escritor, jornalista e músico, doutorando em literatura pela PUC-Rio, publica artigos, ensaios e reportagens. É autor dos livros Tudo Que Não é Cavalo, Boca Aberta, Só o Sol Sabe Sair de Cena e Dólar e outros amores.

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