Debate

Covid-19 mata último homem do povo Juma; indígenas convivem com falta de dados e proteção

por: Karol Gomes

Último homem guerreiro do povo Juma, o índio Aruka Juma morreu vítima da covid-19 nesta quarta-feira (17) em Porto Velho, Rondônia. Ele deixa três filhas, as três únicas sobreviventes de sucessivos massacres, ataques de animais e doenças que reduziram o seu povo de 15 mil a poucas dezenas de pessoas nos últimos 50 anos, segundo levantamento da Associação de Defesa Etnoambiental Kanindé. 

Aruka era um forte defensor de sua linhagem e pelos direitos dos índios. Para manter os Juma vivos, casou as três filhas com membros da Uru-Eu-Wau-Wau. Os netos carregam no sangue as duas etnias. A cerimônia de casamento de uma das netas do guerreiro, que uniu o povo Juma aos Tenharim, foi registrada pela Rede Amazônica, afiliada da Rede Globo. 

Aruka foi transferido do hospital regional de Humaitá (AM) para o hospital de campanha na capital rondoniense no dia 2 de fevereiro e lá permaneceu até seu falecimento. O corpo do guerreiro deve ser levado nesta quarta-feira para o Amazonas, onde será velado e enterrado.

O índio Aruka Juma morreu vítima da covid-19

Massacres contra o povo Juma 

O falecimento do último homem guerreiro do povo Juma é mais um golpe em uma comunidade que convive com massacres desde pelo menos o início do século XX. Conforme mostrou a Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira (COIAB), os Juma saíram de 15 mil pessoas no início do século passado para apenas cinco sobreviventes. O massacre mais recente que se tem notícia ocorreu em pleno ano do golpe de Estado que deu início a ditadura miliar. Foi em 1964, no rio Assuã, quando comerciantes em busca de castanha assassinaram mais de 60 pessoas. Só sete sobreviveram.

“Aruká, um dos sobreviventes, continuou sua luta de resistência, vendo seu povo beirar o desaparecimento. Lutou pela demarcação do território Juma, que foi homologado apenas em 2004, a Terra Indígena (TI) Juma. Os sobreviventes Juma, apesar do risco de desaparecimento, viram seu povo crescer novamente na década de 2000, por meio de casamentos com indígenas Uru Eu Wau Wau, povo indígena também de língua Tupi-Kagwahiva”, diz o texto da COIAB.

Cada um por si e covid-19 contra todos  

Rondônia já contabiliza 2.157 índios infectados com a covid-19 e 34 mortes até 11 de fevereiro, de acordo com dados da Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira (Coiab), com base em informações de lideranças indígenas, notas de falecimento da Secretaria Especial de Saúde Indígena (Sesai). No Amazonas, o número de casos confirmados chegou a 8.674 e 252 óbitos.

O Ministério Público Federal (MPF) expediu recomendação ao Ministério da Saúde, à Secretaria de Vigilância em Saúde, ao Estado do Amazonas, à Fundação de Vigilância em Saúde e aos Municípios do Amazonas, para que todos os índios do Amazonas sejam inseridos no grupo prioritário de vacinação contra covid-19, incluindo os que vivem em contexto urbano ou em áreas não regularizadas. Foi estabelecido prazo de cinco dias. 

Membro da comunidade Kayapó; índios sofrem com descaso em plena pandemia

Atualmente, a primeira fase da campanha no estado é direcionada para índios aldeados, além de idosos e profissionais de saúde. Até esta terça (16), mais de 200 mil pessoas foram vacinadas no Amazonas e cerca de 44 mil indígenas aldeados estão imunizados com a primeira dose da vacina. A covid-19 já matou de 10 mil pessoas no estado que sofre com a falta de oxigênio.

O problema é que faltam ações por parte do governo federal para proteger indígenas e quilombolas da pandemia. O Brasil de Farto conversou com José Carlos Galiza, integrante da Conaq (Coordenação Nacional de Articulação de Quilombos) e que vem denunciando, desde o início da pandemia, o descaso do governo Bolsonaro em relação aos índios e quilombolas.

“O acesso ao sistema de saúde é muito precário e principalmente quando se trata da questão de urgência e emergência. As comunidades estão em um lugar de difícil acesso e muitas das vezes são tratadas de forma discriminatória pelo Estado brasileiro”, assinalou ao Brasil de Fato José Carlos Galiza.

A reação nas redes sociais com a notícia da morte de Aruka Juma:

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Fotos: foto 1: Reprodução/Rede Amazônica/foto 2: Getty Images 


Karol Gomes
Karol Gomes é jornalista e pós-graduada em Cinema e Linguagem Audiovisual. Há cinco anos, escreve sobre e para mulheres com um recorte racial, tendo passado por veículos como MdeMulher, Modefica, Finanças Femininas e Think Olga. Hoje, dirige o projeto jornalístico Entreviste um Negro e a agência Mandê, apoiando veículos de comunicação e empresas que querem se comunicar de maneira inclusiva.

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