Ciência

DNA mais antigo do mundo é descoberto e aponta para origem de mamutes na Sibéria

Kauê Vieira - 24/02/2021 | Atualizada em - 05/03/2021

Um grupo de cientistas de 9 países diferentes liderados por pesquisadores suecos conseguiram recuperar e datar a mais antiga amostra de DNA já descoberta, encontrada em dentes de mamutes na Sibéria: entre as três amostras registradas, a mais antiga pode ter 1,65 milhão de anos. Os molares foram descobertos na década de 1970, e foram mantidos no Instituto Geológico da Academia Russa de Ciências, e cada fóssil recebeu o nome do local onde foi achado: o mais velho foi chamado de Krestovka, o “do meio”, com cerca de 1,34 milhão de anos, foi batizado como Adycha, e o mais novo, com “somente” 870 mil anos, é chamado de Chukochya.

Love Dalén e Patrícia Pečnerová com a presa de um mamute na região

Love Dalén e Patrícia Pečnerová com a presa de um mamute na região

A novidade foi publicada na revista científica “Nature”, e se trata do mais antigo DNA do mundo já descoberto, traçado e datado – para tal foi preciso sequenciar pedaços diversos de DNA encontrados nos dentes, e o Krestovka é tão antigo que remonta a uma linhagem até então desconhecida de mamutes, de um período anterior à existência de humanos e neandertais. “Acho que usar DNA antigo dessa forma é um pouco como viajar no tempo, usar uma máquina do tempo”, afirmou Love Dalén, professor de genética evolutiva no Centro de Paleogenética de Estocolmo e autor sênior do estudo. “Voltar um milhão de anos – que é muito, muito longe no tempo – nos permite estudar a evolução como ocorreu – e é muito animador”.

O fóssil Krestovka, presa do mamute onde se tirou o mais antigo DNA já registrado

O fóssil Krestovka, presa do mamute onde se tirou o mais antigo DNA já registrado

O Chukochya, fóssil mais jovem entre os estudados, é de um dos primeiros mamutes-lanosos (Mammuthus primigenius) conhecidos, e as informações recolhidas a partir dos três dentes apontam para uma série de descobertas a respeito da evolução desses animais – e, logo, da evolução como um todo.

O fóssil Adycha

O fóssil Adycha

O estudo confirma, por exemplo, que diversas adaptações surgidas por conta do frio, como pelos, depósitos de gordura, ritmos cardíacos adaptados e outros reguladores de temperatura, apareceram antes do surgimento dos próprios mamutes – como mutações vivenciadas por seus ancestrais com o passar de muito tempo.

O fóssil Chukochya

O fóssil Chukochya

Antes de tal estudo o DNA mais antigo registrado datava de 780 mil anos atrás e, segundo os pesquisadores suecos, o salto dado pela descoberta pode vir a ser ainda maior – e que é possível traçar e recuperar dados genéticos de mais de 2,6 milhões de anos atrás, especialmente por conta dos estudos com fósseis encontrados no permafrost. “Ainda não atingimos o limite. Um palpite bem fundamentado seria que poderíamos recuperar o DNA de 2 milhões de anos de idade e, possivelmente, 2,6 milhões. Antes disso, não havia permafrost onde o DNA antigo pudesse ser preservado”, afirma Anders Götherström, também autor da pesquisa.

Parte da mandíbula com molares de um mamute onde se encontrou DNA

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© fotos: divulgação


Kauê Vieira
Nascido na periferia da zona sul de São Paulo, Kauê Vieira é jornalista desde que se conhece por gente. Apaixonado pela profissão, acumula 10 anos de carreira, com destaque para passagens pela área de cultura. Foi coordenador de comunicação do Projeto Afreaka, idealizou duas edições de um festival promovendo encontros entre Brasil e África contemporânea, além de ter participado da produção de um livro paradidático sobre o ensino de África nas Escolas. Acumula ainda duas passagens pelo Portal Terra. Por fim, ao lado de suas funções no Hypeness, ministra um curso sobre mídia e representatividade e outras coisinhas mais.