Inovação

DRUM contra o Apartheid: a história da ‘primeira revista africana de vidas negras’

por: Redação Hypeness

Veículo de comunicação e símbolo de resistência contra o apartheid na África do Sul, a revista Drum foi saudada como “a primeira revista de estilo de vida negra na África“. Com apogeu documentado durante a década de 1950, a publicação ficou conhecida pelas primeiras reportagens da história sobre o modo de vida de pessoas negras durante o regime institucional de segregação racial.

Fundada na Cidade do Cabo em 1951 com o nome de African Drum (“Tambor Africano”, em tradução livre) pelo ex-jogador de críquete Bob Crisp (1911 – 1994), a revista quase foi à falência no primeiro ano após o lançamento.

Com publicações que, a partir do olhar branco, seguiam uma linha de representações paternalistas e “tribais” dos negros sul-africanos, a African Drum não conseguiu cativar o público do mercado interno nem o do exterior.

Isto é, até que Jim Bailey (1919 – 2000), um investidor perspicaz e ex-piloto da Força Aérea Real, interveio, substituindo Crisp por Anthony Sampson (1926 – 2004) como editor-chefe, quem viria a se tornar o biógrafo autorizado de Nelson Mandela (1918 – 2013).

Juntos, resolveram renomear a revista como Drum e mudar os escritórios para Joanesburgo, o coração pulsante da cultura negra na época.

Duas capas da revista Drum dispostas lado a lado

Artistas do jazz sul-africano tinham destaque nas capas da revista ‘Drum’, como Miriam Makeba (à esquerda)

Sophiatown: o bairro onde a cultura negra respirava

Foi em 1951, no bairro de Sophiatown, em Joanesburgo, que a revista Drum realmente se consolidou como um veículo de comunicação da resistência cultural negra durante o apartheid.

Um dos últimos bairros multirraciais a ser destruído pelo regime de segregação racial, Sophiatown abrigava uma forte cena de jazz e blues, além de também se destacar em outros campos da arte e de ficar conhecida como a “Hollywood da África do Sul Negra“.

Foi naquele ambiente onde os redatores da revista Drum encontraram o ritmo das reportagens junto às celebridades e ao entretenimento da negritude da África do Sul.

Duas capas bem coloridas e fashion da revista 'Drum' lado a lado

As capas da ‘Drum’ costumavam ser multicoloridas e com design voltado para editoriais de moda

Mesmo correndo risco de prisão, de violência e, em última instância, de perder a vida em busca da verdade, os jornalistas e as modelos de capa da Drum abriram caminho para os sul-africanos negros em um momento em que a liberdade era negada.

Por meio da arte, da beleza e da efervescência da cultura, a publicação mostrou ao mundo a verdadeira face da vida negra subjugada pelo apartheid.

Resistência artística e cultural em meio à segregação

Na capa de uma edição de verão de 1955, por exemplo, está a sul-africana Dolly Rathebe (1928 -2004), que era uma atriz e cantora de jazz em ascensão.

Sua primeira capa para a revista foi tirada em um antigo depósito de mina por um dos jovens fotógrafos da Drum, o alemão radicado na África do Sul Jürgen Schadeberg (1931 – 2020). Ambos foram presos no local da sessão de fotos.

Capa da revista 'Drum' com Dolly Rathebe

Dolly Rathebe aparece graciosa na capa da revista ‘Drum’

Ele era branco, ela era negra, e a polícia os acusou de terem um relacionamento inter-racial, o que era ilegal de acordo com a Lei da Imoralidade.

Para Dolly Rathebe, como artista negra que trabalhava, aquele tipo de tratamento era apenas uma parte da vida diária, mas o impacto do acontecimento como “garota de capa” abriu o caminho para outras pessoas negras.

Leitores da 'Drum' lendo a revista entre si

Em foto de Jürgen Schadeberg é possível ver um pouco da popularidade da ‘Drum’ em meio à comunidade negra sul-africana

Estabelecendo uma força-tarefa de escritores negros talentosos, a Drum logo se tornou a primeira revista do continente dedicada a documentar a experiência negra em uma mudança hostil na África do Sul, onde as ramificações das políticas racistas do recém-eleito Partido Nacional estavam começando a surtir efeito.

A nova e melhorada Drum lançou um holofote sobre o florescente cenário artístico e cultural de Sophiatown; a resposta não só estética, mas também política que a África do Sul precisava dar ao regime racista que vigorava.

Ator Sol Rachilo segurando um exemplar da revista 'Drum' e sorrindo

O ator Sol Rachilo foi um dos fotografados de Jürgen Schadeberg

Artigos espirituosos e informativos cobriram a cena do jazz municipal que ganhou vida nos shebeens (bares clandestinos ilegais), onde a música berrava, as bebidas fluíam e as modelos de capa — como Dolly Rathebe, Miriam Makeba (1932 – 2008) e Dorothy Masuka (1935 – 2019) — cantavam no palco.

Pessoas de todas as esferas da vida, de poetas a gângsteres, de professores a artistas, se reuniam naqueles bares, inspirando mais de 90 contos da Drum sobre o renascimento de Sophiatown.

Drum e o papel político-social

As reportagens da Drum contavam a história de uma África do Sul onde a arte negra prevalecia e as comunidades negras resistiam apesar dos ataques implacáveis ​​à liberdade e à autoexpressão.

Para alguns leitores, a revista ofereceu uma distração da realidade opressiva da vida sob a segregação racial junto a uma celebração da cultura e da beleza negras, que rejeitava os ideais da supremacia branca que dominavam a mídia sul-africana.

Registro dos fotógrafos e jornalistas da revista 'Drum'

Imagem feita por Jurgen Schadeberg de jornalistas e fotógrafos no escritório da ‘Drum’, em 1964

Por outro lado, a revista também foi o primeiro veículo impresso a realmente expor as injustiças enfrentadas pelos sul-africanos negros diariamente, desde a brutalidade policial até as práticas de trabalho abusivas e as remoções forçadas de comunidades negras (incluindo Sophiatown, em 1955) sob a Lei de Áreas de Grupo.

Como as leis limitavam estritamente a liberdade de locomoção de negros sul-africanos, a equipe editorial da Drum frequentemente tinha que ir a extremos na busca pela verdade.

Reportagens arriscadas

Em uma de suas primeiras reportagens importantes, o jornalista investigativo Henry Nxumalo (1917 – 1957), foi disfarçado como trabalhador braçal para expor as terríveis condições de trabalho escravo em uma fazenda de batata na vila rural de Bethal.

Os trabalhadores rurais que foram enganados para obter condições de trabalho ilegais contaram histórias de espancamentos, de fome e até de assassinatos.

Correndo o risco de tortura e de morte caso fosse capturado, Nxumalo conseguiu escapar na calada da noite e retornar a Joanesburgo para publicar o artigo.

Retrato do jornalista investigativo Henry Nxumalo

Fotografia do jornalista investigativo Henry Nxumalo, feita por Jurgen Schadeberg

As denúncias destemidas do “Sr. Drum” — como Nxumalo era apelidado — ajudaram a cimentar a revista Drum como uma força do jornalismo investigativo em toda a África, ao mesmo tempo em que gerou indignação internacional sobre o regime do apartheid.

Tragicamente, a vida e a carreira do repórter foram interrompidas quando ele foi encontrado morto a facadas em 1956. Até hoje, não se sabe ao certo as circunstâncias do assassinato do “Sr. Drum.

Fotografia de Sophiatown, em 1955

Sophiatown nos dias que antecederam a remoção forçada de 1955, por Jurgen Schadeberg

Embora a Drum nunca tenha se proposto a ser uma revista política, a equipe editorial percebeu logo no início que não era possível contar a história da vida urbana negra na África do Sul sem mostrar a realidade diária de opressão sob o apartheid.

Apesar de uma série de críticas — principalmente relacionadas à omissão de determinados assuntos mais violentos sobre o apartheid —, a cobertura da Drum sobre a segregação racial da década de 1950 na África do Sul foi um catalisador indispensável na condenação mundial do governo do Apartheid.

Com informações da matéria “Cover Girls of the Anti-Apartheid“, de Iola Killian.

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Fotos 1, 2 e 3: Reprodução/Revista DRUM /Fotos 4, 5, 6, 7 e 8: Reprodução/Jurgen Schadeberg


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