Ciência

Mundo não só tem um Terceiro Polo, como pode perdê-lo para emergência climática

Vitor Paiva - 01/02/2021 | Atualizada em - 04/03/2021

Se estendendo por mais de 100 mil quilômetros quadrados formando mais de 50 mil geleiras, não é por acaso que a região do Himalaia conhecida como Hindu Kush ou HKH, onde também ficam parte das montanhas do Tibete, do Afeganistão e do Paquistão, é chamada de “Terceiro polo”: lá se concentra as maiores reservas de gelo da Terra depois das regiões polares, nos extremos norte e sul do planeta. Daí a gravidade do quadro revelado por um estudo realizado em 2019 pelo Centro Internacional para o Desenvolvimento Integrado das Montanhas (ICIMOD), organização dedicada ao estudo e à proteção da região: as geleiras do HKH estão derretendo em velocidade vertiginosa, em processo que ameaça a vida de mais de 1,9 bilhão de pessoas.

As montanhas do Hindu Kush, no Himalália

Parte das montanhas do Hindu Kush

Um outro apelido das geleiras de Hindu Kush dá a dimensão do impacto que seu derretimento pode provocar: “Caixa d’água da Ásia”. As montanhas do HKH abastecem diretamente dez dos maiores rios do continente, incluindo o Ganges e o Amarelo – é na bacia desses rios que essa estimativa de um quarto da população mundial vive, e a escassez de água pode provocar migrações em massa e até conflitos locais. Intitulado HKH Assessment 2019, o  estudo supracitado registra justamente a redução no volume e na extensão das geleiras do Himalaia, em ritmo que se acelerou especialmente nos últimos quarenta anos.

Topo de uma montanha do Hindu Kush, no Himalalia

Topo de uma montanha na região

“No Terceiro Polo, se perdeu uma média de 16,3 gigatoneladas de gelo por ano entre 2000 e 2016”, afirma Anna Sinisalo, coordenadora do programa de criosfera (áreas cobertas de gelo) ICIMOD, e uma das autoras do estudo. “Há vários modelos que estimam a perda de volume de gelo até o fim do século. Mas o HKH Assessment concluiu que se o aumento da temperatura do planeta não ultrapassar 1,5 ºC, a perda de volume de gelo chegará a 36%. E essa perda excederá 60% se as emissões atuais continuarem”. Os cálculos sugerem que, sem mudanças radicais na emissão de carbono, até 2100 a perda será de entre 70% a 80% do total de gelo da região.

Um dos tantos rios alimentados pelas geleiras do Hindu Kush

Um dos tantos rios alimentados pelas geleiras do Hindu Kush

A gravidade do quadro se agrava diante do fato de que a Ásia, sendo o continente com menor volume de recursos renováveis de água doce per capita do mundo, já vive uma forte crise hídrica. “As geleiras são uma bela parte das cadeias de montanhas do mundo, é triste perdê-las”, acrescenta Joseph Shea, glaciologista da Universidade de Northern British Columbia, no Canadá, que também assina o estudo – lembrando que a única solução ainda viável para conter o processo que pode afetar a produção de alimentos e diretamente a própria vida de quase 2 bilhões de pessoas é mesmo a contenção das mudanças climáticas, e a redução da emissão de carbono na atmosfera. “Mas o medo que sentimos diante do que estamos vendo é uma emoção boa, porque nos levará a agir”.

Visão aérea das montanhas geladas de Hindu Kush

Visão aérea das montanhas geladas da região

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© fotos: Getty Images


Vitor Paiva
Escritor, jornalista e músico, doutor em literatura pela PUC-Rio, publica artigos, ensaios e reportagens. É autor dos livros Tudo Que Não é Cavalo, Boca Aberta, Só o Sol Sabe Sair de Cena e Dólar e outros amores.

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