Arte

Os bizarros manuscritos medievais ilustrados com desenhos de coelhos assassinos

por: Vitor Paiva

Pensar em um coelho costumeiramente nos leva a imediatamente sentir a maciez e a simpatia de um singelo e irresistível animal coberto de pelos – mexendo a ponta do nariz e saltitando como a encarnação da fofura. Podemos também pensar na Páscoa quando vislumbramos suas orelhas compridas, ou mesmo no coelho como símbolo de fertilidade, por conta da velocidade com o que se reproduz, ou mesmo no coelho de Alice No País das Maravilhas – mas raramente pensaremos no animal como um símbolo de violência e crueldade. Pois era assim que alguns ilustradores medievais retratavam o bicho: era comum que manuscritos e livros do século XII e XIII fossem adornados com ilustrações à margem do texto, e muitas delas mostravam coelhos cometendo as mais inimagináveis atrocidades.

Também conhecidas como “marginálias”, as ilustrações ao redor dos manuscritos na Idade Média eram uma arte comum, normalmente mostrando animais, elementos da natureza, feras míticas imaginárias, seres antropomórficos e mais – e tais ilustrações também eram espaço para a sátira – para a criação de humor. Eram as chamadas “drôleries”, e as recorrentes imagens de coelhos assassinos, lutando entre si, atacando pessoas e até mesmo as decapitando provavelmente se encaixam em tal categoria.

O objetivo mais provável de se retratar um coelho como um animal assustador e assassino era o sentido cômico: o inimaginável posto diante dos olhos atrai e alcança a graça do absurdo. Há quem diga, porém, que a ternura não era o único sentimento sentimento que os bichos provocavam: por sua reprodução veloz e intensa e sua fome voraz, os coelhos já foram vistos como um problema semelhante a uma peste em regiões da Europa – nas ilhas Baleares, na Espanha, na Idade Média, por exemplo, os coelhos tiveram de ser combatidos pois comiam toda a colheita e trouxeram fome à região.

Misturar a fofura com a ameaça é recurso recorrente em animações, por exemplo. É possível, portanto, que tais drôleries combinem a sátira com um problema social real da época – significado, quem diria, por um dos mais adoráveis e adorados animais do planeta. Talvez o espírito provocador e até ameaçador que há por trás da graça de um personagem como o Pernalonga, por exemplo, venha dessa antiga tradição medieval – e as marginálias da época fossem os desenhos animados da modernidade.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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© fotos: reprodução


Vitor Paiva
Escritor, jornalista e músico, doutorando em literatura pela PUC-Rio, publica artigos, ensaios e reportagens. É autor dos livros Tudo Que Não é Cavalo, Boca Aberta, Só o Sol Sabe Sair de Cena e Dólar e outros amores.

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