Tecnologia

Tecnologia desenvolvida no Brasil ajuda a salvar corais em extinção

Redação Hypeness - 08/02/2021 | Atualizada em - 16/02/2021

Cientistas brasileiros provam mais uma vez o valor imensurável das pesquisas, agora com o desenvolvimento de uma tecnologia que pode ajudar a salvar corais em risco de extinção.

Pesquisadores da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) criaram um dispositivo que inova a técnica de transplante de corais a partir da recuperação de fragmentos com perda tecidual.

A inovadora ferramenta funciona como uma espécie de berço, onde os fragmentos desses animais são mantidos até que se recuperem e crescerem.

Neste processo, os corais já recuperados podem ser reinseridos em seus habitats, onde contribuem para equilibrar a temperatura e a poluição do mar.

Considerados ‘termômetros marinhos‘, os corais indicam qualquer alteração no ambiente, além de terem um papel importante fora do mar, já que boa parte do oxigênio que respiramos vem deles.

Por se agruparem em grandes colônias de recifes, os corais também ajudam a controlar o processo de erosão das encostas, pois formam barreiras que suavizam a força das ondas.

Recuperação de corais

Segundo o engenheiro de pesca e coordenador científico do projeto, Rudã Fernandes, “o dispositivo permite aprimorar a técnica de transplante de corais, na medida em que torna todo o processo mais simples e acessível”.

Móvel e de fácil produção, inclusive por impressora 3D, permite adaptar a técnica à morfologia das diferentes espécies e pode ser transportado para qualquer local em que os pesquisadores necessitem conduzir os estudos ou manejos de recuperação.

Com o dispositivo, Fernandes e sua equipe cultivaram a espécie Millepora alcicornis, coral nativo brasileiro conhecido como coral-de-fogo, conseguindo com que crescesse 40% em três meses.

Também foi possível cultivar o coral Mussismilia harttii, que figura na lista vermelha de espécies em extinção.

Com esta espécie, os pesquisadores têm conseguido multiplicar o número de pólipos obtidos a partir de um mesmo fragmento.

Proteção à Natureza

O projeto enxerga a conservação dos recifes de coral como um processo multidisciplinar. A ideia é que ele envolva a população local, atuando também nas frentes de educação ambiental, engenharia e prototipagem, turismo, desenvolvimento de tecnologias de aquicultura, fisiologia e bioprospecção de moléculas bioativas para múltiplas atividades.

O coordenador geral do projeto, Ranilson Bezerra explica que a multidisciplinaridade da ação traz resultados que impactam toda a comunidade.

O retorno para o turismo local é imenso. O trabalho que desenvolvemos com brilho nos olhos, carinho e dedicação é de extrema relevância para jangadeiros, profissionais de mergulho e proprietários de pousadas, hotéis e resorts.

Lugares de Pernambuco que milhões de turistas de todo o mundo, como Porto de Galinhas, chamam atenção por seus corais.

corais porto de galinhas, pernambuco

De acordo com o Ministério do Turismo, o município de Ipojuca, onde está localizado este famoso destino turístico, foi mapeado como o nono lugar mais procurado pelos viajantes brasileiros durante o último verão.

Assim, o projeto da UFPE vem despertando o interesse dos empresários do setor hoteleiro da região, que começam a entender a importância dos corais para o turismo local, que hoje é responsável por grande parte da geração de emprego e renda de Ipojuca.

Para que Porto de Galinhas continue sendo um destino turístico relevante, a comunidade como um todo passou a ter que olhar mais atentamente para a sustentabilidade.

Turismo em Porto de Galinhas

Turismo passa a olhar para a sustentabilidade em Porto de Galinhas

Com ajuda da associação de hotéis do município e o Projeto Reanimar, os pesquisadores estão desenvolvendo uma iniciativa focada no fomento à economia azul, ou seja, economia baseada nos recursos naturais e serviços fornecidos pelo oceano.

Com apoio dos empresários, a ideia é que seja construída uma base permanente para a recuperação dos corais de Ipojuca, sempre em colaboração com instituições científicas.

De acordo com os pesquisadores, mais de dez hotéis da região já manifestaram o interesse de apoiarem em suas estruturas o desenvolvimento de bases de manejo de espécies nativas.

Elas devem funcional como startups responsáveis por desenvolver projetos e tecnologias de conservação para diversas espécies marinhas ameaçadas, como tartarugas, peixes, estrelas-do-mar, entre outros.

O turismo científico será uma tendência na região, como aponta Rudã Fernandes, e há possibilidade de as técnicas e abordagens desenvolvidas serem escalonadas, envolvendo inclusive parceiros internacionais, como a Universidade do Qatar.

No turismo científico, os viajantes colaboram e participam de ações de conservação, promovendo a conscientização e ajudando a combater práticas predatórias, como remover os corais de seu habitat ou danificá-los.

Branqueamento do corais

Professora de ciências biológicas na Universidade Federal da Paraíba (UFPB), Cristiane Sassi mergulha e estuda os corais da Paraíba desde 1999.

Em todos esses anos, a pesquisadora nunca havia visto uma situação tão grave como a atual: ao menos 90% da colônias de corais estão totalmente branqueadas, o que representa uma ameaça à sobrevivência desses animais.

O branqueamento, que pode levar à morte dos corais, é causado pela alteração da temperatura dos oceanos.

Este processo deixa a água mais ácida e provoca a expulsão ou perda de pigmentação das zooxantelas, algas que vivem em associação mutualística com o coral.

Poluição e práticas turísticas inadequadas também contribuem para fatigar o ambiente.

De acordo com o Serviço Geológico do Brasil, os recifes de corais se estendem por 3 mil quilômetros da costa brasileira, concentrando-se desde o Sul da Bahia até o Maranhão, especialmente entre Salvador e o arquipélago de Abrolhos, ambos no estado baiano.

arquipélago de Abrolhos, Bahia

O arquipélago de Abrolhos, na costa das baleias, sul da Bahia

Além disso, são os únicos recifes de coral do Atlântico Sul, visto que cerca de 92% se encontram nos oceanos Índico e Pacífico.

Embora ocupem apenas 0,1% dos oceanos, os recifes são ecossistemas extremamente ricos em biodiversidade, servindo como berçários e fornecendo alimento e abrigo para milhares de espécies de peixes, crustáceos, moluscos, algas e outros seres vivos.

Segundo o Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA), um quilômetro quadrado de recife de coral saudável e bem manejado pode gerar a produção anual de 15 toneladas de peixes e outros frutos do mar.

Ainda de acordo com a agência da ONU, os serviços ecossistêmicos oferecidos pelos corais beneficiam cerca de 850 milhões de pessoas no mundo que vivem a uma distância de até 100 quilômetros dos recifes, sendo que 250 milhões dependem diretamente dos corais para a sua subsistência.

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