Arte

Banksy mostra bastidores e perrengues de grafite em muro de prisão na Inglaterra

Vitor Paiva - 09/03/2021

Quem se pergunta como o artista britânico Banksy faz para realizar seus grafites sem ser detido pela polícia nem ter sua identidade revelada finalmente tem uma resposta – do próprio artista. Um vídeo divulgado em seu site oficial e replicado nos canais do artista mostra todo o processo de Banksy para realizar sua última intervenção urbana: um grafite feito nas paredes de um antigo presídio no sul da Inglaterra, visto pela primeira vez em 1º de Março, mostrando um homem fugindo do local com uma corda feita de lençóis amarrados, com uma máquina de escrever atada à sua ponta.

obra de Banksy no muro do presídio em Reading, na Inglaterra

A nova obra de Banksy no muro do presídio em Reading, na Inglaterra © Getty Images

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Intitulado “Create Escape” (“Criando ‘Fuga’”, em tradução livre), o vídeo brinca com um antigo programa da televisão estadunidense, no qual o pintor Bob Ross ensinava o telespectador do início dos anos 1980 a pintar. Uma ingênua e alegre narração de Ross do passado ilustra as cenas de Banksy preparando o estêncil e realizando o trabalho no muro do presídio HM Reading através de técnicas diversas de pintura no escuro de uma madrugada recente.  Especula-se que o homem retratado em fuga seja uma referência ao escritor Oscar Wilde, que esteve preso no local entre 1895 e 1897 por conta de leis que criminalizavam a homossexualidade no país. Ao fim do vídeo, a polícia também se torna alvo do humor crítico do artista.

Mais do que somente um novo grafite de Banksy, a intervenção vem sendo compreendida como um gesto de apoio do artista à campanha que pede que o presídio, localizado na cidade de Reading e imortalizado por Wilde no poema “The Ballad of Reading Gaol”, seja transformado em um centro cultural. O local está desativado desde 2013, e foi posto à venda pelo governo britânico no ano passado, levantando imediato interesse de construtoras e de empresas ligadas ao mercado imobiliário. “Estamos emocionados em saber disso, afinal é um Banksy! Obrigado, ao artista e sua equipe. Estamos muito gratos. Seu apoio e o presente à cidade serão apreciados por muitos anos”, escreveu o perfil da campanha Save Reading Gaol no Twitter.

Passantes fotografando a nova obra de Banksy em Reading, na Inglaterra

Passantes fotografando a obra © Getty Images

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O conselho municipal da cidade também comentou a confirmação de que a obra de fato se trata de um Banksy. “Estamos tocados pelo fato de que Bansky parece apoiar o desejo do conselho de transformar o presídio vazio em um marco das artes, heranças e culturas com essa obra que ele aplicou intitulada ‘Create Escape’”, comentou em nota. “O conselho está agora pressionando o Ministério da Justiça, que é proprietário do local, para oferecer uma estrutura que proteja a imagem”, concluiu. Especula-se que, além de declarar seu apoio, o gesto de Banksy foi feito como uma barreira à demolição do local – que agora possui em sua parede uma valiosa obra de arte. Em 2016 o presídio foi cenário de uma série de exposições de arte.

Detalhe da nova obra de Banksy em Reading, na Inglaterra

Detalhe do novo trabalho de Bansky © Getty Images

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Um dos artistas mais celebrados do mundo hoje, o fato de manter sua identidade em segredo não impede Banksy de criticar de forma contundente o cenário atual – e de fazer sua parte como um artista profundamente político. Denunciar a violência doméstica, a crise dos refugiados e o turismo predatório, assim como o fiasco do Brexit e a atuação do parlamento inglês são parte da mensagem da obra do grafiteiro desde sempre – com a pandemia, porém, o assunto não poderia ser outro, e Banksy defendeu o uso de máscaras através de intervenção no metrô de Londres, assim como homenageou as enfermeiras e profissionais de saúde como super-heróis em um desenho misteriosamente deixado em um hospital na Inglaterra.

O presídio HM Reading, no sul da Inglaterra

O presídio HM Reading, no sul da Inglaterra © Wikimedia Commons

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© fotos: créditos


Vitor Paiva
Escritor, jornalista e músico, Vitor Paiva é doutor em Literatura, Cultura e Contemporaneidade pela PUC-Rio. Autor dos livros Tudo Que Não é Cavalo, Boca Aberta, Só o Sol Sabe Sair de Cena e Dólar e outros amores, publica artigos, ensaios e reportagens.