Diversidade

Biografia de Rita Von Hunty esmaga estereótipos de trajetória profissional de sucesso

Yuri Ferreira - 19/03/2021

Rita Von Hunty, em si, não tem uma biografia. A persona drag queen criada pelo professor Guilherme Terreri Lima Pereira poderia ser descrita com uma senhora de meia-idade dos anos 50. Entretanto, ela está bem aqui, no presente: com uma audiência de mais de 700 mil pessoas no Youtube, Von Hunty dá aulas sobre sobre sociologia no canal Tempero Drag.

Rita Von Hunty: a namoradinha comunista do Brasil

Em seu ‘Curso Revolucionário de Rita Von Hunty’, ela relembra alguns dos momentos mais icônicos de sua trajetória; foi datilógrafa de Getúlio Vargas e Ministra de Afazeres Subversivos de João Goulart. A “namoradinha comunista do Brasil” – toma essa, Regina Duarte – alcança sua massa de seguidores falando de marxismo, luta de classes e anticapitalismo.

Rita Von Hunty; a drag que derruba estereótipos e só cresce em audiência no Youtube

Agora, sem brincadeiras, Guilherme, a mente por trás de Rita Von Hunty, também possui uma história incrível. Formado em artes cênicas pela Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (UNIRIO) e em Letras pela Universidade de São Paulo (USP), o criador da drag comunista mais famosa do Brasil é um acadêmico de mão cheia – daqueles que tem carinho ao falar da sua ‘pesquisa‘ e está sempre munido de referências para falar dos assuntos que gosta.

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E a trajetória de Guilherme é cheia de percalços antes fama com Rita. Ele teve de se mudar para São Paulo em 2011 para o tratamento de câncer de sua mãe, de quem era muito próximo. Ela faleceu em 2012. Foram três anos de luto que, segundo o próprio, o ajudaram a formatar a persona de Rita.

“A Rita é uma persona. E a persona é diferente de um personagem, porque qualquer pessoa pode fazer a Julieta ou Romeu, por exemplo. Mas ninguém vai poder fazer a Rita. Porque não existe um texto da Rita. A única pessoa que sabe como ela opera sou eu. A Rita é uma máscara do Guilherme. Em que momento comecei essa máscara? Quando era um óvulo e fui fecundado. Essa máscara traz passagens de toda minha vida.”, afirma Terreri à Revista Trip.

Ela também apresenta o programa ‘Drag Me As Queen’, da NBCUniversal, e participou do reality Academia de Drags. Mas seu trabalho na televisão fica até em segundo plano quando olhamos para seu trabalho como educadora na internet.

Uma drag queen intelectual e marxista

Entretanto, a biografia de Rita Von Hunty vai além disso: para ele, a personagem é uma missão para lutar contra diversos estereótipos que circundam o mundo das drag queens. O primeiro deles é a performance de mulher como uma sátira; para ele, não necessariamente as drags precisam ser um caricatura. O outro é que a drag é só uma fonte de entretenimento. Para Guilherme, o conhecimento pode ser parte essencial dessa forma de representação.

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“Existem dois estereótipos sobre drag que meu trabalho luta contra. Uma é que a drag é uma caricatura do feminino. Eu não sou isso. Eu não acho que as mulheres são seres risíveis, para fazer piada. O outro é que drag só fala de maquiagem, roupa e sexo. E a minha drag não fala sobre essas coisas. Ao mesmo tempo eu tento quebrar o estereótipo também de que todo professor é homem, branco e pedante. Não existe só um jeito de ser intelectual”, afirmou em entrevista à Nina Lemos, do UOL.

“É fazer uma performance que destrói as normas de gênero, contradiz o que é esperado do comportamento de homens e mulheres”, explica Guilherme à Cláudia. “É muito mágico quando alguém tenta explicar que assistiu a um vídeo da Rita e gagueja ao definir se é uma professora ou professor”, diz.

O cabelo da típica housewive americana compõem a estética retrô da professora revolucionária

O sucesso de Rita Von Hunty não a fez menos de esquerda. Apesar de ser pesquisadora de temas da literatura, Guilherme fala com propriedade e extenso referencial sobre sociologia e política, sendo esse um dos principais conteúdos do ‘Tempero Drag’.

Se seu canal começou como uma plataforma para falar de veganismo, mas foi na política, filosofia e na sociologia que Rita viu seu público crescer de forma exponencial. As aulas sobre Karl Marx, ou, para ela, ‘Seu Carlinhos‘ são dignas de professores universitários.

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O trabalho de Guilherme é fascinante justamente por quebrar esses estereótipos. Um dos principais, inclusive, é fazer com que temas complexos da sociologia se tornem simples e facilmente compreensíveis. Segundo ele, Paulo Freire é seu mentor na educação.

Com extenso repertório e bibliografia, Rita traz assuntos diversos para a mesa e os debate de forma acessível em aulas, palestras e, claro, no Youtube

Guilherme e Rita, entretanto, acabam se confundindo. Segundo o próprio Guilherme, a personagem se tornou uma forma de passar o seu conhecimento.

Outra coisa que surpreende em Rita Von Hunty é a continuidade de seu pensamento; é comum que, com a fama, alguns marxistas abandonem sua filosofia e abracem um pensamento mais próximo do liberalismo econômico.

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Rita, pelo contrário, parece a cada dia mais engajada em espalhar os conceitos de ‘Seu Carlinhos’ por aí, colocando o pensamento marxista em novas perspectivas e o utilizando para observar questões de raça, gênero e sexualidade, derrubando o mito de que o pensamento do materialismo histórico-dialético não dialoga com os paradigmas atuais da sociedade.

Através de sua didática incrível, do carisma e das referências impecáveis, Rita Von Hunty derruba estereótipos de gênero, do próprio mundo drag, da política, da academia e da própria internet.

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Fotos: Reprodução/Instagram


Yuri Ferreira
Jornalista formado na Escola de Jornalismo da Énois. Já publicou em veículos como The Guardian, UOL, The Intercept, VICE, Carta e hoje escreve aqui no Hypeness.