Inovação

Brasil lidera frente mundial de pesquisa sobre uso medicinal de LSD, cogumelos, MDMA e Ayahuasca

por: Redação Hypeness

O uso medicinal de drogas psicodélicas na cura de doenças da mente vem quebrando preconceitos e avançando. Apesar de ainda enfrentar a falta de investimento na ciência e na pesquisa, o Brasil tem bons aliados, entre neurocientistas e psiquiatras, o que torna o país líder do movimento mundial chamado de renascença psicodélica.

Nomes como Dráulio Araújo, Eduardo Schenberg, Luís Fernando Tofoli e Sidarta Ribeiro estão à frente dessas pesquisas e pretendem que o caminho seja o mesmo da maconha, atualmente em fase de aprovação para o mercado medicinal por aqui.

Na última década, substâncias como o LSD; a psilocibina, princípio ativo dos cogumelos psicodélicos; o DMT, substância da Ayahuasca; a mescalina e o MDMA, princípio ativo do ecstasy, vêm sendo usadas em diversas pesquisas – e com bons resultados – mundo afora.

“Há um tabu enorme com o termo psicodélico e do que foi o movimento hippie nos EUA”, diz o doutor em neurociências e comportamento pela USP, mestre em psicobiologia pela Unifesp, com pós-doutorados em neuropsicofarmacologia e neuroimagem na Unifesp e na Imperial College London, Eduardo Schenberg, ao Elástica.

Esses tabus são percepções de um assunto sobre o qual as pessoas acham que sabem. Mais do que ignorância, se vê uma ilusão de conhecimento, que é outra forma de ignorância. A ilusão de saber que a coisa é horrorosa impede a pessoa de entender mais a fundo e até de fazer pesquisa com essas substâncias. Por décadas isso dificultou ou até mesmo impediu as pesquisas

Estamos sob efeito de um poderoso psicotrópico

O tal psicotrópico que abriu a mente dos habitantes de Bacurau, longa de Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles, parece ter aguçado o sentido de comunidade em todos.

O fictício fato vai de encontro à percepções já constatadas pelo escritor Paulo Mendes Campos (1922-1991), um grande nome da literatura brasileira, que relatou suas experiências com o LSD, substância até hoje proibida.

“Livrei-me de algumas túnicas da minha fantasia, quase todas depressivas. Despertei certa manhã de domingo, muito mais curioso do universo e muito menos angustiado pela catástrofe humana. Existir ficou um pouco menos difícil.”

O trecho, parte de uma série de crônicas escritas a partir de 1962, quando a droga estava sendo estudada e pesquisada pela ciência e pela medicina e o escritor participou dos testes.

Porém, nos últimos anos, no entanto, as pesquisas com as drogas psicotrópicas renasceram a partir da ideia de tratamento de doenças como depressão, ansiedade, dependência química, transtorno de estresse pós-traumático, entre outras.

Ainda que com poucos investimentos e resistência ideológica vinda dos setores conservadores e retrógrados da nossa sociedade, mais uma vez, cientistas brasileiros estão na vanguarda dos estudos.

MDMA

Eduardo Schenberg publicou um estudo em 2020 sobre uso psiquiátrico de MDMA (metilenodioximetanfetamina), em parceria com uma entidade americana que também pesquisa essas drogas.

No estudo, ele tratou três pacientes diagnosticados com transtorno de estresse pós-traumático (Tept) como resultado de experiências violentas, como abuso sexual, tiroteios, sequestros, perda repentina de pessoas da família e, com a atual situação do mundo, até a Covid-19.

Os pacientes foram conduzidos por uma terapia assistida com uso drogas psicodélicas de quatro meses. No caso do MDMA, a droga foi administrada em 3 de 15 consultas, sob supervisão de dois terapeutas.

Durante as consultas, o paciente era estimulado a ouvir música e a ficar introspectivo, refletindo sobre  sentimentos e memórias que eles não conseguiriam acessar de forma orgânica devido ao Tept.

No resultado final, dois dos participantes foram curados do transtorno e o terceiro teve melha significativa, apesar de ainda precisar dar continuidade ao tratamento.

“Os resultados no Brasil foram espetaculares, muito parecidos com o que vem sendo observado no exterior. As estatísticas mostram que dois terços dos pacientes saem do tratamento curados”, disse Eduardo à BBC.

Ayahuasca

Conhecida por seu uso ritualístico em comunidades indígenas da Amazônia, com foco em cura espiritual, a ayahuasca foi incorporada a partir dos anos 1930 em cerimônias do Santo Daime e da União do Vegetal, no Acre, e Barquinha, em Rondônia.

Nos anos 1980 cruzou as fronteiras e passou a ser consumida em outras partes do mundo. Em terras brasileiras, seu uso é considerado legal desde 1987, mas exclusivamente para fins ritualísticos.

Feito da combinação do cipó Banisteriopsis caapi e das folhas do arbusto Psycotria viridi, o chá contém DMT e inibidores da monoamina oxidase, que agem no sistema nervoso central.

Em um dos seus trabalhos mais recentes, os grupos de Hallak e do neurocientista Dráulio Barros de Araújo, da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), avaliaram a ação antidepressiva da administração de ayahuasca em pacientes com depressão severa que não respondiam aos medicamentos usuais.

No experimento, 29 pessoas foram aleatoriamente indicadas para receber o chá ou uma bebida placebo, formulada para ter sabor e aspecto de ayahuasca.

Os pesquisadores realizaram uma série de avaliações psicológicas e fisiológicas nos participantes durante todo o processo, além de imagens de ressonância nuclear magnética para avaliar alterações no funcionamento do cérebro.

Durante o experimento, nem os pesquisadores nem os participantes sabiam quem havia recebido ayahuasca ou placebo – o chamado duplo-cego.

Os dois grupos apresentaram redução no quadro depressivo após o experimento, com melhora significativamente maior entre os que tomaram o chá de ayahuasca.

Após 7 dias de tratamento, cerca de 60% das pessoas que receberam a preparação com as folhas e o cipó haviam apresentado uma redução superior a 50% nos sinais de depressão, contra 27% no grupo placebo. Metade dos participantes do primeiro grupo estava completamente livre dos sintomas, ante 10% no segundo, de acordo com artigo publicado em junho de 2018 na revista Psychological Medicine.

Cogumelos

A psilocibina, presente em centenas de espécies de cogumelos tem se mostrado uma substância efetiva contra depressão e ansiedade, em inúmeros estudos realizados por institutos e universidades mundo afora, como a King’s College London e a Beckley Foundation.

Um estudo conduzido pelo instituto norte-americano Usona foi classificado pelo FDA como “terapia inovadora”, assim como MDMA havia sido, e está atualmente na fase 2 de testes.

Um dos estudiosos à frente dos estudos com cogumelos é Renato Filev, pesquisador do Programa de Orientação e Atendimento a Dependentes da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp).

Ele explica que, como acontece com outros psicodélicos que ele já estudou, como a cannabis e ayahuasca, a terapia com psilocibina tem potencial de mudar comportamentos repetitivos e problemáticos.

Segundo ele, os psicodélicos atuam numa região do córtex que faz uma série de sincronizações do ritmo cerebral.

“Essas mudanças criam condições para uma análise profunda do eu e do sentido de individualidade. Essa experiência muda a forma como o paciente enxerga sua personalidade, seus comportamentos e suas emoções. Quando você está sob esse efeito, acaba aceitando uma segunda opinião sobre você mesmo, algo que não aceitava antes”, afirma à BBC.

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