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Casas à venda por 1 euro causam confusão e revolta em cidadezinhas italianas

Vitor Paiva - 03/03/2021 | Atualizada em - 09/03/2021

Na Sardenha, na Sicília ou na ponta da bota, em diversas regiões interioranas da Itália as prefeituras e autoridades encontraram como solução para aquecer a economia e evitar que as pequenas e ancestrais cidades se tornassem como vilarejos fantasmas a oferta de casas abandonadas por preços simbólicos – na maior parte dos casos vendidas ao custo de 1 euro. Tais oportunidades foram noticiadas mais de uma vez, em cidades como Ollolai, na região montanhosa de Barbagia, na Ilha da Sardenha, ou na comuna de Gangi, na Sicília – mas uma reportagem da CNN mostrou que tal solução é mais complexa do que parece, quando familiares das pessoas que no passado viveram em tais casas começaram a aparecer para reclamar pelas propriedades distribuídas.

O vilarejo de Castropignano

O vilarejo de Castropignano © Getty Images

As propostas das autoridades exigiam que, em trocas das propriedades, os novos moradores reformassem as casas e ainda depositassem um seguro para confirmar tal intenção – que é devolvido ao fim da reforma. E o mesmo foi proposto pela prefeitura da cidade da comuna de Castropignano, localizada na região de Molise, ao sul da Itália: é lá, porém, que vem se dando a disputa da ítalo-canadense Josie Faccini, de Niagara Falls, no Canadá, que vem tentanto reaver a posse da pequena casa de pedra onde viva sua avó até os anos 1950, e que permaneceu com a família até cerca de dez anos atrás.

Castropignano © Getty Images

Atualmente abandonada, a casa da família de Faccini está entre as oferecidas por 1 euro pela prefeitura local – segundo Josie, porém, ela há meses vem lutando para não perder o local onde ela também passou a infância, quando na casa morava uma tia que faleceu. Mas nem mesmo a comunicação se dá de forma fácil: a prefeitura garante que escreveu diversas vezes para todas as famílias, e que o processo inclui a espera por um tempo razoável até que as casas sejam de fato oferecidas, mas Josie garante que sua família jamais recebeu qualquer correspondência, e que ela passou mais de 8 meses tentando se comunicar sem sucesso com as autoridades locais.

Casa à venda em Castropignano © CC

Quando a resposta enfim veio, a prefeitura exigia que fosse apresentada uma escritura de propriedade ou outras documentações que comprovem o fato alegado, mas segundo consta, tais documentos praticamente não existem na região – as negociações costumam ser informais, muitas vezes acordadas foram dos registros oficiais na região. Segundo a lei italiana, porém, por se tratar de casas velhas e com risco de acidentes, a prefeitura tem o direito de exigir reforma imediata dos proprietários ou enfim colocar as casas à venda.

A cidade de Mussomeli

A cidade de Mussomeli © Wikimedia Commons

O dilema se estende para outras pequenas cidades da região, como Mussomeli, Bivona e Troina, onde as casas abandonadas acumulam, mas também diversas famílias estão buscando retomar a propriedade sobre casas e terrenos que um dia foram ocupados por seus familiares. Multas pesadas podem ser aplicadas sobre quem abandona os imóveis, assim como impostos que não foram pagos podem ser cobrados retroativamente, mas o direito à propriedade é também central para tal questão – que não parece encontrar solução num horizonte próximo.

A cidade de Troina

A cidade de Troina © Getty Images

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© fotos: créditos


Vitor Paiva
Escritor, jornalista e músico, Vitor Paiva é mestre e doutor em Literatura, Cultura e Contemporaneidade pela PUC-Rio. Publica artigos, ensaios e reportagens, é autor dos livros Tudo Que Não é Cavalo, Boca Aberta, Só o Sol Sabe Sair de Cena e Dólar e outros amores.

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