Inspiração

Chandro Tomar: atiradora mais velha do mundo mira a derrubada do patriarcado na Índia

por: Vitor Paiva

Aos 89 anos, Chandro Tomar é a maior atiradora de toda Índia, e se tornou um ícone feminista por sua luta pelo empoderamento feminino e para derrubar o patriarcado em seu país a tiros.

Não, não estamos falando de ameaças, violência ou crimes – o tiro de Tomar é simbólico e principalmente esportivo: ela ganhou fama e se tornou inspiração para as jovens indianas como estrela do tiro esportivo, tendo vencido mais de 30 torneios nacionais contra os principais esportistas, inclusive homens, de toda Índia. Sua história traz um detalhe nada mero: a “Vovó Atiradora”, como ficou conhecida, só segurou uma arma pela primeira vez depois dos 65 anos.

A atiradora indiana Chandro Tomar

Chandro só começou a atirar aos 65 anos

-Conheça a vovó russa que se tornou campeã mundial de arremesso de facas

Segundo Tomar, sua mira infalível é uma questão de concentração, de não prestar atenção em nenhuma distração ao redor na hora de puxar o gatilho – e é com essa precisão e talento que ela vem pavimentando um caminho de afirmação para incontáveis jovens e mulheres na Índia.

Seu desejo, segundo a própria, vai além das medalhas que conquista frequentemente como a mais velha atiradora profissional do planeta, mas mira principalmente no encorajamento de jovens garotas de seu país e do mundo todo a expandir seus horizontes através do esporte. A atleta se tornou um símbolo do combate ao etarismo.

A atiradora indiana Chandro Tomar

O incentivo ao esporte e o enfrentamento do machismo fez dela um ícone feminista no país

-Kathrine Switzer, a maratonista que foi agredida por ser a primeira mulher a correr a Maratona de Boston

A primeira vez que atirou, Tomar já tinha o objetivo de inspirar uma jovem: sua neta, ainda no final dos anos 1990, numa época em que a região de Johri, vilarejo em Uttar Pradesh, ao norte da índia, onde vive, mal possuía clubes de tiro e era tomada pela pobreza, a violência e o machismo.

Para mostrar à neta que ela não precisava ficar nervosa para praticar o esporte, Tomar simplesmente pegou a arma e disparou – e acertou no meio do alvo. Desde então ela nunca mais parou de praticar e de acertar e, tantas medalhas depois, hoje em Uttar Pradesh centenas de jovens frequentam os diversos clubes de tiro existentes na região, e a equipe que formou já revelou mais de 30 atiradoras profissionais – tudo pela inspiração direta de Tomar.

A atiradora indiana Chandro Tomar

Por 50 anos a atiradora trabalhou somente como chefe de sua casa

-Serena Williams e a história de representatividade no macacão de uma perna só usado pela tenista

Filme em Bollywood

Nascida em 1932, a “Vovó Atiradora” nunca foi à escola, se casou com 15 anos e passou os 50 anos seguintes cuidando de sua família em uma região rural, pobre e conservadora – destino praticamente incontornável para toda jovem crescida por lá, em uma comunidade onde as mulheres devem cobrir a cabeça e não podem olhar no olho de homens desconhecidos.

Segundo a própria, frequentar o clube de tiro foi a primeira coisa em sua vida que ela fez exclusivamente para seu próprio bem-estar – e esse é o caminho que ela oferece para jovens, a fim de mudar a realidade indiana entre as mulheres: atualmente sua neta também compete profissionalmente.

Chandro (à direita), junto de sua cunhada Prakashi Tomar © Getty Images

-Mulheres skatistas na Índia desafiam as normas de gênero nesse vídeo imperdível

Sua vida é tão incrível que Tomar não só se tornou um ícone feminista no país, como ganhou uma cinebiografia em Bollywood: Saand Ki Aankh (“No alvo”, em tradução livre) é um filme que conta a história tanto de Chandro quanto de Prakashi Tomar, sua cunhada e companheira no esporte.

Depois que conquistou os primeiros títulos, Tomar passou a bater de casa em casa para convencer os pais e formar o time da região, e assim se tornou uma celebridade em todo o país. Se aproximando dos 90 anos ela segue ativa, inspirando jovens na Índia e no mundo, e atirando: acertando no meio do alvo, simbolicamente mas também literalmente.

Aos 89 anos ela segue praticando o esporte e encontrando jovens para a prática do tiro esportivo – e o empoderamento

Publicidade

© fotos: Facebook/reprodução/crédito


Vitor Paiva
Escritor, jornalista e músico, doutorando em literatura pela PUC-Rio, publica artigos, ensaios e reportagens. É autor dos livros Tudo Que Não é Cavalo, Boca Aberta, Só o Sol Sabe Sair de Cena e Dólar e outros amores.


X
Próxima notícia Hypeness:
Paulo Gustavo pediu para ‘pessoas se cuidarem’ antes de ser intubado com covid-19