Futuro

Escola Maria Filipa: escola afro-brasileira em Salvador repensa marcos civilizatórios por uma educação decolonial

Vitor Paiva - 04/03/2021 | Atualizada em - 09/03/2021

Se o futuro começa nas escolas, para um futuro diferente é preciso uma escola diferente – e é essa a missão da Escola Afro-Brasileira Maria Felipa, em Salvador, na Bahia: oferecer educação infantil baseada não somente na cultura eurocêntrica que comumente pauta o ensino no Brasil. A ideia da professora Bárbara Carine, da UFBA, e de seu marido Ian Cavalcanti, ao se juntaram à pedagoga Naiara Santos era justamente de criar uma escola que partisse de outros marcos civilizatórios, baseada também na influência ameríndia e principalmente na influência africana para a formação sociocultural dos alunos e alunas.

A professora Barbara Carine diante de uma representação do continente africano em uma sala de aula

A professora Barbara Carine diante de uma representação do continente africano em uma sala de aula

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A partir de ações pedagógicas, atividades lúdicas, desportivas e práticas culturais, a Maria Felipa tem como objetivo oferecer aos estudantes formas diversas de comunicação e linguagens – a partir, por exemplo, de outras matizes culturais como o Iorubá, o Inglês e o Espanhol. Em tal sentido, o ensino da escola se baseia em uma perspectiva decolonial para buscar estimular o desenvolvimento humano a partir da educação e da transmissão de conhecimento. Um exemplo concreto de ensino é oferecer ênfase na civilização egípcia quando do estudo da antiguidade clássica – sendo esta uma civilização anterior à civilização greco-romana, que influenciou todo o mundo de então, na Ásia, na Europa e mesmo na América.

Ian Cavalcanti, Naiara Santos e Bárbara Carine

Ian Cavalcanti, Naiara Santos e Bárbara Carine 

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“Complementando essa abordagem, seria importante mostrar como a história dessa civilização foi distorcida e encoberta, sobretudo no aspecto do protagonismo negro, nas versões ainda hoje divulgadas de forma maciça na cultura popular e na academia”, afirmou Elisa Larkin Nascimento, diretora do Instituto de Pesquisas e Estudos Afro-Brasileiros e apoiadora do projeto. “Igualmente importante seria a presença dos referenciais do conhecimento africano nas diferentes disciplinas e áreas de conhecimento, nas ciências exatas e nas humanidades”, concluiu.

Sala de aula na escolinha Maria Felipa, em Salvador

Sala de aula na escolinha Maria Felipa

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O nome que batiza a escola lembra justamente uma heroína da história da Bahia e uma grande liderança negra no estado e no país – pouco citada na educação tradicional. Nascida na ilha de Itaparica como descendente de pessoas escravizadas trazidas para o Brasil do Sudão, Maria Felipa de Oliveira era marisqueira e pescadora, mas entrou para a história ao liderar um grupo de 200 pessoas, formado principalmente por mulheres negras, índios tapuias e tupinambás contra os invasores portugueses que atacaram a ilha em 1822. Segundo consta, o grupo liderado por Maria Felipa teria incendiado 40 embarcações portuguesas durante a batalha ao redor de Itaparica.

Bárbara Carine diante da placa da escolinha Maria Felipa em Salvador

Carine diante da placa da escola em Salvador

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© fotos: divulgação


Vitor Paiva
Escritor, jornalista e músico, Vitor Paiva é mestre e doutor em Literatura, Cultura e Contemporaneidade pela PUC-Rio. Publica artigos, ensaios e reportagens, é autor dos livros Tudo Que Não é Cavalo, Boca Aberta, Só o Sol Sabe Sair de Cena e Dólar e outros amores.

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