Arte

Cuti: poeta e dramaturgo é referência na militância negra e criador dos Cadernos Negros

Vitor Paiva - 11/03/2021 | Atualizada em - 15/03/2021

Poeta, dramaturgo, ensaísta, crítico de cultura, militante da causa negra: o paulista Luiz Silva, mais conhecido como Cuti, é um dos maiores intelectuais brasileiros, um dos criadores dos Cadernos Negros e destaque entre as lideranças negras na militância político-cultural e no meio literário. Referência no debate dos conceitos de “Literatura afro-brasileira” e “afrodescendente”, o escritor é autor de obras como Quem tem medo da palavra negro Literatura negro-brasileira (de ensaios), assim como Negros em contos e Quizila (de contos), e, entre muitas outras, Poemaryprosa, Negroesia e Flash crioulo sobre o sangue e o sonho (na poesia).

O poeta, dramaturgo, autor e professor Luiz Silva, conhecido como Cuti

O poeta, dramaturgo, autor e professor Cuti © Antonio Terra/divulgação

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Sua assinatura está em sua vasta obra, mas também na criação do jornal de literatura Jornegro, e principalmente dos Cadernos Negros, uma das mais importantes e longevas série de antologias literárias do país.

Os Cadernos Negros

Criados em 1978 e publicado ininterruptamente desde então em formato anual, os Cadernos tornaram-se um marco na valorização e disseminação da literatura brasileira produzida por afrodescendentes – honrando assim a luminosa história de luta de nomes como Machado de Assis, Cruz e Souza, Lima Barreto, Auta de Souza, Luís Gama, Solano Trindade, Carolina Maria de Jesus – e do próprio Cuti. A primeira edição contou com os autores Henrique Cunha Jr., Angela Lopes Galvão, Eduardo de Oliveira, Hugo Ferreira, Celinha, Jamu Minka, Oswaldo de Camargo e Cuti.

O primeiro volume dos Cadernos Negros, lançado em 1978

O primeiro volume dos Cadernos Negros, lançado em 1978 © reprodução

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Reunindo contos e poemas, o impacto dos Cadernos é medido não só na régua do estudos literários propriamente, mas também pela fomentação da cultura e da produção artística das periferias. A antologia é hoje realizada pela ONG Quilombhoje Literatura, coletivo cultural e editora em São Paulo, também fundada por Cuti.

A literatura como instrumento de luta

Outra linha de atuação importante na trajetória de Cuti é o resgate da memória do movimento negro, e boa parte de sua atuação tem como foco o papel da literatura em cada página do processo discriminatório brasileiro – e da luta contra o racismo e o preconceito.

Lançamento do primeiro volume dos Cadernos Negros, na livraria Teixeira, centro de São Paulo, em 1978

Lançamento do primeiro volume dos Cadernos, na livraria Teixeira, centro de São Paulo, em 1978

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“A luta entre escravizados e escravizadores mudou sua roupagem no biombo do século XIX para o século XX, mas prossegue com suas escaramuças, porque a ideologia de hierarquia das raças continua”, escreveu, em Literatura negro-brasileira. “Com a democracia jurídica, o esforço para alterar as mentalidades encontrou grande apoio, porém as noções cristalizadas de superioridade racial mantêm-se renitentes, e os argumentos de exclusão racista persistem para impedir a partilha do poder em um país étnica e racialmente plural. E a literatura é poder, poder de convencimento, de alimentar o imaginário, fonte inspiradora do pensamento e da ação”.

Volume 42 dos Cadernos Negros

Desde 1978 a antologia foi lançada anual e ininterruptamente: o volume 42 foi lançado no ano passado © divulgação

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Com 21 livros autorais publicados entre os tantos gêneros supracitados e uma atuação fundamental no universo dos estudos literários e sociais, Cuti é também coautor em 5 livros 1 CD de poemas, além de assinar textos em antologias nacionais e internacionais diversas. Dentre as 43 edições dos Cadernos Negros ele só deixou de participar de uma, em 1994, e a relevância da antologia se amplia à luz da qualidade de seus autores e da importância do movimento negro em suas variadas frentes.

Luiz Silva, o Cuti, falando em um microfone

O último livro de Cuti, “Axéconchego – em face do fuzuê”, foi lançado no final do ano passado © divulgação

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© fotos: créditos


Vitor Paiva
Escritor, jornalista e músico, Vitor Paiva é mestre e doutor em Literatura, Cultura e Contemporaneidade pela PUC-Rio. Publica artigos, ensaios e reportagens, é autor dos livros Tudo Que Não é Cavalo, Boca Aberta, Só o Sol Sabe Sair de Cena e Dólar e outros amores.

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