Debate

Facebook está desenvolvendo Instagram para crianças; entenda riscos

Vitor Paiva - 24/03/2021

O Facebook está planejando desenvolver uma versão do Instagram especialmente projetada para menores de 13 anos. O anúncio foi feito em um post interno da empresa, que é proprietária do Instagram.

A notícia foi dada pelo BuzzFeed como uma solução para que os jovens menores de idade possam utilizar a rede social de forma segura e controlada pelos pais – atualmente não é permitido a usuários abaixo dessa faixa etária criarem perfis na plataforma de fotos e vídeos.

Ícone do Instagram

Apesar das medidas de segurança, especialistas não veem o Instagram para crianças com bons olhos © divulgação

Instagram X realidade: site reúne os bastidores “reais” de supostas fotos “perfeitas”

Mas ainda que possa funcionar como um meio de conexão e comunicação em um momento de isolamento como a pandemia atual, o anúncio levanta diversos aspectos problemáticos para jovens e crianças no uso das redes.

Segundo porta-voz do Facebook, a ideia é que a novidade funcione de forma semelhante ao Messenger Kids, versão infantil do app de troca de mensagens, projetado para usuários entre 6 e 12 anos de idade.

Messenger Kids

A ideia é que o Instagram para crianças funcione como o Messenger Kids © divulgação

‘Museu do Isolamento’ reúne obras de arte visuais que nasceram durante a pandemia

“Cada vez mais crianças estão pedindo aos pais para participarem de apps que os ajude a fazer amigos”, comentou o porta-voz da empresa. “Não existem muitas opções no momento para os pais, então estamos trabalhando nesse produto adicional”, adicionou o representante.

Medidas de segurança

A ideia é que a versão para crianças do Instagram utilize inteligência artificial combinada a uma série de medidas para tornar a rede segura – como reconhecimento facial e exigência de dados para o controle de idade, além da proibição do envio de mensagens por maiores de 18 anos que não estejam entre os ‘amigos‘ da criança.

Além disso, a rede irá encorajar os perfis a serem postos no modo privado e criará, segundo a nota, ferramentas de segurança que dificultarão, por exemplo, a busca desses perfis por adultos. “Estamos explorando uma experiência controlada pelos pais, para ajudar a garotada a manter as amizades, descobrir novos hobbies e interesses, e mais”, disse o Facebook.

Crianças no computador

Reconhecimento facial e exigência de dados farão o controle de idade no app © Getty Images

Especialistas reprovam

Especialistas são unânimes a respeito do potencial nocivo que a exposição a conteúdos impróprios, às pressões sobre padrões de beleza, comportamento e estereótipos e principalmente à monetização das relações pode provocar a partir do uso do Instagram por jovens e crianças.

Outro problema que não foi comentado pelo Facebook diz respeito ao uso dos dados pessoais dos usuários para fins comerciais e políticos que as redes sociais costumam praticar – e que, na perspectiva de usuários de 6 anos de idade, ganha contornos ainda mais problemáticos.

Criança usando smartphone

O uso de dados pessoais das crianças é um dos problemas da novidade © Getty Images

Não há dilema: redes sociais estão matando o sexo, a democracia e a humanidade

Ao mesmo tempo, as redes sociais são também espaços de expressão e comunicação para pessoas no mundo todo, e que podem oferecer benefícios sociais variados para os usuários de todas as idades. Trata-se de tema complexo que merece atenção e debate – aberto desde 2019, quando o Instagram proibiu os perfis de menores de 13 anos.

Criança com smartphone debaixo da coberta

Atualmente os menores de 13 anos não podem ter um perfil no Instagram © Getty Images

Atriz de ‘Avenida Brasil’ menor de idade expõe cantada de seguidor casado

“O que queremos na discussão da relação da criança com mídias e tecnologias de comunicação e informação, é que as empresas pensem os direitos das crianças”, comentou o advogado Pedro Hartung, em entrevista para o Hypeness à época.

“Que a preocupação com a infância venha embutida, seja em produtos direcionados ou não. São indivíduos vulneráveis em estado peculiar de desenvolvimento. São impactados com intensidade maior. O debate é relevante e a  apresentação de alternativas seguras de expressão e produção também”, concluiu.

Publicidade

© fotos: créditos


Vitor Paiva
Escritor, jornalista e músico, Vitor Paiva é doutor em Literatura, Cultura e Contemporaneidade pela PUC-Rio. Autor dos livros Tudo Que Não é Cavalo, Boca Aberta, Só o Sol Sabe Sair de Cena e Dólar e outros amores, publica artigos, ensaios e reportagens.