Fotografia

Lacútia: uma das regiões mais frias da Rússia é feita de diversidade étnica, neve e solidão

Vitor Paiva - 08/03/2021 | Atualizada em - 09/03/2021

Para falar de partes geladas do planeta é preciso falar da Lacútia, também conhecida como República de Sakha, uma região do extremo oriente da Rússia com quase metade de seu território ao norte do Círculo Polar Ártico e coberto por permafrost – e que, apesar da média de -35ºC no inverno, serve de casa para quase 1 milhão de habitantes. Localizada a mais de 5 mil quilômetros de Moscou, a Lacútia vem se tornando estrela em noticiários por conta do derretimento dessa camada de gelo permanente que revela animais pré-históricos em perfeito estado. A solidão na região onde o frio pode chegar a -50ºC, no entanto, é também tema importante sobre a República de Sakha – localizada na Sibéria como um dos pontos mais extremos e interessantes da Terra.

A paisagem coberta de neve de Lacútia

A paisagem branca de neve de Lacútia

O inusitado espetáculo das ondas congeladas causado pelo frio rigoroso nos EUA e Canadá

E nada melhor que o olhar de um nativo para registrar as particularidades, a luta, os hábitos e o dia a dia de quem vive por lá: foi essa a tarefa realizada pelo fotógrafo Aleksey Vasiliev, nascido e criado em Lacútia, que viu na fotografia a salvação para o próprio impacto que a região – que ele garante amar profundamente – pode provocar em seus moradores.

Estrada coberta de neve em Lacútia

Loja iluminada em Lacútia, na Rússia

O frio em Lacútia torna a região quase deserta durante o inverno

“No passado eu era um alcoólatra. Quando parei de beber, precisei preencher esse vazio deixado pela bebida – e foi aí que a fotografia veio para me ensinar a ver a vida de forma mais positiva”, afirmou Vasiliev, em entrevista para o site Bored Panda.

Duas idosas caminhando na neve em Lacútia

Duas moradoras enfrentam o inverno nas ruas da região

Boneco de um mamute congelado em Lacútia

Ruas congeladas de Lacútia, na Rússia

A questão do alcoolismo em Lacútia

O alcoolismo é problema recorrente na região, como é comum em partes tão frias – e costumeiramente solitárias – e não foi diferente com o fotógrafo, que curiosamente encontrou no mesmo cenário árido onde nasceu e cresceu e que costuma provocar o hábito a saída para o dilema. “Minha amada Lacútia, onde nasci, cresci e onde vivo. Apesar de sonhar em viajar pelo mundo, Lacútia sempre pareceu pra mim como um buraco, um deserto gelado”, comentou.

Moradores de Lacútia, na Rússia, brindando e bebendo

O álcool é muitas vezes fonte de calor – humano e literal – em tais regiões

Um morador de Lacútia e seu gato

Da mesma forma, a relação com os animais é arma contra a solidão na região

Uma moradora de Lacútia e seu gato

Uma moradora de Lacútia e seu gato

Uma moradora de Lacútia em casa

O frio e a solidão parecem ser temas incontornáveis das fotos, assim como a relação com os animais e entre – poucas – pessoas: como meios para aplacar o isolamento natural.

Uma moradora de Lacútia em casa

Duas pessoas se aquecendo em Lacútia, na Rússia

Um morador de Lacútia com seu cachorro no frio da região

Um morador de Lacútia com seu cachorro no frio da região

Filhote de 18 mil anos achado congelado na Sibéria pode ser cão mais velho do mundo

A fotografia era somente um hobby para Vasiliev até 2018, mas desde então ela não só vem salvando sua vida como se tornando seu estudo, seu trabalho, seu grande amor – o próprio sentido da vida que foi salva. Para ele, portanto, para combater o efeito do frio e do cenário extremo onde nasceu, uma câmera é o melhor instrumento de calor. “Em Lacútia o inverno é longo e gelado. Se não fosse pelas necessidades cotidianas, as pessoas iriam escolher ficam dentro de casa o tempo todo, tomando chá quente e esperando a primavera”, ele diz. “No inverno a vida praticamente para, e nos finais de semana não tem quase ninguém nas ruas”.

Moradora de Lacútia, na Rússia, com o rosto coberto de neve

Uma moradora de Lacútia posando com seu gato

5 receitas diferentonas de chocolate quente para você se esquentar hoje

o maior estado autônomo do mundo

O frio e o escuro em Lacútia, na Rússia

Renas carregando pessoas e pesos em Lacútia, na Rússia

As renas são meio de transporte e carregamento na região

O longo e rigoroso inverno se tornou praticamente uma marca da República de Sakha, que é o maior estado autônomo dentro de uma nação do mundo, com mais de 3 milhões de quilômetros quadrados. Apesar de tudo, a região tem internet,  cinema, um museu e uma livraria, além de uma incrível natureza ao redor.

Crianças brincando na neve na Lacútia, na Rússia

Crianças brincando na neve em uma dia “quente” na região

“A natureza é muito imporante na vida de meu povo”, diz Vasiliev, referindo-se a uma população amplamente dividida entre o povo Sakha, os russos, os ucranianos, os evenkis, os Iacutos, os Evens, os Tártaros, os Buriates e os Quirguizes. Seu trabalho sobre o local onde nasceu e cresceu segue em progresso, assim como ele mantém aberto o convite à sua região. “Venha visitar a Lacútia e você irá ver o quão incrível é esse lugar. Você nunca irá esquecer dessa viagem em sua vida”, promete.

Duas crianças com trajes típicos em Lacútia, na Rússia

Morador da Lacútia em uma feira na região da Rússia

Publicidade

© fotos: Aleksey Vasiliev


Vitor Paiva
Escritor, jornalista e músico, doutorando em literatura pela PUC-Rio, publica artigos, ensaios e reportagens. É autor dos livros Tudo Que Não é Cavalo, Boca Aberta, Só o Sol Sabe Sair de Cena e Dólar e outros amores.


X
Próxima notícia Hypeness:
Projeto pelo amor próprio coloca mulheres em frente ao espelho contando suas histórias