Ciência

Meteorito mais antigo do que a própria Terra foi localizado no deserto do Saara

por: Vitor Paiva

Um pedaço de rocha vulcânica descoberto no deserto do Saara no ano passado revelou-se com idade de cerca de 4,6 bilhões de anos – uma formação mais antiga, portanto, que o próprio planeta Terra.

Segundo estudo publicado na revista científica PNAS, da Academia Nacional de Ciências dos EUA, o meteorito intitulado Erg Chech 002, ou EC 002 é o mais antigo exemplar de magma espacial já encontrado, descoberto em parte do deserto localizada na Argélia em maio de 2020.

O pedaço de rocha vulcânica mais velho que a Terra descoberto no Saara argelino

O pedaço de rocha vulcânica mais velho que a Terra descoberto no Saara argelino © Maine Mineral and Gem Museum/Divulgação

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Segundo a pesquisa, o EC 002 pode ter se formado pela crosta de um protoplaneta, uma condenção de matéria da fase inicial da evolução de um planeta, como um “planeta-bebê” que teria sido destruído há 4,6 bilhões de anos. Outra explicação levantada é que a rocha tenha sido absorvida por outros planetas rochosos maiores durante a formação do sistema solar.

Em comparação com mais de 10 mil outros objetos formando o banco de dados do Sloan Digital Sky Survey, o mais ambicioso e amplo levantamento de dados astronômicos em andamento no mundo hoje, o EC 002 era totalmente diferente de todos os outros asteroides identificados, segundo a equipe formada por especialistas de universidades francesas e uma universidade japonesa.

Representação do Sistema Solar com os tamanhos proporcionais - as distâncias, porém, não equivalem à realidade

Representação do Sistema Solar com os tamanhos dos planetas proporcionais – as distâncias, porém, não equivalem à realidade © Wikimedia Commons

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“Nenhum objeto com características espectrais semelhantes ao EC 002 foi identificado até o momento”, diz a pesquisa, que classifica a rocha vulcânica argelina como um acondrito, espécie de meteorito originário de um corpo com crosta e núcleo distintos.

Sua composição é rica em sílica e não em ferro e magnésio, como no caso dos outros asteroides, e o estudo sugere que a rocha teria vindo de um reservatório de magma parcialmente derretido da crosta de seu protoplaneta há 4,565 bilhões de anos – as rochas com sílica eram comuns durante a formação de protoplaneta no “início” do sistema solar.

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“Este meteorito é a rocha magmática mais antiga analisada até hoje e lança luz sobre a formação das crostas primordiais que cobriam os protoplanetas mais antigos”, afirma o estudo.

Por se tratar de formação ocorrida “somente” 2 milhões de anos após a formação do nosso sistema, o estudo da EC 002 pode ser revelador para melhor se compreender a formação dos planetas de modo geral. O Sloan Digital Sky Survey, utilizado para chegar à conclusão, utiliza um telescópio em observatório no Novo México, nos EUA, com poderosos equipamentos de observação e registro funcionando exclusivamente para o projeto.

Outra face da rocha descoberta no deserto do Saara

Outra face da rocha EC 002 © Maine Mineral and Gem Museum/Divulgação

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A raridade da pedra não está somente em sua idade, mas no seu processo de “chegada” à Terra: os “planetas-bebê” teriam sido totalmente despedaçados nesse processo de colisão que os levou a serem absorvidos por planetas maiores como Marte, Mercúrio, Vênus e a própria Terra e, portanto, os vestígios de meteoritos como o EC 002 são poucos.

“Restos da crosta andesítica primordial são, portanto, não apenas raros no registro do meteorito, mas também são raros hoje no cinturão de asteroides”, afirmou a equipe.

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© fotos: créditos


Vitor Paiva
Escritor, jornalista e músico, doutorando em literatura pela PUC-Rio, publica artigos, ensaios e reportagens. É autor dos livros Tudo Que Não é Cavalo, Boca Aberta, Só o Sol Sabe Sair de Cena e Dólar e outros amores.


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