Debate

Padrões de beleza: a relação do cabelo curto com o feminismo

Redação Hypeness - 05/03/2021 | Atualizada em - 08/03/2021

Empoderamento feminino também tem a ver com o cabelo da mulher. Sim, não se engane: o tamanho e o estilo dos fios de cabelo não são apenas uma questão de gosto, mas podem servir como libertação de padrões estéticos extremamente relacionados à sociedade machista. Especialmente quando falamos do corte curto.

Vídeo de 3 minutos mostra as mudanças nos padrões de beleza ao longo de 3 mil anos

Ao longo da História, o padrão de beleza da mulher não se manteve igual. Porém, a sociedade moderna ensinou às mulheres que elas deveriam seguir determinados padrões de beleza para serem vistas como mulheres. Acontece que “ser vista como mulher” não significava fazer as próprias escolhas de acordo com o que achasse melhor. Significava, na prática, “ser desejada por um homem”.

No senso comum da sociedade patriarcal (e machista), as características do seu corpo é que vão definir se você será alvo do desejo masculino — isto é, se essa for a sua vontade. É preciso ser magra, fazer as unhas, deixar os cabelos longos, lisos e, quem sabe, até mesmo mudar a cor das madeixas para que eles se sintam mais atraídos. E se para isso for necessário recorrer a procedimentos estéticos invasivos, sem problemas.

Em uma sociedade regida por estímulos heteronormativos, mulheres aprenderam a entender os desejos dos homens como frutos de sua própria vontade. Mudam por eles, se arrumam por eles e até mesmo comprometem a saúde de seu próprio corpo para se encaixar no que eles dizem que beleza é.

Ela editou seu corpo de acordo com o ‘belo’ cada década para mostrar como padrões são bobos

Halle Berry posa no tapete vermelho do filme “A Viagem”, de 2012.

Que fique claro: a questão não é sobre colocar determinados estilos como “certos” e “errados”, mas sim sobre fazer deles cada vez mais uma escolha natural e pessoal das mulheres.

É por isso que, ao longo dos anos, o movimento feminista tem se apropriado do cabelo como um manifesto também político: eles fazem parte da história individual de cada uma e estão inteiramente ao dispor das vontades da mulher. Sejam eles cabelos cacheados, lisos ou crespos: cabe a ela decidir como se sente melhor com seus fios, sem seguir uma cartilha de beleza imposta ou de corpo perfeito. Cortar o cabelo não te deixa menos feminina, nem te faz menos mulher. Assim como deixá-lo grande também não. Todos os tipos de cabelo servem às mulheres.

Mulheres de cabelos curtos: por que não?

A frase “homem não gosta de cabelo curto” revela um série de problemas da nossa sociedade. Reflete a ideia de que temos que estar bonitas aos olhos deles, não aos nossos próprios olhos. Reproduz o discurso de que a nossa feminilidade ou sensualidade está atrelada aos nossos cabelos. Como se com cabelos curtos fossemos menos mulheres. Como se ser apreciada por um homem fosse o objetivo maior na vida de uma mulher.  

Problema nenhum há no cabelo longo. É direito de qualquer mulher andar por aí com longos fios, ao maior estilo Rapunzel. “Jogue suas tranças de mel”, cantaria Daniela Mercury. Mas jogue porque é seu desejo, não desejo de um homem ou de uma sociedade que te diz que você será mais ou menos mulher de acordo com o comprimento do seu cabelo.

Audrey Hepburn e seu cabelo curto nas fotos de divulgação do filme “Sabrina”.

Não à toa o corte bem curtinho, rente à nuca, costuma ser chamado de “Joãozinho”: é para homens, não para mulheres. Retiram da mulher o direito de sentir orgulho de cuidar dos fios como bem entenderem. Se a mulher está de cabelos curtos, ela “parece homem”. E se parece homem, aos olhos dos “machos” homofóbicos, não servem para serem mulheres.

O show de absurdos em volta do corte de cabelo enorme. Mas não se engane: ele não está só. Faz parte da construção social que quer prender mulheres em padrões de corpo. A tão falada “ditadura da beleza”. Você só é bonita se tiver um corpo magro, cabelos longos e celulites zero. 

Assim, mulheres destroem sua saúde mental e mergulham em complexos por padrões inalcançáveis de beleza.  Às vezes, passam uma vida inteira sem “se arriscar” para satisfazer ao que a sociedade exige delas, mas não aos seus próprios desejos. 

Mulheres protestam pela insistência da indústria da moda em seguir o padrão de magreza

Há uma música da americana India Arie que fala sobre isso: “I Am Not My Hair” (“eu não sou o meu cabelo”, em tradução livre). O verso que dá nome à música cutuca os julgamentos impostos pela sociedade com base na aparência. Ela foi escrita após Arie assistir a uma performance de Melissa Etheridge no Grammy de 2005.

A cantora de country rock apareceu careca naquela edição por conta do tratamento de um câncer. Apesar do momento delicado, cantou a clássica “Piece Of My Heart”, de Janis Joplin, ao lado de Joss Stone e marcou época na premiação. Não foi menos mulher por aparecer sem cabelo, mas certamente foi mais mulher por mostrar que, mesmo em um contexto não escolhido por ela, sua careca reluzia poder.

Mulheres não são Sansões. Não guardam suas forças nos cabelos. Fazem isso ao deixá-los livres e assim também serem. Sejam os fios longos, curtos, médios ou raspados.

Melissa Etheridge e Joss Stone homenageiam Janis Joplin no Grammy de 2005.

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Fotos: Unsplash


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