Debate

Padrões de beleza: as consequências graves da busca por um corpo idealizado

Yuri Ferreira - 11/03/2021 | Atualizada em - 28/04/2021

Os padrões de beleza são conjuntos de normas estéticas que desejam formatar como deve ou não deve ser o corpo e a aparência das pessoas. Hoje, vemos que há um grande debate sobre a importância de uma conceito de beleza que seja mais diverso e inclusivo.

Tais imposições, entretanto, parecem que se intensificam cada vez mais e as consequências da busca por padrões de beleza se tornam cada vez mais graves.

– Padrões de beleza: a relação do cabelo curto com o feminismo 

Padrões de beleza impostos socialmente

As passarelas reforçam um padrão de beleza imposto socialmente: brancas, magérrimas, quase-perfeitas

Se os padrões mudaram ao longo da história (e sempre tiveram suas variantes regionais), hoje a influência das redes sociais praticamente globalizou por completo as formas idealizadas de estética. As milhares de influenciadoras que vendem corpos esculturais e rostos perfeitos contribuem para uma uniformização do que é a beleza.

No Brasil de 2021, o modelo fitness domina o explorar do Instagram, mas talvez se a rede social existisse nos anos 80, seriam as magras no estilo supermodelos que invadiriam as redes. Essas diferenças quanto ao padrão de beleza imposto pela sociedade são regionais; por exemplo, ao observamos o povo Karen, que vive entre a Tailândia e a Birmânia, vemos que a idealização de beleza, para mulheres, está em um pescoço longo, forçado por anéis metálicos a ser esticado o máximo possível. Quanto maior o pescoço, mais próxima do ideal de beleza a mulher está.

Padrões de beleza - diversidade

Padrões de beleza variam de sociedade para sociedade, mas redes sociais estão uniformizando ideias de beleza de maneira perversa

A comparação pode ser considerada um pouco absurda, mas ela é um extremo pra identificar que o padrão de beleza é uma construção da cultura, sujeito à mudanças a qualquer momento e que, em qualquer lugar em que é hipervalorizado, vai levar a consequências drásticas de alterações do corpo, o que pode gerar insatisfação, dor, angústia e problemas de saúde mental.

Consequências da busca por padrões de beleza idealizados

A popularização de um estilo de vida dito ‘saudável’ e o mundo perfeito das influenciadoras forjou ainda mais a ideia de que o padrão de beleza pode ser alcançado. Transformações drásticas acabam se tornando comuns para homens e mulheres e o corpo se torna, ao invés de um método para expressão de sentimentos e identidades, um objeto para a apreciação coletiva.

“Há uma preocupação excessiva com o corpo. Não só em termos de cirurgias plásticas, mas a quantidade de academias, salões de beleza e de farmácias no Brasil é algo gritante quando você compara com outros países. Essa preocupação estética está naturalizada no cotidiano e não para de crescer”, afirma o sociólogo especialista em Saúde Pública, Francisco Romão Ferreira, professor da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj).

Distúrbios alimentares

Distúrbios alimentares são geralmente causados por pressões do padrão de beleza. Entre as causas apontadas para doenças como anorexia nervosa e bulimias de variados tipos estão o bullying e as representações midiáticas de corpos inalcançáveis. Esses distúrbios são geralmente adquiridos na fase da adolescência e desembocam em graves problemas psicológicos.

Padrão de beleza - saúde mental

A busca por um corpo perfeito pode causar problemas de saúde mental

Segundo estudos publicados na revista científica Frontiers in Psychology, a contribuição desses fatores sociais é preponderante, mas se alia à questões neurológicas e que, tendo em vista que terapias psicológicas não foram suficientes para a resolução da maioria dos distúrbios alimentares, tratamentos psiquiátricos e pedagógicos também devem ser associados para a reversão do problema causado pelo padrão de beleza imposto socialmente.

A Organização Mundial da Saúde afirma que cerca de 70 milhões de pessoas sofrem com distúrbios alimentares no mundo e a incidência é muito maior entre mulheres; elas são entre 85% e 90% das vítimas dessas doenças, o que reforça o problema social e sexista da idealização da beleza.

Racismo estético

Outra forma clara de perceber os padrões de beleza impostos socialmente está na questão racial. Ao observarmos quem são as principais referências de beleza no universo televisivo, podemos perceber que pessoas brancas são super-representadas. Quantos galãs de novela negro você conhece?

No Hypeness, constantemente afirmamos a força da representatividade como uma forma de combater esse tipo de padrão. Ao vermos mulheres negras sendo coagidas a alisar seus cabelos, percebemos as dores causadas pela falta de negros nas mídias. A tentativa de abandonar o corpo negro para tentar alcançar um modelo de beleza irreal e impossível é comum e dolorosa.

“Os corpos são atravessados por classificações e atribuições de qualidades e status, o corpo velho é desvalorizado, assim como o corpo negro, pobre. As mídias, a medicina, as políticas públicas são alguns espaços de configurações dos corpos, e os agentes sociais têm participação direta nesse processo, ao selecionarem e disseminarem imagens e discursos que apresentam corpos e produtos −habitualmente corpos brancos, magros−e constroem significados positivados sobre estes, deixando os outros corpos sem representatividade significativa nestes espaços”, afirmam as pesquisadoras de gênero Anni de Novais Carneiro e Silvia Lúcia Ferreira em artigo para a Rede Feminista Norte e Nordeste de Estudos e Pesquisa sobre a Mulher e Relações.

Aumento do mercado de cirurgias plásticas

Padrão de beleza - cirurgias plásticas

Cirurgias plásticas crescem ao redor do mundo todo; preocupação com adolescentes aumenta gradativamente

O mercado de cirurgias plásticas tem crescido de maneira ávida no Brasil. Se antigamente haviam poucos programas na televisão brasileira – como o de Dr. Rey – falando sobre intervenções cirúrgicas para alcançar o corpo perfeito, hoje os cirurgiões plásticos, os ortodontistas responsáveis pelas harmonizações faciais e modelos fitness se tornaram capazes de influenciar milhões e milhões de pessoas.

Em 2019, o Brasil se tornou o país que mais faz cirurgias plásticas e procedimentos estéticos no mundo. Entre 2016 e 2018, dados da própria Sociedade Brasileira de Cirurgiões Plásticos (SBCP) mostram que houve um aumento de 25% nas intervenções estéticas em solo brasileiro. O impulso se dá pela busca ainda maior de conformação aos padrões estéticos. Vale lembrar, é claro, que muitas cirurgias não possuem fins estéticos.

Adolescência e cirurgias plásticas

É durante a adolescência que as pressões do padrão de beleza se tornam mais fortes e arriscadas. Informações da SBCP mostram que o número de cirurgias cresceu 141% entre crianças de 13 a 18 anos de idade na última década. O debate acerca da ética dessas intervenções vêm se acirrando de maneira intensa no Brasil.

O aumento é tendencial ao redor do mundo. Nos Estados Unidos, autoridades sanitárias procuram conter o aumento de intervenções em jovens e, na China, o número de cirurgias plásticas – em especial a rinoplastia – tem crescido de maneira drástica. O fator preponderante? O padrão de beleza.

Sexualidade e padrões de beleza

Outro dado preocupante é o aumento de intervenções cirúrgicas de cunho sexual. Reconstrução de hímen, redução de lábios vaginais ou perinoplastia são algumas das cirurgias que podem ser feitas na região do órgão genital feminino – muitas delas estão relacionadas com a aceitação do corpo por uma visão ainda mais perversa: a pornografia.

– 5 mitos e verdades sobre cuidados íntimos da mulher 

Padrão de beleza - sexualidade

Diversidade estética das vulvas está sendo atacada pela pornografia

O desejo de boa parte dos homens por uma vulva rosa e depilada é, além de uma concepção racista do sexo, uma formatação machista. Além da cirurgia de aumento (que não existe e é muito desejada pelos homens), é claro, não há procedimentos cirúrgicos para embelezar o pênis. E poucas mulheres parecem exigir estéticas dos pênis: isso porque a sociedade não exige padrões de beleza tão rígidos para os homens.

O delírio do padrão de beleza fitness e a gordofobia

Ainda não falamos aqui de uma importante consequência da busca por padrões de beleza idealizados: a gordofobia. A pressão por um modelo de ‘vida saudável‘ forçada por influenciadores tem como base uma das mais operantes instituições de opressão no mundo: a gordofobia.

– ‘Gari magia’ reforça fixação da sociedade por padrões de beleza quase inatingíveis 

A ideia de uma beleza fitness e de um corpo de fisiculturista ser uma forma de vida saudável é falsa. As altas quantidades de suplementos alimentares necessários para essa dieta, além do consumo de hormônios e esteróides para o aumento dos músculos ou substâncias diuréticas para a aceleração do metabolismo pode ter consequências graves no funcionamento do nosso organismo.

O corpo helenístico exibido pelas influenciadoras e influenciadores nas redes sociais não é necessariamente saudável e, além disso, é possível ser gordo, feliz e ter saúde. O acompanhamento de nutricionistas e endocrinologistas é essencial para a compreensão do seu corpo. Se a obesidade é, por um lado, um problema de saúde pública, a pressão por um corpo perfeito e seus impactos na saúde mental das pessoas é tão grave quanto.

“A gordofobia afeta, sobretudo, a saúde mental das pessoas gordas. Viver em uma sociedade que nos é hostil obviamente é um fator que causa sofrimento e, consequentemente, angústia, ansiedade, pânico. Não são raros os casos de pessoas que se afastam de amigos, parentes e familiares, que evitam o contato social e que deixam de sair por se sentirem inadequadas”, afirma a ativista Gizelli Sousa à revista Fórum.

É possível viver fora dos padrões de beleza 

Existem  7 bilhões de corpos no mundo fora dos padrões de beleza. Até a mais magérrima das modelos nas passarelas terá ‘imperfeições‘ em seu corpo, na visão do padrão de beleza. Intervenções como filtros no Instagram, photoshoppagens e cirurgias plásticas continuarão dominando o seu feed enquanto o padrão de beleza seguri sendo racista, eurocêntrico, gordofóbico e sexista.

Acompanhamento de saúde mental, autoconfiança e confiança no afeto dos outros são passes importantes para a construção de uma autoimagem mais saudável e não tão dependente do que você vê no seu feed. Você também pode acompanhar algumas contas que fogem do padrão de beleza. Recomendamos:

– A denúncia de Thais Carla contra nutricionista representa muitas vítimas da gordofobia

– Modelo plus-size estrela da ‘Vogue Italia’ desabafa sobre gordofobia: ‘Bloqueio 50 por dia’ 

Modelo luta pelo fim do conceito de ‘plus-size’

“A verdade é que nenhum corpo é errado, e os corpos foram realmente desenhados para serem diferentes. É o que nos faz único. Cada corpo é único. Mas como começar? Perceber o quanto o seu corpo faz por você (já percebeu como ele te permite andar, respirar, abraçar, dançar, trabalhar, repousar?) pode ser uma estratégia libertadora! Concentre-se nas qualidades do seu corpo e saiba valorizar o que ele tem, porque é ele que irá lhe proporcionar os meios de sobrevivência. Tome a decisão de começar, pouco a pouco, a olhar para ele com olhos mais compassivos. Seu corpo é a sua casa, é isso que importa”, afirma a historiadora Amanda Dabés, historiadora e pesquisadora em Patrimônio Cultural e costumes alimentares, ao IACI.

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Fotos: Getty Images


Yuri Ferreira
Jornalista formado na Escola de Jornalismo da Énois. Já publicou em veículos como The Guardian, UOL, The Intercept, VICE, Carta e hoje escreve aqui no Hypeness.

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