Diversidade

Patriarcado e violências contra a mulher: uma relação de causa e consequência

Yuri Ferreira - 10/03/2021 | Atualizada em - 12/03/2021

O termo patriarcado é muito utilizado na academia e nas redes sociais para descrever a hierarquia de gêneros presente na nossa sociedade. Entender o conceito central das ciências sociais é crucial para compreeender as dinâmicas de poder no nosso mundo e como ele influencia diretamente a vida das mulheres, principalmente pelas diversas formas de violência de gênero.

Patriarcado – significado

Afinal, o que é patriarcado? Segundo Gerda Lerner, importante historiadora norte-americana, patriarcado é a estrutura social que garante a dominação de um grupo social (homens), que impõem seu poder contra outro grupo social (mulheres). Isso acontece de diferentes formas, como por meio de instituições políticas, culturais e religiosas. O patriarcado tece uma profunda estrutura que condiciona a existência das mulheres a posições enfraquecidas e marginalizadas dentro do tecido social.

– Caso Mariana Ferrer revela sistema judiciário que reforça cultura do estupro 

Antes das coletividades humanas serem sedentárias, ou seja, nos tempos em que a humanidade vivia de caça e coleta,  a sociedade patriarcal não existia. Isso porque os homens não entendiam seu papel dentro da reprodução da espécie. Foi a partir do momento em que se compreendeu a importância do sexo masculino na geração da prole que o homem passou a controlar a sexualidade da mulher. A obra que consolida essa teoria é ‘A Criação do Patriarcado’, de 1986, da já citada Gerda Lerner.

Vamos para um exemplo básico que situa, por exemplo, o papel do patriarcado na religião. O nono mandamento, preceito que guia as três principais religiões monoteísticas do mundo e está presente nos Dez Mandamentos de Moisés, diz que “não cobiçarás a mulher do próximo”.

Patriarcado é a estrutura social que garante a dominação de um grupo social, no caso os homens

Aqui, a fé toma um papel preponderante na formação da ideia de que a mulher é, em primeira instância, uma propriedade masculina e que, em segundo lugar, ela, em si, não manifesta desejos, mas sim os homens que as cobiçam e,  portanto, seriam capazes de dominá-la. Na forma que conhecemos, a família é patriarcal.

A instituição da monogamia é um dos exemplos que consagram a ideia do patriarcado. Um exemplo de grupo social que institui a monogamia como arma de violência contra a mulher são os indígenas iroqueses, da América do Norte. Segundo o antropólogo Lewis H. Morgan, as relações extraconjugais eram somente permitidas aos homens. Mulheres que cometessem adultério sofriam graves punições naquele grupo social.

A existência da prostituição (e o ditado que a chama de profissão mais perigosa do mundo) é uma forma de reiterar esse conceito, central para a compreensão do patriarcado e seu significado. Da Grécia Antiga até a atualidade, a história do patriarcado é extensa. Ainda que hajam sociedades matriarcais ao longo da trajetória humana, poucas delas conseguiram resistir à colonizaçõa e à violência da sociedade patriarcal Ocidental.

Entretanto, uma das formas mais recorrentes de instituição do patriarcado na sociedade moderna está nas formas de violência contra a mulher. Estupro, feminicídio, violência doméstica e o assédio sexual são alguns atos que, apesar de mal vistos da boca para fora e criminalizados por lei, tem uma base de sustentação ideológica e são frequentes por conta de sua validação pela estrutura do patriarcado.

A violência contra a mulher e o patriarcado – significado

O patriarcado depende da formatação da construção social do gênero. A mulher se torna frágil, doméstica, quieta, passiva. O homem, portanto, deve criar uma masculinidade violenta, agressiva, poderosa, imperante. Isso está no seio da constituição da família patriarcal. Tal formação acaba por transformar mulheres em vítimas e homens em agressores. A violência passa a ser uma forma de reforço comportamental destes papéis de gênero.

Por que a maior parte das vítimas de violência sexual são mulheres? Por que a maior parte das vítimas de violência doméstica são mulheres? Por que a maior parte das vítimas de violência psicológica são mulheres? Por que existe um grupo de seres humanos que deve se preocupar em andar sozinho a noite e outro não?

Cinco mulheres foram vítimas de feminicídio por dia no Brasil em 2020, segundo dados da Rede Observatório de Segurança. O Fórum Brasileiro de Segurança Pública diz que ocorrem 180 estupros por dia em nosso país.

O patriarcado e os papéis de gênero criam justificativas para esse tipo de violência. A ‘defesa da honra do marido que assassina brutalmente sua mulher, ‘a roupa curta que indica que ela ‘estava pedindo ou a ideia de que a culpa da violência é da vítima. Assim, o patriarcado dá significado às suas próprias violências.

Mulheres argentinas se manifestam pela legalização do aborto

Luta feminista contra a criminalização do aborto é uma forma de tentar abolir uma violência patriarcal validada pelo estado

Estereótipos de gênero 

As formatação dos estereótipos de gênero também acabam dominando a vida psicológica dos homens: são as maiores vítimas de violência com arma de fogo, encontram índices altíssimos de depressão, são a extensa maioria da população carcerária.

“A violência de gênero é expressão  do  patriarcado  e  do  machismo,  visto  que  os  valores  culturais estão associados às desigualdades e a violência instaura a ‘naturalidade’ das diferenças, com estereótipos e códigos de conduta entre homens e mulheres”, afirma a advogada Izabele Balbinotti em artigo à uma publicação da Esmesc.

Há uma relação simbiótica entre a estrutura patriarcal e sua ideologia com a violência de gênero. A cada menino que aprende que o homem deve ser violento e machão, maior a chance de ele se tornar um agressor de mulheres. A cada soco desferido contra uma mulher, mais seu poder é consolidado, mais calada fica a vítima. Assim, as estruturas se mantém.

– Desigualdade entre homens e mulheres no trabalho não diminui há 27 anos 

Angela Davis é símbolo na luta contra o patriarcado

“Agredir, matar, estuprar uma mulher ou uma menina são fatos que têm acontecido ao longo da história em praticamente todos os países ditos civilizados e dotados dos mais diferentes regimes econômicos e políticos. A magnitude  da  agressão,  porém,  varia.  É  mais  frequente  em  países de uma prevalecente cultura masculina, e menor em culturas que buscam soluções igualitárias para as diferenças de gênero”, afirma a socióloga brasileira Eva Blay, sobre a violência e o patriarcado.

As violências do patriarcado ainda ganham novas nuances quando observamos recortes de raça e classe. Mulheres pobres são mais vítimas do que as ricas, as negras são mais objetificadas, silenciadas e abandonadas do que as brancas. E o homem caminha por aí, impondo sua violência e a influencial patriarcal como significado e sentido único do mundo.

Para conhecer mais sobre teóricas feministas que abordam o patriarcado com perspectivas de raça e classe, dá uma olhada nesses textos aqui:

– A vida e a luta de Angela Davis, desde os anos 1960 até o discurso na Marcha das Mulheres nos EUA 

– 8 livros para conhecer e se aprofundar nos feminismos decoloniais 

A boa notícia é que é possível combater o patriarcado. É indo de frente contra aquela fala machista do seu amigo, é dando suporte para as mulheres da sua vida, é não invisibilizando a vítima ou dar fé ao violador, é promover políticas públicas de defesa a mulher, é denunciar os crimes da violência de gênero.

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Fotos: Getty Images


Yuri Ferreira
Jornalista formado na Escola de Jornalismo da Énois. Já publicou em veículos como The Guardian, UOL, The Intercept, VICE, Carta e hoje escreve aqui no Hypeness.