Arte

Escute um quadro de Kandinsky pelo novo projeto do Google que nos permite ouvir cores

Vitor Paiva - 11/03/2021 | Atualizada em - 15/03/2021

Para o grande pintor russo Wassily Kandinsky, uma cor não era algo para ser apreciada somente com os olhos: ele também era  capaz de “ouvir” as cores, como se uma tonalidade fosse um instrumento, e um quadro soasse tal qual uma sinfonia. Foi baseado nessa singular e potente inspiração do gênio russo, o Google desenvolveu o experimento Play a Kandinsky (Toque um Kandinsky, em tradução livre), capaz de tornar, como fazia Kandinsky, cores em músicas. Intitulada “sinestesia”, essa condição e estranha capacidade moveu o artista a criar algumas das mais importantes obras abstratas da modernidade. 

O quadro Yellow-Red-Blue, pintado por Kandinsky em 1925

O quadro Yellow-Red-Blue, pintado por Kandinsky em 1925 © Wikimedia Commons

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Trata-se de uma plataforma interativa que permite que o usuário “ouça” uma cor, simulando por alguns instantes a sensação (e a condição) que tomava o artista diante de uma flor, um pôr do sol, uma peça de roupa, um céu azul. O experimento interativo é, claro, uma interpretação artística sobre a experiência da sinestesia, que “traduz” em sons e peças musicais uma determinada tonalidade ou de detalhe ou parte de um quadro de Kandinsky.

O instrumento e o sentimento de cada cor

Desenvolvido pelo Google Arts & Culture em parceria com o Centre Pompidou, de Paris, a plataforma parte de algumas cores isoladas sobre “telas” digitais, com sons diretamente ligados a cada parte da palheta – vermelho é uma cor que “soa” com violinos, amarelo como trompetes, e azul como o som de um órgão, em relação determinada a partir do que dizia o próprio artista quando “ouvia” as cores.

A abertura da plataforma “Play a Kandinsky” © reprodução

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Em seguida, a plataforma oferece a possibilidade de “escutar” o quadro Yellow-Red-Blue (Amarelo-Vermelho-Azul), de 1925, obra que causou espanto à época em sua época, misturando as cores primárias que batizam o quadro com uma série de formas e traços, com o objetivo de justamente associar as tonalidades às emoções. Pois Kandinsky também tinha tal sintoma em sua sinestesia: para ele, o amarelo provocava sensação de sufocamento, o vermelho de inquietação, e o azul lhe trazia uma calma paradisíaca. Assim, clicando em diferentes partes do quadro, o usuário pode “ouvir” a sinfonia pintada pelo artista, e até mesmo criar sua própria obra-prima de cores e sons.

O pintor russo Wassily Kandinsky em seu ateliê, em 1936

Wassily Kandinsky em seu ateliê, em 1936 © Getty Images

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O legado de Kandinsky – para além da pintura

Se hoje a associação entre cores, formas e sentimentos – e a ideia de que cores e formas abstratas disparam sentimentalidades profundas – pode parecer elementar e evidente, tal conclusão também se deve pelo sucesso e o impacto que o trabalho e o pensamento de Kandinsky no mundo. É claro que a sonoridade e as próprias peças musicais oferecidas pelo experimento Play a Kandinsky não são necessária ou exatamente os sons que o pintor russo ouvia diante das cores – a música da plataforma é uma interpretação livre e artística criada pelos artistas sonoros Antoine Bertin e NSDOS, inspirada nos extensos escritos do artista russo e inteligência artificial.

Wassily Kandinsky diante de um quadro em seu ateliê

Kandinsky nasceu na Rússia em 1866, naturalizou-se alemão e depois tornou-se francês, país onde morreu em 1944 © Getty Images

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© fotos: créditos


Vitor Paiva
Escritor, jornalista e músico, doutorando em literatura pela PUC-Rio, publica artigos, ensaios e reportagens. É autor dos livros Tudo Que Não é Cavalo, Boca Aberta, Só o Sol Sabe Sair de Cena e Dólar e outros amores.


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