Gastronomia

Receitas com maconha: culinária canábica muito além do brigaderonha e dos ‘space cookies’

Gabriela Rassy - 10/03/2021 | Atualizada em - 12/03/2021

A liberação do uso medicinal, industrial e, claro, recreativo da maconha em muitos países do mundo abriu as portas para algo que a gente já experimentava na adolescência, mas com ares renovados – e sem esconder dos pais. As receitas canábicas foram além do brigaderonha e dos ‘space cookies’ para chegar ao nível da inovadora gastronomia.

O assunto que por aqui, atrasadamente, ainda é tratado como caso de polícia, não tem nada de novo pelo mundo afora.

Redes de fast food pra frentex e até restaurantes de grandes chefs, daquele tipo menus-degustação de x etapas, já deram à erva lugar cativo na seleção de ingredientes.

Mas não é só de criativos dos lanchos que a maconha calca seu espaço fora dos telejornais sensacionalistas. Agora estamos falando de investimento pesado de gigantes do capitalismo, como a Coca-Cola, ou mesmo em tantas celebridades hollywoodianas colocando grana na cannabis.

Se lá em 2019, eu mesma presenciei o SXSW abrir espaço para o Cannabusiness, além de inúmeros negócios locais com produtos à base de CBD, no ano anterior já havia um reality show da Netflix focado nas receitas cannabicas. E a gente aqui elegendo admirador da ditadura. Vai entender.

Mas como o mundo não gira, ele capota, o retrógrado e pandêmico Brasil de 2020 via a Anvisa começar seu engatinhar – com todos os melindres capitalistas já comuns aos nossos três poderes – na aprovação do uso medicinal da santa erva.

Brisa que veio para ficar

O tão falado CBD já é mais do que comum nos países que se adiantaram nessa poderosa indústria. Seu óleo já pode ser pingado na cerveja, no café e no chá há tempos nos EUA, onde o uso recreativo da maconha já é permitido em 11 estados. Mas agora, a expectativa é alçar brisas mais altas.

A legalização da maconha em alguns países trouxe para a cena o THC, responsável pela sensação estimulante. Esse sim agora ganha seu devido espaço.

Já está mais do que provado que, tanto o CBD quanto o THC, têm efeitos benéficos na saúde humana. Isso vai desde o tratamento de doenças gravíssimas, como a epilepsia, como no alívio do estresse. Vide a liberação para o uso no Brasil.

O Original Cannabis Café, conhecido também como Lowell Café, primeiro café canábico dos Estados Unidos foi aberto em outubro de 2019, na Califórnia. Sua sócia, Andrea Drummer, é formada na escola de culinária Le Cordon Bleu e autora de um livro sobre o tema. O espaço possibilita que o cliente deguste pratos saborosos enquanto pita uma das cepas disponíveis na casa.

“Nenhuma receita no Lowell é infusionada com maconha. Legalmente, ainda não podemos fazer isso. Apenas harmonizamos muitos itens do cardápio com cepas específicas que temos na casa”, contou a chef à Vogue.

O 99th Floor é uma das muitas novas empresas trabalhando para atender o novo consumidor de cannabis. Graças à crescente aceitação social e legalização da cannabis, o número de adultos experimentando pela primeira vez está disparando.

E uma grande quantidade de pessoas não está fumando – e sim comendo e bebendo. De acordo com estudos da Arcview Market Research e BDS Analytics, que estuda o consumo de cannabis, a categoria de maior crescimento é a cannabis consumível.

Ao redor dos Estados Unidos, chefs e comensais estão explorando a versatilidade da planta de cannabis  infundindo com alimentos, combinando maconha inalada com comida e explorando o espectro de perfis de sabor e efeitos psicoativos distintos de diferentes cepas de cannabis.

Sucesso de crítica e público

Já em países na Europa, as prateleiras de supermercados já apresentam produtos feitos à base de semente de maconha, que são muito nutritivas, com considerável quantidade de proteínas, fibras, minerais e vitaminas.

Hoje, um dos maiores negócios deste segmento é nada menos que bala. As gomas de gelatina gummies, na versão com CBD em baixar concentração, correspondem a cerca de 90% da participação do mercado. Já existem pelo menos 30 marcas apostando nessa tendência.

E esta indústria de balas de CBD deve crescer 28% entre 2019 e 2029, segundo o relatório Fact.MR. “Dentro de alguns anos, mais estados nos EUA deverão legalizar o consumo de CBD para fins medicinais ou recreativos. Essas tendências devem impulsionar a demanda por CBD no país ”, conclui o relatório.

Chris Sayegh, um nome já conhecido do mercado gastronômico canábico, passou por cozinhas estreladas até abrir o The Herbal Chef.

A plataforma de culinária pretende destigmatizar a “Medicina Vegetal por meio da Cozinha Moderna”, como diz o próprio site. Ali é possível contratar um chef para cozinhar em casa ou num evento, usando os conhecimentos da planta medicinal.

A chef Coreen Carroll e seu marido, Ryan Bush, criaram a Cannaisseur Series também na pegada particular de cozinha, para oferecer experiências gastronômicas com a planta todinha, incluindo as flores e as folhas.

“Essas cinco folhas de erva daninha… devem conter cerca de 0,7% de THC. Só o suficiente para deixá-lo de bom humor ”, disse o gerente do primeiro restaurante canábico da Tailândia.

O bom humor está no menu a apenas algumas horas de Bangkok, no que parece ser mais um café à beira de um charmoso rio, embora transformado pela adoção do bem-estar à base de cannabis. É lá que Amara Akamanon prega os benefícios de um menu infundido com ingredientes que eram criminosos até dezembro de 2020.

Duas semanas depois que a lei foi emendada para desclassificar a maior parte da planta de maconha como ilícita, Ban Lao Rueng (Storytelling House), na cidade de Prachinburi, atualizou seu menu com pratos de maconha, como o prato de “tempura weed”, bem como pizzas e sucos de cannabis.

Pratos com infusão de cannabis agora são servidos também em Bangkok. O 420 Cannabis Bar Bangkok foi inaugurado graças à descriminalização que agora permite que as folhas de maconha sejam usadas para fins comerciais por entidades licenciadas.

Aberto em fevereiro deste ano, o local iluminado por neon tem alguns banquinhos para os clientes se sentarem e saborearem bebidas contendo CBD.

E o Brasil está de fora?

Mais ou menos. Mais para menos que para mais. O rapper Wiz Khalifa tem nada menos que uma marca de gin feita em Jundiaí, no interior de São Paulo, mas deve iniciar um sistema de delivery com receitas canábicas que vão dos brownies ao clássico mac’n’cheese, em Houston, no Texas.

Já o chefe capixaba Gustavo Colombeck, foi ao Uruguai aprender e investir na gastronomia com cannabis. Depois de abrir os trabalhos com alfajores, ele passou a oferecer o serviço de chef particular, além de eventos privados no Museu da Cannabis, em Montevideo.

O que já temos de real por aqui são cursos que ensinam os métodos para entrar neste mundo de sabores e sensações, como os do Growroom.

O cozinheiro Bruno Buko, conhecido como Green Chef, pesquisa o uso alimentício da cannabis há mais de dez anos. Ele também mora no Uruguai e, deste ambiente legalizado, pode pesquisar e oferecer harmonizações para aproveitar ao máximo o potencial da planta.

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Gabriela Rassy
Jornalista enraizada na cultura, caçadora de arte e badalação nas capitais ensolaradas desse Brasil, entusiasta da cena musical noturna e fervida por natureza.

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