Inovação

Rede Wayuri: o coletivo de jornalismo criado por jovens indígenas que faz toda a diferença na Amazônia

por: Vitor Paiva

No noroeste do estado do Amazonas, o jornalismo é a arma da Rede Wayuri para combater as fake news, proteger as populações originárias e locais e levar os fatos e as informações até a ponta do mapa, conhecida como “cabeça de cachorro” pelo seu formato. Formada em 2017 por 26 comunicadores de 10 povos diferentes e com correspondentes espalhados por toda a bacia hidrográfica do Rio Negro, a rede trabalha para enviar até a região de São Gabriel da Cachoeira algo que, para quem vive nas grandes cidades, é hoje tão acessível quanto o próprio ar: informações.

Parte da equipe da Rede Wayuri

Parte da equipe da Rede Wayuri

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Nos arredores da cidade, conhecida como capital indígena, vivem 420 comunidades originárias divididas em 23 etnias com 19 idiomas diferentes – e por isso é tão importante o trabalho da equipe que, em São Gabriel, produzem, redigem, traduzem, gravam, editam e compartilham os boletins em áudios de notícias para a região na floresta Amazônica.

Transmissão de rádio realizada pela Rede Wayuri

As transmissões de rádio são parte fundamental da rede

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A difusão dos boletins se dá por grandes plataformas como Spotify e SoundCloud mas principalmente por WhatsApp. Muitas aldeias, porém, não possuem acesso à internet, e por isso a “transmissão” se dá de modo bastante mais analógico: muitas vezes a notícia chega em pendrives enviados por barcos que viajam dias para chegar aos destinos. Em cada local, a criatividade e as possibilidades imperam para que a população tenha acesso a informações reais, apuradas e editadas devidamente. “Nas terras indígenas se espalham graças à rádios-postes. É um megafone preso em um poste, ligado à uma mesa de áudio. As pessoas são reunidas para ouvir os boletins e saber o que está acontecendo”, afirma Claudia Ferraz Wanano, locutora-repórter-editora da rede, em matéria do site Elástica.

Repórteres da Rede Wayuri em ação nas águas do Rio Negro

Repórteres da Rede Wayuri em ação nas águas do Rio Negro

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A Rede nasceu com 17 jovem sob o nome de Rede de Comunicadores Indígenas do Rio Negro, mas mudou para Wayuri, que na língua nheengatu, quer dizer “trabalho coletivo, mutirão”.

O símbolo da Rede Wayuri, desenhado pelo artista Feliciano Lara

O símbolo da Rede desenhado por Feliciano Lara

Os boletins são produzidos em português mas também nos idiomas locais, e o símbolo da iniciativa foi desenhado por Feliciano Lara, líder do povo Desana e maior artista da região, mostrando comunicador ao microfone com montanha Bela Adormecida, cartão postal do Alto Rio Negro, ao fundo, e um cocar ao redor – lamentavelmente o artista recentemente faleceu aos 84 anos, vitimado pela Covid-19.

Os boletins também são enviados diariamente pela radiofonia da  Federação das Organizações Indígenas do Rio Negro (Foim) e até por carros de som – e foi por esse trabalho exemplar que a Rede Wayuri recebeu, em 2020, o prêmio “Heróis da Informação”, junto de outras iniciativas internacionais, pela ONG francesa Repórteres sem Fronteiras.

Parte da equipe da rede Wayuri

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É prêmio justo, pois cada passo dado para que a boa informação se espalhe por uma Amazônia pouco conectada exige muito trabalho, dias de viagem, esforços difíceis de se imaginar para jornalistas de uma grande cidade – e um compromisso verdadeiramente especial com a verdade, com a vida, com a importância dos fatos e do jornalismo, que faz da Rede Wayuri um exemplo para qualquer pessoas ou organização que tenha apreço pela verdade e pela liberdade.

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© fotos: ISA/Facebook


Vitor Paiva
Escritor, jornalista e músico, doutorando em literatura pela PUC-Rio, publica artigos, ensaios e reportagens. É autor dos livros Tudo Que Não é Cavalo, Boca Aberta, Só o Sol Sabe Sair de Cena e Dólar e outros amores.


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