Debate

Supremacista branco preso na Nova Zelândia fez mesmo gesto de assessor de Bolsonaro

Yuri Ferreira - 25/03/2021

Na última quarta-feira (24), o assessor especial para assuntos internacionais do Presidente da República, Filipe G. Martins, fez um gesto associado à supremacia branca durante um discurso do presidente do Senado, Rodrigo Pacheco (DEM-MG), em sabatina com Ernesto Araújo, ministro de Relações Exteriores.

O gesto realizado pro Martins, que uniu o dedo indicador ao dedão formando um círculo, também foi feito por Brenton Tarrant, supremacista branco de extrema-direita que, em 2019, matou 51 pessoas em um atentado terrorista na Nova Zelândia.

Defensor de Trump, assessor de Bolsonaro fez gesto de supremacistas brancos durante debate do Senado Federal

O gesto lembra um ‘OK’, mas têm sido utilizado por supremacistas brancos como forma de identificação de membros. O assessor de Jair Bolsonaro nega ter feito o movimento com essas intenções e se defende afirmando que é judeu, portanto não poderia ser supremacista branco.

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O gesto foi classificado como um forte indicador de supremacistas brancos pela ADL (Liga Antidifamação), organização que monitora crimes de ódio nos EUA.

Veja o vídeo com o gesto feito por Filipe Martins:

Defensor de Trump, Filipe Martins nega ser supremacista branco

O caso ganhou a repercussão em diversas redes sociais e movimentos da comunidade judaica se manifestaram contra Filipe G. Martins:

O assessor da presidência da República é um fiel defensor de Donald J. Trump, ex-presidente dos EUA que foi derrotado nas últimas eleições. Trump era apoiado por supremacistas brancos e, quando questionado se condenava a filosofia de seus seguidores, o presidente americano não disse nada.

O presidente do Senado Federal, Rodrigo Pacheco, instaurou uma investigação para apurar o caso. A polícia do Senado foi acionada e Filipe Martins terá de prestar depoimentos sobre o caso.

Relembre o atentado de Christchurch

Terrorista cristão neozelandês também fez gesto ao ser condenado pelo homicídio de 51 pessoas

O atentado de Christchurch foi realizado na cidade homônima na Nova Zelândia e se tornou um dos principais casos de terrorismo cristão e de supremacia branca da história. Brenton Tarrant fez uma live no Facebook para transmitir o maior crime de ódio da história neozelandesa.

O cristão de 29 anos publicou uma manifesto defendendo a sua ‘tradição europeia‘ e logo após fez a transmissão do ataque nas redes sociais. Ele matou 51 pessoas e feriu outras 49. Os principais alvos foram duas mesquitas.

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O supremacista foi condenado à prisão perpétua sem direito à liberdade condicional. Depois do resultado de seu julgamento, Tarrant fez o mesmo sinal que o assessor especial de Jair Bolsonaro.

As coincidências não param por aí: segundo o jornalista Oliver Stuenkel, a capa do Twitter de Martins utiliza uma frase do poema ‘Do Not Go Gentle into That Good Night’, de Dylan Thomas, que também foi citado por Tarrant no seu manifesto antes do ataque.

Outros associações do governo ao nazismo e à supremacia branca

Não é a primeira vez que há associação de membros do governo federal com a supremacia branca e o nazifascismo. A primeira delas vem desde antes do início da gestão Bolsonaro. Em 2006, quando ainda deputado federal Jair Bolsonaro trocou cartas com Marcus Vinícius Garcia Cunha, preso por apologia ao nazismo. O conteúdo dessas correspondências nunca foi divulgado pela polícia.

Roberto Alvim copiou discurso de Goebbels e utilizou música de compositor antissemita em comunicado oficial do governo federal

Em maio de 2020, Bolsonaro fez uma transmissão ao vivo tomando leite junto de assessores e ministros. O gesto foi, segundo o governo, um desafio da Abraleite. Entretanto, Bolsonaro não citou isso durante a transmissão. Segundo o antropólogo David Neimer, a atitude é importada do supremacismo branco estadunidense.

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“Nacionalistas brancos fazem manifestações bebendo leite para chamar a atenção para um traço genético conhecido por ser mais comum em pessoas brancas do que em outros – a capacidade de digerir lactose quando adultos. É uma tentativa racista para se embasar em ‘ciência’ para diferenciar e justificar a ‘raça branca’. Mas como já provado e explicado por toda ciência: Não há evidência genética para apoiar qualquer ideologia racista. O que há é, na verdade, um governo tosco e motivado pelo ódio”, explicou.

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“O extremismo do Bolsonarismo é tão tosco que eles apropriam tudo da Alt Right (extremistas brancos americanos) e com atraso – já que isso começou nos EUA em 2017”, adiciona.

Em janeiro do ano passado, o ex-secretário especial de Cultura, Roberto Alvim, copiou um texto de Joseph Goebbels, Ministro de Propaganda da Alemanha Nazista, para falar sobre um novo programa do governo. Além disso, Alvim utilizou uma composição de Wagner para sua trilha sonora. O compositor alemão foi um difusor do antissemitismo na Alemanha e era adorado por Adolf Hitler.

Mas são só coincidências.

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Destaques: Montagem:  © Getty Images e Reprodução/Twitter Foto 1: Reprodução/Twitter Foto 2: © Getty Foto 3: Reprodução/Youtube


Yuri Ferreira
Jornalista formado na Escola de Jornalismo da Énois. Já publicou em veículos como The Guardian, UOL, The Intercept, VICE, Carta e hoje escreve aqui no Hypeness.

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