Debate

Aluna aprovada em 1º tem matrícula cancelada; Unirio é acusada de dificultar vida de cotistas negros

Vitor Paiva - 14/04/2021 | Atualizada em - 15/04/2021

A decisão tomada pela Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (UniRio) de cancelar a matrícula da estudante Amanda Silva Gomes gerou revolta e mobilização entre alunos e professores ligados à instituição. Aprovada em primeiro lugar para o curso de teatro, Amanda se viu em meio a um labiríntico processo burocrático a fim de garantir sua vaga, que vem lhe impedindo de seguir os estudos: o cancelamento foi justificado pela ausência de uma folha em branco na documentação de sua comprovação de renda.

A estudante Amanda Silva Gomes

A estudante foi aprovada em primeira colocação na UniRio © arquivo pessoal

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A jovem é atriz, professora de teatro da companhia Megaroc, em Realengo, na Zona Oeste do Rio e, por ser cotista, teve de apresentar tal documentação para sua comprovação de renda. Depois de um já longo e confuso processo inicial de exigência e entrega da documentação, Amanda afirma não ter sido informada sobre a falta da cópia de uma página em branco de sua carteira de trabalho. Um dia antes de recomeçar as aulas em 2021 ela descobriu que a decisão do juiz que garantia seu direto de estudar havia sido recorrida, e que sua matrícula estava cancelada. Segunda Amanda, a excessiva burocracia do sistema de cotas afetou também outros alunos, que enfrentaram dificuldades ou mesmo tiveram problemas na justiça para poderem ingressar na universidade.

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“Eu passei em 2020 no vestibular em primeiro lugar, e quando você é cotista é exigido uma montanha de documentos para fazer a matrícula. Por falta de orientação, por falta de informação e por causa de uma folha em branco; a minha matrícula foi indeferida. Eu precisei contratar uma advogada e tirar dinheiro de onde não tinha para conseguir estudar em uma faculdade que é pública”, afirmou a aluna, em relato gravado em vídeo para o Instagram. “A UNIRIO entendeu que era mais importante ter uma vaga ociosa do que me ter estudando”, comentou. “Estou tornando esse caso público porque eu quero voltar a estudar”

O cancelamento da matrícula representa também a suspensão da Bolsa de Incentivo Acadêmico a qual a aluna tem direito. Sem imaginar que poderia enfrentar tal processo – que se agrava, nas palavras de Amanda em entrevista ao site Ponte, pelo “racismo estrutural que permeia as faculdades federais” – ela pediu demissão de seu trabalho e cancelou a matrícula em outra universidade quando soube de sua aprovação na primeira colocação. Em 2020 ela cursou com excelência todas as matérias disponíveis, utilizando somente seu telefone como ferramenta para as aulas realizadas remotamente por conta da pandemia, e foi aprovada com 10 nos cursos.

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A reportagem na Ponte denuncia outros casos em que a UniRio dificultou a matrícula de cotistas negros. O departamento de teatro da universidade redigiu uma nota de apoio à aluna, lembrando que “do ponto de vista acadêmico, Amanda se mostrou, mesmo durante o distanciamento social exigido pela pandemia do coronavírus, uma estudante exemplar: séria, dedicada, participativa, colaborativa e sempre presente. Suas notas finais nas disciplinas que cursou demonstraram excelência acadêmica, tendo seu Coeficiente de Rendimento atingido 10″, diz o texto. Um abaixo-assinado realizado pela Associação dos Docentes da Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (Adunirio) e pedindo pela permanência da estudante foi aberto na internet, já contando com quase 30 mil assinaturas quando da publicação da presente matéria.

Prédio da UniRio, no bairro da Urca, no Rio de Janeiro

Prédio da UniRio, no bairro da Urca, no Rio de Janeiro © Wikimedia Commons

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Em nota assinada pelo pró-reitor da graduação, professor Alcides Serpa Guarino, a UniRio afirmou que o cancelamento se deu em juízo federal e somente pela falta de comprovação documental socioeconômica exigida para a aprovação por cota. “A Procuradoria Regional Federal, órgão externo à Universidade, apresentou recurso à instância superior questionando a liminar concedida em primeira instância. Uma turma formada por três Desembargadores Federais analisou as informações prestadas e, por unanimidade, reconheceu a lisura do processo, determinando o cancelamento da decisão provisória anteriormente proferida”, diz trecho. O texto de apresentação do abaixo-assinado, porém, afirma que a nota da universidade “omite e distorce vários fatos”. A nota da UniRio pode ser lida na íntegra no site da instituição.

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Vitor Paiva
Escritor, jornalista e músico, Vitor Paiva é doutor em Literatura, Cultura e Contemporaneidade pela PUC-Rio. Autor dos livros Tudo Que Não é Cavalo, Boca Aberta, Só o Sol Sabe Sair de Cena e Dólar e outros amores, publica artigos, ensaios e reportagens.